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Missa no rito romano tradicional em Anápolis

A desgraça do mundo moderno

Postado em 13-11-2015

Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa

Quantas e quantas vezes em meu combate, em discussões mais acaloradas, não ouvi uma sentença mais ou menos nestes termos: “Não se deu conta ainda de que o mundo se libertou das trevas da ignorância, dos preconceitos, dos tabus, da tirania, do despotismo, graças ao iluminismo?”

É preciso, pois, estudar e entender melhor o que foi o iluminismo e suas consequências. Há uma vasta e excelente literatura sobre o assunto. Todavia, nunca é demais tentar informar um público maior, não dado a leituras mais densas, um público que acaba sendo enganado pela propaganda ideológica subversiva que doura o iluminismo como se representasse um grande avanço da humanidade, uma descoberta libertadora do homem, que o tivesse tornado essencialmente melhor que o homem antigo, o homem histórico, ou ainda mais perfeito que o homem redimido e feito filho de Deus pelo batismo e membro do corpo místico de Cristo a Santa Igreja Católica.

A primeira coisa que cumpre dizer é que o iluminismo não representa absolutamente um período de desenvolvimento e aprofundamento da filosofia ou de um progresso do conhecimento humano em geral. Não houve disparate que não fosse sustentado pelos “filósofos das luzes”, como, por exemplo, a negação da causalidade por David de Hume, um dos precursores do iluminismo. Ele, contraditoriamente, queria descobrir a causa que levava o homem a confundir a sucessão constante entre dois fenômenos  com a relação de causa e efeito! E o pior é que tal absurdo lhe valeu a a admiração de outros autores que aumentaram e sofisticaram ainda mais os seus erros.

Acrescente-se ainda que os verdadeiros métodos científicos modernos não devem nada ao iluminismo. Bacon é anterior ao iluminismo e certamente ficaria horrorizado com o que alguns iluministas disseram sobre a ciência. E debocharia do otimismo pueril de muitos deles.

Outra acusação que se deve fazer contra o iluminismo é quanto ao seu endeusamento da razão. O hino iluminista à razão está longe de ser um reconhecimento reverente da capacidade da inteligência humana de conhecer a natureza humana e o mundo, adequar as coisas às necessidades do homem e promover, enfim, a ciência e a cultura. Pelo contrário, há no iluminismo uma tendência a rebaixar o homem à condição de irracional. É verdade que tal tendência  prevalece, sobretudo, em um Rousseau, justamente por isso classificado, sob certos aspectos, como um opositor do iluminismo.

Entretanto, é inegável que o fruto próprio do iluminismo tenha sido um amesquinhamento da razão humana considerada inepta para conhecer a realidade e reduzida a instrumento (por contraditório que pareça) de manipulação da realidade. O endeusamento da razão significa apenas um desprezo da fé, seja porque basta uma religião natural (o homem é bom e não precisa de uma religião redentora) seja porque o homem não pode sequer saber racionalmente se Deus existe.

Pois bem. A razão humana reduzida a instrumento de manipulação da realidade será empregada especialmente na planificação da sociedade e na direção da economia. Tudo deverá ser enquadrado no método geométrico. Como se vê, a consequência não pode ser outra senão desembocar num dirigismo socialista, centralizador, estatizante, na pior tirania que se possa conceber. É a desgraça do mundo moderno. O professor Wolfgand Röd, em sua obra O caminho da filosofia (Brasília UNB, 2014) mostra muito bem a relação entre o iluminismo e o socialismo.

Por conseguinte importa reconhecer que a democracia moderna, nascida da Revolução Francesa, sob o influxo do iluminismo, nos conduz ao totalitarismo na medida em que despreza as instituições tradicionais, a formação orgânica e história da sociedade e tenta organizar toda a vida social por meio de uma panacéia chamada constituição feita por “legisladores” e “representantes do povo soberano” escolhidos por meio da mentira universal das urnas.

Ademais, o iluminismo leva ao desamor e à desunião entre as famílias e os homens em geral. Com efeito, negando a capacidade da inteligência do homem de conhecer a realidade objetiva, nega ipso facto à vontade do  homem a capacidade de amar e respeitar o seu semelhante tal qual é mas só enquanto se adapta ao molde a que o submete. É por isso que os comunistas dizem “pior para os fatos” se resistem à revolução. À “companheirada” tudo; aos outros, mentira e paredon!

Esse subjetivismo da mentalidade revolucionária é a causa de tantos caprichos e arbitrariedades das autoridades modernas que se dizem democráticas, abertas ao diálogo, tolerantes etc, mas na verdade só cultuam seus juízos e idéias próprias que dizem valer mais que toda a história da humanidade, que toda a tradição, enfim, mais que todo o o mundo.

Assim, por exemplo, Paulo VI dizia: “Sono convinto che un pensiero mio, un pensiero della mia anima, vale per me più di qualunque cosa al mondo” (Apud Romano Amerio,  Iota Unum, Ricciardi, Milano, 1985, p. 155). Sem dúvida, parece que se está lendo uma página de Descartes. Cogito, ergo sum!

É por causa desse subjetivismo da cultura moderna que os papas pós-conciliares não aceitaram nenhuma advertência por reverencial que fosse, no sentido de alertá-los de que as novidades que se estavam introduzindo na Igreja eram perniciosas e demolidoras. Pense-se, por exemplo, no famoso Breve Exame Crítico da Missa Nova enviado a Paulo VI pelos cardeais Bacci e Ottaviani. Recorde-se o famoso episódio ocorrido durante o Vaticano II quando um prelado advertiu Paulo VI sobre o perigo da colegialidade como um erro condenado pela Tradição e, não obstante, Montini saiu em defesa da novidade.

De modo que hoje só um milagre poderá demover Francisco I de sua obstinação na nova pastoral familiar. Cada um tem sua concepção de bem e deve segui-la, disse ele.

Para quem está imbuído da cultura moderna, está claro que a tradição não vale nada. A família muda ao longo da história. Nada foi sempre assim no mundo  e talvez no futuro as coisas pouca semelhança guardem com o que vivemos hoje. O homem pode planejar tudo a seu bel prazer.

Que restará à Igreja dizer ao homem moderno?

Anápolis, 13 de novembro de 2015.

Festa de São Diogo confessor