Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

A atualidade de Paul Bourget

Postado em 11-10-2011

Pe. João Batista de Almeida Prado Ferraz Costa

Múltiplos aspectos dignos de estudo oferece ao leitor atento a obra de Paul Bourget. Composta de romances, novelas, peças teatrais, poesias, crítica e ensaios, sua vasta obra, escrita em fins do século XIX e princípio do século XX, mantém sempre o seu valor intrínseco, não só em razão da beleza literária mas, sobretudo, em razão dos temas explanados.

Paul Bourget foi um romancista de tese. Em seus livros quis persuadir o leitor da veracidade de suas convicções filosóficas, políticas e religiosas. Mas, ao contrário do intelectual esquerdista “engajado” que tenta impingir ao leitor suas ideologias absurdas seja através de técnicas bem conhecidas como o reducionismo e a exacerbação de aspectos da realidade seja mediante diatribes difamatórias, Bourget propõe-se provar em seus romances que tudo aquilo que a moral e a Igreja nos dizem ser bom ou ruim, e às vezes podem parecer-nos princípios teóricos distantes da realidade concreta da vida quotidiana do homem, é confirmado pela experiência histórica. Quer dizer, assim como as boas instituições jurídicas e políticas adquirem maior robustez quando fundadas na tradição, assim também a lei moral é ratificada pela lição da história social.

Un divorce é um dos romances mais famosos de Bourget. Nele, o grande romancista demonstra, com uma argumentação indestrutível, como o divórcio é contrário à lei natural, ilusório e enganador para quantos dele se valem em busca da reconstrução da felicidade. Paul Bourget prova que, ainda que se despreze o ensinamento da Igreja a respeito, o divórcio se afigura como um mal. Porque é um erro, a Igreja condena o divórcio, e não o inverso.

Em Un divorce há um diálogo belíssimo entre dois personagens: a sra. Albert Darras e o padre Euvrard. A sra. Darras, insatisfeita com sua vida de divorciada e desejosa de obter da Igreja a declaração de nulidade do seu casamento, procura o sacerdote, dizendo-lhe que a lei da Igreja sobre o matrimônio é injusta e descaridosa. Em sua resposta, que é uma preleção de sociologia, o padre diz – o que parece um truísmo – que há circunstâncias da vida em que a justiça e a caridade exigem o sacrifício do interesse individual ao interesse geral. E, demonstrando à sra. Albert Darras que as civilizações superiores sempre tenderam à monogamia (e portanto há uma identidade entre a lei da Igreja e a lei nascida da experiência histórica) e que o divorcio não passa de uma poligamia sucessiva, o padre Euvrard diz à sra. Albert Darras: “A senhora sacrificou a sociedade à felicidade individual. A senhora e seu segundo marido constituíram, em sua humilde esfera, um tipo de lar anárquico, tanto mais funesto quanto, com ele, a senhora e seu marido deram o exemplo, por suas virtudes, da decência na irregularidade, de uma aparência de ordem na desordem. É isto que torna tão temíveis os extravios das almas que receberam e guardaram belos dons. Sua nobreza natural as acompanha, mesmo em seus erros. Elas caem sem se aviltar. Dissimulando a fealdade do mal, elas o propagam mais perigosamente.”

Hoje, o divórcio está incorporado aos usos e costumes da nossa sociedade. É raríssimo encontrar uma família onde não tenha entrado, dividindo-a e multiplicando-a ao mesmo tempo, e criando na sociedade uma série de corpúsculos desordenados. No Brasil, por exemplo, o divórcio difundiu-se de tal modo que, hoje, seria mais fácil restaurar o império do que revogar a lei que o introduziu. No entanto, independentemente da marcha do mundo, o divórcio, ainda que para uma parcela diminuta da sociedade que não perdeu totalmente a consciência moral, será sempre uma corrupção da legislação que deveria proteger e promover a instituição natural da família, em vista do bem e da ordem social.

No entanto, diante da realidade social que se degrada rapidamente (ainda mais com a legalização do “casamento” e da “família” gays), não há motivo para desespero. Pois, quando se leva à iniqüidade ao extremo, as conseqüências são bem conhecidas: ou a iniqüidade se destrói a si mesma e cede lugar a uma realidade mais condizente com as exigências e limites da natureza humana ou é chegada a hora de uma intervenção divina na história.

Machado de Assis dizia que às vezes o vício é o estrume de que se nutre a virtude, o que não a impede de ser uma flor perfumosa. Diante de tamanha imoralidade e depravação em toda sociedade ficará cada vez mais patente a frustração daqueles que se deixaram aliciar pelo visgo do pecado e terá chegado a hora de uma grande evangelização e restauração dos valores.

Em outro romance L’emigré, Bourget demonstra que a verdadeira política é empírica e que a boa organização social brota da tradição nacional. Um dos personagens centrais do romance, o Sr. De Claviers-Grandchamp, diz, explicando a constituição costumeira da França do Antigo Regime, que um dos erros graves da democracia moderna é querer fundar a sociedade no indivíduo quando a natureza quer que ela seja fundada na família. As palavras ditas por esse personagem de Bourget – não é possível transcrevê-las – nos sugerem como seria bom se os nossos homens públicos se convencessem de que a constituição da sociedade é orgânica (composta por famílias e outros grupos naturais e históricos ) e, assim, abolissem de uma vez por todas o sufrágio universal individualista, nivelador, injusto, demagógico e corrupto.

Resta dizer, por derradeiro, que o traço mais admirável da obra de Paul Bourget é justamente conciliar o seu alto conteúdo doutrinário com a suavidade literária do romance.

 

Anápolis, 11 de outubro de 2011.
Maternidade de Maria Santíssima