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Beatificação de João Paulo II e Cuba: dilema de consciência para os católicos cubanos

Postado em 14-04-2011

ARMANDO VALLADARES | 14 ABRIL 2011

Não me consta que durante o processo de beatificação deste Pontífice se tenham dado a conhecer publicamente interrogações sobre seu pensamento com relação ao comunismo cubano, pensamento que inclusive parece ir além do campo diplomático e adentrar-se no plano doutrinário, daí a necessidade de consciência de expor, da maneira mais respeitosa e filial possível, as presentes reflexões.

A anunciada beatificação de S.S. João Paulo II, prevista para se realizar no próximo 1º de maio, coloca muitos fiéis católicos cubanos em um dilema de consciência sem precedentes que, por causa de sua fé, da veneração à sua Pátria e do amor por suas famílias se opõem ao comunismo. Com efeito, esses fiéis católicos vêem com perplexidade e com o coração dilacerado tudo aquilo que o referido Pontífice teria feito em algumas circunstâncias, e deixado de fazer em outras, para favorecer direta ou indiretamente o comunismo cubano.

Cito na continuação, resumidamente, alguns exemplos que tive oportunidade de comentar extensamente ao longo dos anos, em diversos artigos sobre a colaboração eclesiástica com o comunismo na ilha-cárcere, e conto antecipadamente com a compreensão dos leitores. Faço-o enquanto fiel católico e enquanto cubano, com todo o respeito possível à Igreja, disposto a ouvir e analisar eventuais explicações de fontes sabidamente autorizadas, que até o momento não são de meu conhecimento, sobre os dolorosos fatos históricos que se concede sucintamente na continuação.

Em 8 de janeiro de 2005, ao receber as cartas credenciais do novo embaixador cubano, João Paulo II pronunciou uma alocução elogiando as “metas” que as “autoridades cubanas” teriam supostamente obtido em matéria de saúde, educação e cultura. Na realidade, trata-se de uma sinistra trilogia que o regime tem utilizado como instrumento, durante mais de meio século, para corromper as consciências de gerações inteiras de cubanos desde sua mais tenra idade, provocando um genocídio espiritual sem precedentes na história da Igreja nas Américas.

Não obstante, João Paulo II, na mesma alocução, insistiu em seus elogios chegando a asseverar que mediante essa trilogia as “autoridades” de Cuba – ou seja, os membros do regime castrista – colocariam “pilares do edifício da paz” e incentivariam o “crescimento harmônico do corpo e do espírito”. Com isso o Pontífice pareceu ignorar que Fidel Castro, Che Guevara e seus sequazes, em nome dessa trilogia, provocaram a destruição e a morte “do corpo e do espírito” de tantas pessoas em tantos países da América Latina, África e Ásia.

O elogio ao comunismo e aos integrantes da ditadura castrista não poderia ter sido maior. Para os cubanos que sentiram e continuam sentindo em sua própria carne a obra destruidora da revolução comunista em sua Pátria, as referidas considerações papais são particularmente dolorosas e, sinceramente, não consigo vislumbrar como justificá-las. Essas considerações, que vão além das mais benévolas fórmulas de cortesia diplomáticas, vistas desde uma perspectiva histórica, alcançam em cheio e até laceram a memória daqueles jovens mártires católicos cubanos que morreram nos paredões de fuzilamento gritando “Viva Cristo Rei! Abaixo o comunismo!”.

Na mesma alocução, uma das mais importantes sobre Cuba em seu longo Pontificado, o reconhecimento de João Paulo II se estendeu a um alegado “espírito de solidariedade” do internacionalismo cubano, que se manifestaria no“envio de pessoal e recursos materiais” a outros povos, por ocasião de “calamidades naturais, conflitos ou pobreza”.

Na realidade, como se acaba de lembrar, longe de refletir um espírito de “solidariedade” cristã, o internacionalismo comunista colocou Cuba no triste papel de exportador de conflitos na América Latina, África e Ásia, com “pessoal e recursos materiais” utilizados, não para solucionar conflitos ou diminuir a pobreza mas para exacerbá-los, suscitando guerrilhas que, por sua vez, contribuíram para provocar sangrentas calamidades piores do que as da natureza. Na realidade, o internacionalismo cubano contribuiu para afundar nações na pior “pobreza” material e espiritual, algo que historicamente resultou diametralmente o contrário de tirá-las dessa triste condição.

Para Cuba comunista, o modelo “solidário” internacionalista teve como uma de suas principais figuras o guerrilheiro argentino-cubano Ernesto Che Guevara, que chegou a afirmar que o “ódio” é um motor capaz de transformar o revolucionário em “uma efetiva, violenta, seletiva e fria máquina de matar”. Por isso, a alusão papal a esse suposto “espírito de solidariedade” do internacionalismo cubano não pode deixar de produzir consternação (cf. A. Valladares,“João Paulo II, Cuba e um dilema de consciência”, Diario Las Américas, Miami, 15 de janeiro de 2005).

Na referida alocução, S.S. João Paulo II não citou Che Guevara, porém já o havia feito em janeiro de 1998, em breves palavras elogiosas e até laudatórias, no avião que o conduzia a Cuba. Em conversação informal com os jornalistas, consultado a respeito de seu pensamento sobre Che Guevara, disse textualmente o referido Pontífice: “Deixemos a Ele, o Senhor nosso, o julgamento sobre seus méritos. Certamente, eu estou convencido de que ele queria servir aos pobres” (Vatican Information Service, “Os jornalistas entrevistam o Papa durante o vôo a Cuba”, Cidade do Vaticano, 21 de janeiro de 1998).

A fonte informativa, a própria agência de notícias da Santa Sé, não podia ser mais oficial, e isso faz com que as palavras do Pontífice causem especial mal-estar. Como uma árvore má poderia gerar bons frutos como, por exemplo, o serviço cristão aos mais pobres e desamparados? (cf. São Mateus, 7,18). Por ventura não foi Guevara um “satânico açoite” – segundo certeira expressão de S.S. Pio XI ao referir-se ao comunismo – para Cuba e para tantos outros países, promovendo revoluções sangrentas que prejudicaram especialmente aos mais pobres, precisamente àqueles a quem o Pontífice afirma que Guevara queria servir? (cf. A. Valladares, “Monsenhor Céspedes: João Paulo II e o Che Guevara”, Diario Las Américas, Miami, 26 de junho de 2008).

Por uma lamentável coincidência, essas declarações elogiosas a Che Guevara foram feitas por João Paulo II, precisamente quando o avião que o levava à Havana passava em frente às costas da Flórida, onde concentra-se o maior número de cubanos desterrados. As referidas declarações resultaram dessa maneira especialmente dilacerantes, do ponto de vista espiritual, para esses cubanos desterrados que não puderam deixar de lembrar que 11 anos antes, por ocasião da visita de João Paulo II a Miami, se sentiram abandonados espiritualmente quando o Pontífice não visitou nessa cidade a tão simbólica Ermida da Caridad del Cobre, não recebeu uma delegação representativa do desterro que lhe solicitou uma audiência, e pareceu não ver as dezenas de milhares de bandeirinhas cubanas, ondeadas por cubanos desterrados que foram saudá-lo nos atos públicos, e que esperaram em vão uma palavra de consolo para si mesmos, para suas famílias e para a sua querida Pátria escravizada.

Os raios, relâmpagos e centelhas que interromperam a mais importante e concorrida dessas celebrações por ocasião da visita de João Paulo II a Miami, contribuíram para formar um marco tragicamente apropriado para interpretar o sentimento de abandono que sentiram essas dezenas de milhares de desterrados cubanos, pelo fato de não ter ouvido uma palavra de consolo do Pontífice ante a tragédia de sua Pátria amada, e ante suas próprias tragédias pessoais e familiares.

Da recepção oferecida ao ditador Castro em Roma, em 1966, e da posterior viagem de João Paulo II a Cuba, em 1998, muito se poderia comentar, e de fato se comentou, do ponto de vista dos enormes dividendos publicitários e diplomáticos obtidos pelo regime de Havana. Opto então por destacar aqui, da viagem a Cuba, alguns aspectos pouco ou nada comentados de suas importantes alocuções. Baseio-me no estudo “Cuba comunista depois da visita papal”, editado em 1998 pela Comissão de Estudos pela Liberdade de Cuba, de Miami.

Em Havana, em uma de suas alocuções, depois de lançar a discutível premissa de um “diálogo fecundo” entre crentes e não-crentes, ou seja, com os comunistas cubanos, João Paulo II fez um chamado a encontrar uma“síntese” cultural pelo fato de que supostamente as partes no processo de “diálogo” teriam “uma finalidade comum”, a de “servir ao homem”.

Com toda a veneração e o respeito devidos, não se compreende como possa ocorrer uma “síntese” entre elementos totalmente antagônicos e incompatíveis como são os princípios da fé católica e os da anti-cultura marxista. Como seria possível uma “síntese” entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas, entre Jesus Cristo de um lado e Karl Marx, Che Guevara e Fidel Castro do outro?

Tampouco é possível compreender a afirmação de João Paulo II de que a Igreja e as “instituições culturais” do sistema comunista cubano podem ter uma “finalidade comum” ao serviço de progresso espiritual dos cubanos, como se a “finalidade” do regime não tivesse sido a de aplicar todos os seus esforços, de maneira metódica, durante quarenta anos, para destruir a “alma cristã”, ou seja, uma “finalidade” que não somente não é comum, senão que é diametralmente oposta.

Outro aspecto do Pontificado de João Paulo II que provocou perplexidade e inquietação em inumeráveis cubanos, foi a série de pedidos de perdão por aquilo que o Pontífice considerou como pecados passados e presentes dos filhos da Igreja, nos quais, entretanto, não foi possível encontrar a mais mínima referência à conivência ideológica e à cumplicidade estratégica de tantos eclesiásticos com o comunismo em Cuba, e também em outros países do mundo, por ação ou omissão, durante décadas (cf. A. Valladares, “O pedido de perdão que não houve: a colaboração eclesiástica com o comunismo”, Diario Las Américas, Miami, 22 d março de 2000).

Nesse sentido, João Paulo II apoiou, durante todo seu longo Pontificado, os colaboracionistas Bispos cubanos, especialmente por ocasião do Encontro Nacional Eclesial Cubano, em 1986. Em mensagem transmitida pelo cardeal Pironio, João Paulo II manifestou seu “merecido reconhecimento” ao extenso documento de trabalho, no qual se estabelecia como meta uma inédita e ousada “síntese vital” comuno-católica, reafirmada no documento final, e nomeou cardeal o arcebispo de Havana, monsenhor Jaime Ortega y Alamino, um dos maiores artífices do processo de aproximação comuno-católico em Cuba.

Nesta relação de exemplos de favorecimento de João Paulo II ao comunismo cubano, direta ou indiretamente, com palavras, obras e omissões, menciono, finalmente, em ordem cronológica, três filiais e reverentes cartas de cubanos desterrados a João Paulo II que, lamentavelmente, ficaram sem resposta, as três assinadas por dezenas de personalidades representativas do desterro cubano. Em 1987, em Miami, por ocasião da visita de João Paulo II a essa cidade: “Santo Padre, liberta Cuba!” (Diario Las Américas, Miami, 7 de agosto de 1987). Em 1998, em Roma:“Os cubanos desterrados apelam a João Paulo II: Santidade, protege-nos da atuação do Cardeal Ortega!” (Diario Las Américas, Miami, 24 de outubro de 1998). E em 1999, também em Roma: “Santo Padre, resgata do esquecimento os mártires cubanos, vítimas do comunismo!” (Diario Las Américas, Miami, 21 de setembro de 1999).

Consta-me que, por ocasião do processo de beatificação de João Paulo II, personalidades católicas manifestaram publicamente sua perplexidade por palavras, obras e omissões de João Paulo II no campo religioso. Porém, não me consta que durante o curso desse processo de beatificação tenham-se estabelecido publicamente interrogações sobre o pensamento deste Pontífice com relação ao comunismo cubano, pensamento que inclusive parece ir além do campo diplomático e adentrar-se no plano doutrinário. Daí a necessidade de consciência de expor, da maneira mais respeitosa e filial possível, as presentes reflexões.

Neste sentido, sinceramente não vislumbro como os católicos cubanos de dentro e fora da ilha, que concordaram com as teses de meus artigos, porém especialmente com as brilhantes análises e comentários de outros compatriotas na mesma linha, possam ver João Paulo II como um exemplo a ser seguido e imitado, por causa do tratamento que deu ao problema do comunismo em nossa Pátria, segundo mostrou-se nos parágrafos anteriores.

Sei que nos processos de beatificação os teólogos esquadrinham os escritos daqueles candidatos a ser beatificados. É possível que esses teólogos tenham analisado os textos de João Paulo II que acabo de citar e de comentar respeitosa e filialmente. Se assim o fizeram, queira Deus que os católicos cubanos possamos tomar conhecimento dessas sábias explicações. De outra maneira, o dilema de consciência não fará senão aumentar, porque, como compreender então que um Pontífice que tanto fez pelo comunismo cubano chegue a ser proclamado Beato da Igreja? Peço e até suplico que os tão delicados ditos e feitos acima citados de S.S. João Paulo II sejam devidamente esclarecidos e explicados. De outra maneira, a beatificação de João Paulo II, anunciada para o próximo 1º de maio, poderá estar indelevelmente marcada pelo sinal da perplexidade, da contradição e da confusão.

Enquanto fiel católico cubano, creio que tenho não somente o direito mas a obrigação de consciência de dar a conhecer estas considerações. Já disse e reitero nesta dramática conjuntura. Tenho um compromisso com aqueles jovens mártires católicos que morreram na sinistra prisão de La Cabaña gritando “Viva Cristo Rei! Abaixo o comunismo!”; com meus amigos assassinados nas prisões; com a luta pela liberdade de minha Pátria; com a História e, acima de tudo, com Deus e a Virgem da Caridad del Cobre, Padroeira de Cuba. A análise da vida e da morte de qualquer ser humano, por extraordinária que tenha podido ser, não deveria apagar, mudar, alterar ou ignorar as conseqüências dos atos que eventualmente praticou.

Armando Valladares, escritor, pintor e poeta. Passou 22 anos nos cárceres políticos de Cuba. É autor do best seller “Contra toda a esperança”, onde narra o horror das prisões castristas. Foi embaixador dos Estados Unidos ante a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da ONU sob as administrações Reagan e Bush. Recebeu a Medalha Presidencial do Cidadão e o Superior Award do Departamento de Estado. Escreveu numerosos artigos sobre a lamentável colaboração eclesiástica com o comunismo cubano e sobre a “ostpolitik” vaticana para com Cuba. E-mail: armandovalladares2011@gmail.com

Tradução: Graça Salgueiro