Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

A herança doutrinária de D. Marcel Lefèbvre

Postado em 17-10-2017

Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa

Desejo congratular-me efusivamente com o Rev. Pe. Paul Aulagnier, do Instituto do Bom Pastor (IBP), pela publicação do seu opúsculo A herança doutrinária de D. Marcel Lefèbvre, publicado no Brasil sob os auspícios da Associação Cultural Montfort.

A referida obra é altamente recomendável para quem quer introduzir-se no estudo das controvérsias doutrinárias causadas pelo Concílio Vaticano II e as reformas posteriores ao concílio, principalmente a reforma litúrgica, o ecumenismo e o inaceitável espírito de Assis. Com efeito, o Pe. Aulagnier explica todas as razões, todos os argumentos que embasaram as críticas formuladas por D. Marcel Lefèbvre aos documentos do Vaticano II em contradição com o magistério perene da Igreja. E faz ver também que o que movia D. Lefèbvre em seu enérgico combate era seu entranhado amor à Igreja, ao sacerdócio católico, ao santo sacrifício da missa e ao Reinado Social de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Porque amava a Santa Igreja, D. Lefèbvre não podia aceitar o ecumenismo modernista, nem o espírito de Assis, em contradição com a Mortalium animos de Pio XI e, consequentemente, tinha de rejeitar os documentos conciliares Unitatis redintegratio Nostra aetate. Porque amava o sacerdócio católico e o santo sacrifício da Missa, ameaçados pela reforma litúrgica, D. Lefèbvre fundou a Fraternidade Sacerdotal São Pio X para preservar esse tesouro da Igreja e suportou heroicamente uma perseguição cruel. Pe. Aulagnier cita D. Lefèbvre na contracapa do seu livro: ” A Redenção de Nosso Senhor Jesus Cristo com todos os seus frutos: eis o que nos dá a missa de sempre, eis o que não mais exprime claramente a Missa Nova. Eis porque eu a recuso.”

Porque amava Nosso Senhor Jesus Cristo (Credidimus caritati era o seu lema episcopal), D. Lefèbvre tinha de ser um paladino do Reinado Social de Cristo, tinha de ser fiel aos ensinamentos do Syllabus de Pio IX e da grande encíclica Quas primas de Pio XI, a carta magna do Reinado Social de Cristo, e, por isso mesmo, tinha de rejeitar a declaração Dignitatis humanae do Vaticano II sobre a liberdade dos cultos. Informa o Pe. Aulagnier, na página 63 do seu opúsculo, que D. Lefèbvre, em suas conferências no Seminário de Ecône, lia horrorizado as afirmações do Cardeal Ratzinger em seu livro Princípios de teologia Católica. As afirmações de Ratzinger eram, para ele, uma confirmação da sua própria análise do Vaticano II.

Realmente, estou muito satisfeito com a leitura do livro do Pe. Paul Aulagnier e agradeço de coração ao meu amigo que mo presenteou. Alegra-me profundamente saber que o autor, um sacerdote do Instituto do Bom Pastor, bem como a instituição que promove a difusão de sua obra no Brasil, reivindicam abertamente a herança doutrinária de D. Marcel Lefèbvre.

A publicação da referida obra representa uma iniciativa muito oportuna que vem remover rumores e cochichos indecentes da parte daqueles que diziam, ou mesmo justificavam, que era bom que houvesse católicos tradicionalistas infiltrados na Igreja “oficial”, agindo à maneira de quinta-colunas que clandestinamente solapam as inovações e reformas do Vaticano II.

Contudo, depois da leitura de A herança doutrinária de D. Marcel Lefèbvre, ficam algumas perguntas que não querem calar. Se hoje instituições reconhecidas oficialmente pela Igreja pós-conciliar ou que colaboram estreitamente com a hierarquia podem reivindicar a herança doutrinária de D. Lefèbvre, por que o Instituto dos Franciscanos da Imaculada sofreu uma brutal intervenção acusado de ser “criptolefebvrista”? Por que o Vaticano recusa à Fraternidade Sacerdotal São Pio X o reconhecimento canônico a que tem direito desde que foi supresso arbitrariamente seu estatuto canônico em 1974? Por que o cardeal Burke, que há poucos meses visitou o Brasil e pontificou nas paróquias do IBP e no Reino de Maria (sede do Instituto Plínio Correa de Oliveira em São Paulo), acaba de declarar que a Fraternidade Sacerdotal São Pio X é cismática?

Espero que em breve todas essas injustiças clamorosas sejam reparadas. Que a Fraternidade São Pio X tenha seu estatuto canônico restabelecido. Que o Instituto dos Franciscanos da Imaculada e seu fundador tenham sua honra resgatada.

Espero também que o cardeal Burke vá um dia a Ecône ajoelhar-se diante da tumba de D. Marcel Lefèbvre agradecer-lhe. Porque, se hoje ele, com tanta pompa, quase como um pavão, pontifica em reinos e paróquias no rito romano tradicional, é graças ao Arcebispo Dom Marcel Lefèbvre e D. Mayer, os únicos que nesta terrível crise da Igreja não tiveram duas caras, não foram dissimulados, não se valeram de nenhuma restrição mental.

Anápolis, 17 de outubro de 2017.

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