Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

As quatro imperatrizes

Postado em 07-08-2011

Carlos de Laet

Obra histórica, tão necessária como interessante.
Perfis femininos e inapagáveis

Muito curioso e de atraente novidade o livro relativo às quatro imperatrizes que ligaram sua atividade intelectual e moral aos destinos da nossa pátria na quadra monárquica, em geral muito mal apreciada pelos homens do regímen atual.

Não vale negar o influxo, muitas vezes indireto mas nem por isso menos eficaz, que sobre sucessos políticos têm exercido mulheres de alto valor, consortes ou companheiras daqueles que ostensivamente ocupam os tronos. Neste caso se acham as quatro imperatrizes brasileiras.

Discriminar a sua influência, estudar-lhes os feitos que muitas vezes não atingem as raias da publicidade oficial, atribuir-lhes em suma o quinhão de benemerência e de gratidão pública a que têm direito — eis uma tarefa e a mais importante que se pode propor quem se ocupe de História. Faça-se a projeção luminosa da verdade sobre a discreta penumbra, onde se recatam essas entidades adoravelmente modestas. Talo objeto do livro de que falo.

 

A primeira esposa do fundador da Monarquia

Não há muitos dias o Instituto Histórico e Geográfico, secundando o aplauso que desde alguns anos se iniciara em torno do túmulo da augusta mãe de Pedro Segundo, celebrou, com cerimônias religiosas e sessão cívica, o primeiro centenário da morte da Imperatriz Leopoldina.

Altos dignitários republicanos tomaram parte nessa justa comemoração, e, se não foram à igreja, porque a República não vai à missa, pelo menos não desajudaram o civismo nacional e já se mostraram, como aliás se tinha feito na celebração do centenário do último Imperador, nobremente isentos daquela paixão partidária que de inesquecível ridículo outrora cobria os furores jacobinos.

Bem estudados à luz de testemunhos e documentos parecem agora estar o caráter e o papel político da primeira Imperatriz: e de tudo ressalta uma personagem tão simpática pelos seus infortúnios domésticos, quanto pela vigorosa intervenção com que a esposa de Pedro Primeiro, valendo-se das suas relações com príncipes e diplomatas do Velho Mundo, ativamente cooperou na independência do Brasil. Escrever sobre esse ato inicial da nossa vida política sem aludir a essa colaboração seria hoje impossível, pois equivalera a despencar dos nossos anais algumas de suas mais importantes páginas.

Consorte inditosa de um soberano cavalheiroso, bravo até à temeridade, generoso mas desgraçadamente propenso às paixões que o tornavam marido infiel, Dona Leopoldina tragou, resignada, até às fezes, o cálice da sua amargura, e contentou-se de ser a mãe carinhosa dos filhos, entre os quais estava o Brasil, que ela ajudara a criar e que, em parte lhe devendo a sua vida nacional, agora cobre de flores o túmulo da mãe bem-querida. [1]

 

D. Amélia, segunda esposa de Pedro Primeiro

Esta, ainda que menos brilhante que as demais figuras, é também digna da respeitosa atenção dos historiadores. Conhecidos os excessos da ligação amorosa entre o Imperador e a famosa Marquesa de Santos, D. Amélia, pedida em casamento pelo monarca viúvo, estabeleceu a condição do afastamento da poderosa favorita, ao que logo aquiesceu, nem podia deixar de fazê-Ia, o namorado soberano.

Em contraste com a sua antecessora no trono brasileiro, D. Amélía era formosíssima; e física e moralmente empolgou o marido, que a idolatrava… Mas quais os méritos que especialmente a indigitam à gratidão dos brasileiros? Não é difícil descobrí-Ios.

Sua memória nos deve ser grata. Muito a fizemos sofrer. Sua realeza começou já no declínío da popularidade do Imperador. A este negara o Poder Legislativo meios e recursos para combater irrequietas aspirações nas regiões meridionais do Império. O ciúme entre brasileiros e portugueses não esquecia a procedência lusitana do Chefe da Nação. Era um trono já vacilante e que não muito depois tinha de vir abaixo, sacudido pelo terremoto do sete de abril. No diadema de D. Amélia havia mais espinhos do que nas rosas com que a cingira o amor do noivo, criando uma ordem honorífica no Brasil.

Durante alguns anos tive ensejo de conversar com dístintíssima anciã, D. Maria Antônía, esposa que foi do senador Luís Carlos da Fonseca e avó do ilustre engenheiro ultimamente eleito membro da nossa Academia de Letras. [2] Foi essa nobre senhora a aia de Pedra Segundo, e, assim, privando com a Família Imperial, de perto conhecia muitos fatos íntimos ocorridos no Paço.

— Nos últimos tempos que precederam a revolução, referiu-me D. Maria Antônía, a vida de D. Amélia foi uma série de sustos e sobressaltos. A todo momento tremia pela vida do esposo, que, intrépido, afrontava malquerenças e ameaças. Muitas vezes o anseio de D. Amélía a levava a sair do Paço, mesmo em cabelo, e descer a ladeira da Quinta da Boa Vista para antecipar de alguns momentos a segurança de que o marido lhe voltava incólume. Sofreu muito e, apesar de tudo, sempre amou a terra onde tanto sofrera.

Madrasta, ou antes segunda mãe extremosa, D. Amélia consagrava imensa afeição aos filhos de Pedro I, e notadamente àquele que, durante mais de meio século, foi a esperança e depois a maior glória da Nação Brasileira. A carta em que D. Amélía, em 1831, se despediu de Pedro Segundo, que então só contava cinco anos de idade, é um documento aonde se transvasam a mais fina sensibilidade e a mais comovente aflição na desgraça em que a mulher padecia por ser Imperatriz.

Suficientes não serão esses títulos para a reverência e gratidão nos corações bem formados? [3]

 

Terceira e quarta imperatrizes do Brasil

A terceira foi D. Teresa Crístína Maria, filha de um rei das Duas Sicílias e que, por singular destino, viu tombar o trono de seus maiores e assistiu aos pavorosos sucessos que a deportaram e baniram quando já começara o declínio da existência. Quem traçar esta palavra — Bondade — terá feito o melhor elogio da Mãe dos Brasileiros: bondade com que despartia os noventa e seis contos do seu subsídio pela inúmera legião dos necessitados; bondade que se desentranhava em conselhos e discretas intervenções para normalizar conflitos de família; bondade que a fazia colocar o Brasil acima da pátria italiana e que a induziu a beijar, no ato da sua partida, essa terra brasileira, donde violentos a expeliam os vencedores do momento…

E a quarta imperatriz? Porventura chegou Dona Isabel a ocupar o trono imperial? Verdade é que nunca nele se assentou com autoridade majestática; não esqueçamos, porém, que duas vezes, como Princesa Regente, logrou prender o seu nome às duas fulgurantes manifestações que, redimindo uma raça, abriram ao nosso Brasil uma quadra auspiciosa, posto que interrompida de tormentosos sucessos. Aí, no tracejo dessa inigualável figura histórica, preciso se faz não esquecer também a auréola de santidade, que talvez um dia a coloque sobre os altares católicos e que já lhe ia valendo as suspeitas da irreligião.

 

O autor do livro das Imperatrizes

Ele ainda não está escrito, o livro a que venho aludindo. Entre os poucos que podem e devem escrevê-Io, três ilustres homens de letras quero aqui designar: — Oliveira Lima, que já com brilho elevou a boa fama desse grande homem que foi D. João Sexto; Afonso Celso, que em páginas imorredouras esculpiu o vulto do Imperador no exílio; e Taunay, filho do preclaríssimo Visconde, e em cujo livro sobre os varões da Independência vejo a revelação do talento e da probidade, índispensáveís predicados do verdadeiro historiador. Assim queira algum deles aceitar a honrosa incumbência.

(O Jornal, 23-12-1926.)

 


[1] Desde 1954, os despojos de D. Leopoldina foram transferidos para a Capela Imperial do Monumento da Independência, no Ipiranga, São Paulo, onde repousam ao lado dos de D. Pedro I, para ali trasladados em 1972.

[2] O poeta Luís Carlos, eleito em 20-5-1926, na vaga de Alberto Faria.

[3] Também os restos mortais de D. Amélía foram trasladados, em 1982, para a Capela Imperial do Monumento da Inpendência, no Ipiranga, São Paulo.