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A inteligência e o coração do homem em São João Crisóstomo

Postado em 23-01-2009

Pe. João Batista de Almeida Prado Ferraz Costa

 Tive a felicidade de ganhar de presente de Natal dois livros que foram as delícias de minhas férias: Da incompreensibilidade de Deus, da providência de Deus e Cartas a Olímpia, de São João Crisóstomo (coleção Patrística, Paulus) e La Tradition, do Cardeal Jean-Baptiste Franzelin. De La Tradition falarei em outra oportunidade. Hoje quero assinalar alguns aspectos dos textos de São João Crisóstomo que me chamaram a atenção por sua beleza e atualidade.

Muita coisa haveria que dizer a respeito dessa coletânea de São João Crisóstomo. Uma idéia que logo me ocorreu é que as pessoas que consideram muito árdua a leitura da Suma Teológica de São Tomás de Aquino por causa de sua estrutura de puro silogismo, sem uma roupagem literária que torne mais agradável a leitura e facilite a compreensão do texto pelo recurso às imagens, às alegorias e comparações diversas, essas pessoas obteriam grande vantagem  lendo primeiro os textos de São João Crisóstomo sobre a incompreensibilidade de Deus ou a providência divina em que o santo doutor, em forma de sermões, desenvolve esses temas com grande simplicidade e profundidade. De maneira que uma leitura posterior da Suma de Santo Tomás se torna mais fácil porque as mesmas idéias  são aí  encontradas e às vezes citadas literalmente, mas tratadas em um estilo mais rigoroso e difícil.

Quem lê a Suma Teológica sem um preparo pode não só “boiar” mas também ficar desconcertado diante do esforço de Santo Tomás de tentar expor e explicar racionalmente os mais altos mistérios da nossa fé. Ainda mais hoje quando reina um fideísmo pentecostal entre os católicos. Ao contrário, São João Crisóstomo, sempre armado da Sagrada Escritura e com grande dose de bom humor, desanca os hereges amoneus e faz brilhar a fé católica. Por exemplo, falando da incredulidade de Zacarias na promessa do nascimento do precursor, diz: “O que fazes, ó homem? Deus promete e procuras defender-te sob o pretexto de idade, contestas com a velhice! A velhice seria mais forte do que a promessa de Deus? A natureza teria maior poder do que o autor da natureza?” (cf. segundo sermão sobre a incompreensibilidade de Deus).

Desenvolvendo o problema da incompreensibilidade de Deus (tema rico em conseqüências teológicas se pensarmos na heresia universalista e neo-pelagiana daqueles que pretendem hoje que todos os mortos estão salvos e já gozam da visão beatífica), diz São João Crisóstomo: “Ao ouvires o profeta declarar: “Vi o Senhor”, não calcules que viu a essência; não captou senão algo de sua condescendência, e isso ainda sob a forma mais imperceptível do que vêem as virtudes do alto (…). Comprovemos que as Virtudes superiores não podem contemplar a Deus, mesmo quando há condescendência. Com efeito, por que razão, dize-me, os Serafins utilizam as asas para voar? Por nenhuma outra, a não ser para anunciar por atos a palavra do Apostolo: “Ele habita uma luz inacessível” (cf. segundo sermão)

Tendo provado que não se pode conhecer a essência divina, São João Crisóstomo responde à objeção daqueles que dizem ser impossível adorar aquele que não se conhece. Para tanto vale-se de uma bela comparação: “Suponhamos dois homens a ponto de brigar por causa da extensão do céu, que ambos pretendem conhecer; o primeiro declara que olhos humanos não podem abrangê-la, enquanto o segundo objeta ser possível medi-la toda inteira com a palma da mão. Qual dos dois, em nossa opinião, conhecerá o tamanho do céu? O que pretende saber quantos palmos possui, ou quem confessa ignorá-lo? Se, quando se trata do céu, quem recua diante de sua imensidade é q  uem melhor a conhece, não teremos, com referencia a Deus, a mesma prudência? Como não seria o cúmulo da demência ? (cf. quinto sermão).[1]

Essas palavras de São João Crisóstomo nos recordam a realidade assombrosa da teologia negativa: de Deus sabemos mais o que não é do que aquilo que é.

Tudo isto nos auxilia a ler com mais proveito e com outros olhos toda a teologia especulativa. O desejado renascimento da teologia católica produzirá, a meu ver, uma ciência  temperada por muita arte e por uma  linguagem poético-mística em que a razão humana reconheça francamente seus limites na explicação do mistério.

Tendo falado dos limites da inteligência humana, passo a ressaltar a grande qualidade da obra de São João Crisóstomo em sua capacidade de analisar e curar as feridas do coração do homem. É admirável sua acuidade em examinar as raízes da tristeza que arruína a vida do homem neste vale de lágrimas. Este é um problema eterno que adquire contornos assustadores em nossa sociedade que pretende comprar a felicidade a qualquer preço.

Equivoca-se quem pensa que o grande problema do homem contemporâneo é a tentação da sensualidade que o conduz a todo tipo de torpeza e ignomínia. Não. O grande problema dos nossos dias é a negação do quarto mandamento. Sem pai, o homem não é capaz de gozar a alegria de ter irmão. Sem a alegria do irmão, não há o consolo da amizade. Sem o consolo da amizade, cresce a tentação da sensualidade e esta deságua inevitavelmente no rio da tristeza, que por sua vez conduz ao suicídio.

Neste ponto, São João Crisóstomo e Santo Agostinho se complementam e nos permitem examinar o problema da felicidade humana, tão mal entendida pela religião antropocêntrica da Igreja pos-conciliar. Para Santo Agostinho, a felicidade cristã exige o desprezo do mundo. A felicidade cristã fundamenta-se na esperança sobrenatural do céu e não nos bens terrenos. Estes não podem ser buscados e desejados como fundamentos da felicidade. Estes podem ser vistos apenas consolações passageiras que a bondade divina nos dispensa em uma vida que é permanente luta contra os inimigos da salvação. Estas idéias são recorrentes em Santo Agostinho e explanadas sobretudo  em seus comentários aos salmos a partir do salmo 124: “Não invejeis aqueles que não andam pelos caminhos de Deus quando os virdes infelizmente felizes. Os homens mundanos são infelizmente felizes; ao contrario, os mártires eram felizmente infelizes, pois eram temporalmente infelizes, mas eternamente felizes, e por isso mesmo que eram temporalmente infelizes julgavam-nos mais infelizes que eram.” (Super Psalmos, Ps. 127).

Se Santo Agostinho é o doutor genial da análise da questão da possibilidade, da natureza e dos limites da felicidade neste mundo, São João Crisóstomo é o diretor espiritual seguro que, iluminado pelas grandes verdades da Sagrada Escritura, ajuda o cristão a evitar a tristeza ou dela libertar-se. Diz ele: “A tristeza, na realidade, é para as almas um local horrível de tortura, uma espécie de dor inexplicável, castigo mais amargo do que todos os tormentos e penalidades. Assemelha-se a um verme venenoso que corrói não somente a carne, como a própria alma, e não só tritura os ossos mas também a mente; um carrasco perpétuo que não rasga as costas, e sim arruína o vigor espiritual; uma noite contínua e trevas sem luar; é tempestade, agitação, fogo secreto mais ardente que qualquer chama, guerra sem tréguas, doença que sombreia a maioria das coisas visíveis. O sol, porém, e a limpidez da atmosfera para os assim mal-dispostos parecem importunação e o pleno meio-dia compara-se à noite profunda.” (o.c. carta 10)

Que descrição precisa do mal da depressão! Desafio qualquer profissional da área, com todos os recursos da psiquiatria e da psicologia moderna, a dizer algo melhor! Mas não é só isto. Feito o diagnóstico, São João Crisóstomo aponta as causas e prescreve o remédio. “Com efeito, diz ele, alegria não depende de leis imutáveis da natureza, que não se podem domar e alterar, mas das livres decisões da vontade, fácil de ter nas mãos. (…) A felicidade não se origina tanto da natureza das coisas, como da concepção que têm os homens. (…). Não vos deixeis abater, minha irmã. Reerguei-vos, estendei a mão com gosto a nossas palavras e colaborai com vossa valiosa ajuda, para que possamos arrebatar-vos completamente da escravidão amarga de vossas cogitações. Se, portanto, não quereis empregar zelo idêntico ao nosso, de nenhuma serventia será o tratamento. É de admirar que isso aconteça? Quando o próprio Deus onipotente exorta e aconselha, mas o ouvinte não atende às suas palavras, nada daí se origina a não ser a previsão de maior castigo para o desobediente.(o. c. p. 251-252)

Quantos abusos e erros na área da psiquiatria e da psicologia seriam evitados se essas verdades antropológicas não estivessem esquecidas ou negadas em nome de um cientificismo que reduz a vida espiritual do homem à química cerebral com a conseqüente eliminação do livre arbítrio. A psiquiatria chega hoje ao extremo de pretender domar e alterar as leis da natureza, como diz São João Crisóstomo. As conseqüências desse império da psiquiatria são as idéias que hoje devastam a nossa sociedade: o bem-estar a qualquer preço, as relações humanas e familiares deterioradas. O calor do coração humano cede lugar ao egoísmo calculado e medido pela psiquiatria.

Sem negar a existência de outros fatores e causas dos problemas de desequilíbrio psíquico, sem faltar ao máximo respeito devido às pessoas infelizes que sofrem esses males, é necessário examinar o nexo entre a responsabilidade moral e a saúde mental.

Que realidade patética vivemos! Uma sociedade que se pretende absolutamente livre é escrava dos psicotrópicos e incapaz de conhecer a causa real dos seus males mais graves.

Uma sociedade dopada! Uma sociedade que desconhece a graça do sorriso do homem sábio que admira a beleza da ordem criada e a gratuidade das coisas. Uma sociedade que só aprecia as gargalhadas do deboche e não sabe o valor das santas lágrimas.

Não encerro estas reflexões em tom pessimista nem otimista. Afinal, somos salvos pela esperança. A esperança está sempre acompanhada de alegria e paciência. A paciência é uma forma de fortaleza e melancolia ao mesmo tempo. Quem quiser provar esta verdade ouça a cantata 82 de Bach que celebra a festa da Apresentação do Menino Jesus no Templo. O canto do Velho Simeão (Nunc dimittis servum tuum, Domine), na música de Bach, é uma expressão artística maravilhosa dessa realidade da vida cristã: paciência (sofrimento), esperança, alegria. Ou melhor, ouça as antífonas maiores do tempo do Advento. Na melodia gregoriana dessas antífonas está expressa toda a angústia cristã pela espera da volta do Salvador.

 


[1] Essas palavras de São João Crisóstomo servem para explicar a utilidade da língua latina na liturgia e refutar aqueles que combatem o emprego de uma língua incompreensível para a maioria das pessoas. Quem será o demente que pretenda uma plena compreensão do mistério eucarístico? O latim expressa justamente a sublimidade de tal mistério.