Um cristianismo “desviado”

A espiritualidade do Vaticano II é uma desviação da espiritualidade cristã. Com efeito,  é completamente orientada para o homem e não, como a espiritualidade tradicional, para Deus.

A espiritualidade do Vaticano II é um “pentecostes” pelo avesso: enquanto no primeiro pentecostes o céu e o Espírito Santo se derramaram sobre a terra e sobre os apóstolos, durante o Vaticano II o céu retirou-se da terra, abandonou-a, porque o homem moderno e o clérigo modernista já tinham abandonado o Deus transcendente pelo homem “onipotente”. De fato, “Deus não abandona se primeiro não é abandonado” (Santo Agostinho, citado pelo Concílio de Trento).

Assistimos no pós-concílio a uma desviação ou desmoronamento do cristianismo, que de teocêntrico passa a ser antropocêntrico. O fim último do neo-cristianismo conciliar é a paz entre as nações, a união entre as religiões, o diálogo entre os homens, o bem-estar, a harmonia ecológica, não mais a paz entre o homem e Deus, o culto de Deus, a pregação do Evangelho a todas as nações.

As promessas do Vaticano II revelaram-se falsas e ilusórias, como as que faz Satã ou o mundo. Realmente, a partir de 1962: 1) no mundo reina a guerra; 2) o homem é explorado, não há trabalho nem aposentadoria, perdeu todo ideal, é transviado, desorientado e desesperado; 3) o Evangelho é ignorado e desprezado, os pastores envergonham-se dele ou o camuflam filantropicamente.

Hoje os pastores não sabem e não querem falar em nome de Deus, negligentes quanto às opiniões e aos falsos dogmas da modernidade. E não só isso: hoje, quem ensina a verdade corre o risco do martírio midiático, do linchamento cultural e clerical.

Quando os cristãos se deixam atrair pela moda do mundo e se curvam ante ela e as fábulas (“ad fabulas autem convertentur” 2ª Tim. 4,4) para não serem perseguidos, abandonaram a via régia da Santa Cruz, que é a única a conduzir ao céu. Entretanto, também a maior parte dos tradicionalistas o fez. Nossa época é, verdadeiramente, uma época apocalíptica e anticristã, mas há quem queira iludir-nos dizendo que tudo vai bem e que os compromissos fortalecem a Igreja….o ambiente eclesial  não compreende mais qual seja a estrada a percorrer para ir ao céu: a larga ou a estreita. E contudo, Nosso Senhor no-lo ensinou (Mt. 26, 14) e deu-nos o exemplo.

Paulo VI proclamou ao 7 de dezembro de 1965 (Discurso de encerramento do Concílio Vaticano II): “A Igreja do Concílio ocupou-se suficientemente do homem como se apresenta em nossa época. O homem todo ocupado de si mesmo, que se faz o centro de tudo e ousa ser o princípio e o fim último de todas as realidades”. Não obstante, todo o discurso é um hino e este homem que desejaria ocupar o lugar de Deus, assinala o primado da antropologia sobre a teologia, é blasfemo e luciferino. O Vaticano II não é explicável sem o influxo nele da ação preternatural de Satã e dos seus acólitos (judaísmo talmúdico, maçonaria, marxismo, freudismo, panteísmo..). Como pensar poder conciliar Deus e Lúcifer? É impossível.

Parece que à terceira tentação de Satã dirigida a Cristo: “Dar-te-ei todo o mundo se prostrado por terra me adorares” (Lc. 4, 6), o Vaticano II não respondeu como Cristo “Aparta-te, Satanás. Está escrito: Adorarás somente a Deus” (Lc. 4, 8), mas “Eis me a teus pés e aos pés do homem que despreza a Deus para ser admirado e acolhido por ti”.

O ensinamento do Vaticano II não é mais o Evangelho de Deus ao homem mas a mensagem do “homem ao homem” (assim disse Paulo VI, discurso em Belém, aos 6 de janeiro de 1964).

Mas que coisa é o homem? Para São Bernardo de Claraval o homem reduzido a sua dimensão terrena “é um sêmen fedorento, é um saco de esterco e será alimento dos vermes”, ao passo que para Paulo VI é tudo, é a nova divindade do mundo moderno que – com Cartésio, Kant e Hegel – põe o  Eu no lugar de Deus. Disse, outrossim, Paulo VI: “Honra ao homem, honra à ciência (…) honra ao homem rei da terra e hoje príncipe do céu” (Discurso por ocasião do Angelus de 7 de fevereiro de 1971). O Evangelho, ao contrário, nos diz que o “Príncipe (não do céu mas) deste mundo é Satanás” ( Jo. 12. 31; 14, 30; 31, 11).

Este é o resultado ruinoso do diálogo do Vaticano II com o mundo moderno, como o resultado do diálogo de Eva e Adão com a serpente infernal foi o pecado original. O velho axioma sobre o qual se baseia toda a espiritualidade cristã (patrística, escolástica e neo-escolástica) “Não se discute com Satã” está fora de moda: cumpre, ao contrário “aggiornarsi” e converter-se ao mundo que “está entregue ao poder do Maligno” (1 Jo. 5, 19); esquecendo-se de que “Amar o mundo significa odiar a Deus” (Tg. 4, 4).

Para o cristianismo a última esperança não morre jamais porque se funda em Deus onipotente e próvido, enquanto para Paulo VI “os povos olham para as Nações Unidas como para a última esperança de concórdia e paz” (Discurso por ocasião do Angelus de 7 de fevereiro de 1971) e por isso que em todo o mundo reina a discórdia e a guerra que ameaça tornar-se atômica e mundial (cf. Síria 2016). O Pe. Dossetti, que participou do Vaticano II como teólogo do cardeal Giacomo Lercaro, disse: “Se fracassa o Evangelho, temos a Constituição!” (Ritorno a Monte Sole. Attualitá e autenticitá di don Giuseppe Dossetti, in Conquiste del lavoro, 27 de outubro de 2012, a cura de F. Lauria). Assim, a esperança de teologal  e sobrenaturalmente cristã torna-se naturalmente e materialmente demo-cristã.

Por que Deus se incarnou? Não para estabelecer a paz entre as nações, que é uma utopia. Não para eliminar a pobreza e a doença do mundo, outra utopia. Não para dar a saúde, o bem-estar, ao homem neste mundo, mas no céu.

A crise do ambiente eclesial hoje é gravíssima, mas Jesus vencerá também esta como venceu sempre. Nós devemos fazer nossa pequena parte: oração e penitência.

Theophilus.

Si Si No No, 30 de junho de 2016.

De capitulação em capitulação chegamos às diaconisas

Pe. João Batista de A.  Prado Ferraz Costa

Foi anunciada pelo Vaticano há poucos dias a constituição de uma comissão de teólogos e teólogas encarregada de estudar o diaconato feminino na Igreja primitiva. A referida comissão é fruto de um pedido de  um grupo de religiosas ao papa Francisco I, que a instituiu após “muita oração e reflexão” – assim diz a nota da Santa Sé.

De acordo com os melhores estudiosos do assunto, não há nenhuma dúvida de que as diaconisas dos primeiros tempos da Igreja eram mulheres piedosas que se encarregavam de obras de caridade, recebiam uma bênção (com imposição das mãos do bispo) e tal bênção não era absolutamente um sacramento, mas apenas um sacramental.

À luz da tradição constante da Igreja e do magistério dos papas, não procede nenhuma discussão sobre a admissibilidade do sacerdócio feminino na Igreja Católica. Se por desgraça amanhã houver o abuso de uma ordenação de diaconisas, o sacramento da ordem a elas conferido, sobre ser um sacrilégio, será inválido, mas poderá originar uma enorme confusão na Igreja porque já não serão vistas essas reverendas diaconisas como leigas mas como membros do clero e pertencentes à hierarquia eclesiástica. E certamente não se contentarão em ser diaconisas permanentes mas vão pretender galgar os graus mais altos da hierarquia.

Mas como explicar que, a despeito da meridiana clareza sobre essa matéria, ainda assim se pretenda seja “estudada”, na verdade, posta em discussão?

No século passado, quando, sobretudo, entre os heréticos, a reboque do feminismo mundano neopagão, se começou falar em sacerdotisas, Paulo VI disse que a Igreja, com base na sagrada tradição, não se sentia autorizada a instituir o sacerdócio feminino e, em 1994, João Paulo II, por meio da carta apostólica Ordinatio sacerdotalis, concebida em termos muito mais firmes que seu predecessor Paulo VI, parecia encerrar completamente o assunto.

Entretanto, a questão não foi sepultada. Pelo contrário, recrudesceu. Por isso, esforço-me por identificar algumas causas e dar um depoimento que reputo muito esclarecedor.

Se por um lado o papa João Paulo II no referido documento encerrou a questão no plano teológico e afirmou na Familiaris Consortio que o lugar da mulher é em casa cuidando da sua família, por outro lado não favoreceu o surgimento das condições culturais necessárias para que um princípio teológico não ficasse letra morta mas vigorasse efetivamente na Igreja e em todos os ambientes católicos. Explico-me. O papa João Paulo II disse que lamentava ver como a mulher ao longo dos séculos foi humilhada e maltratada. Ora, na sociedade cristã isso jamais ocorreu. Até parece Francisco I pedindo perdão às mulheres e aos gays. Sem dúvida, esse discurso só pode alimentar a erva daninha do feminismo.

Ademais, o papa João Paulo II, promovendo um ecumenismo e um diálogo inter-religioso sem fronteiras, foi um precursor da “cultura do encontro”, tão cara a Francisco I. Esta cultura do encontro tem sérias consequências e implicações. Em primeiro lugar, a meu juízo, opõe-se às ordenanças divinas do Livro Sagrado. Com efeito, diz o Levítico que Deus ordenou ao povo eleito que vivesse isolado, separado dos povos pagãos para que conservasse íntegra a verdadeira religião, não corrompesse a pureza das suas crenças divinas.

Com todas as adaptações que se possam e  devam fazer aos nossos tempos, a prescrição do Levítico é de um valor perene. É realmente impossível querer guardar íntegra a fé cantando, por exemplo, vésperas solenes ecumênicas nas basílicas e catedrais juntamente com diaconisas e sacerdotisas protestantes. Esse ambiente empestado de ecumenismo, irenismo e sincretismo com o tempo levará certissimamente os católicos a sacrificar sua teologia no altar da unidade religiosa universal. A Igreja, ao contrário  da “cultura do encontro”, devia viver isolada como os hebreus viveram isolados na terra de Canaã, para proteger os seus filhos da contaminação dos erros e perigos. Sem essa cautela, a Igreja corre o risco de ser incorporada à República Universal do Grande Arquiteto.

Trata-se de uma observação justíssima de bons historiadores e filósofos da cultura e da religião que nos ensinam que as questões teológicas controvertidas sempre tiveram o seu desenvolvimento e sua solução sob a influência das instituições políticas e dos valores culturais do seu tempo. De modo que nos dias de hoje em que reinam de norte a sul as Hilarys Clinton, as Teresas May, as Ângelas Merkel (para não falar das infames Rousseff e Cristina Kirchner) e a toque de caixa de todo o movimento feminista mundial, será realmente muito difícil a Igreja barrar o sacerdócio feminino se não for capaz de criar as condições culturais que venham a ser uma muralha, uma cidadela em defesa do dogma. Infelizmente, Ratzinger dizia que era necessário abater as muralhas da Igreja! E Francisco I diz que é pontífice para erguer pontes dentro da sua cultura do encontro, que todos já bem conhecemos.

A outra causa do ressurgimento da questão do sacerdócio feminino é desgraçadamente a timidez dos bons, o espírito de capitulação diante de qualquer obstáculo. Posso ilustrar este ponto com uma história verídica.

Disse-me um padre (da minha inteira confiança) que por volta de 1998 um dos melhores bispos do mundo, tido como um dos mais conservadores, adoeceu e pediu-lhe que o substituísse em um congresso teológico dando uma palestra sobre os sacramentos e a família. No congresso havia leigos, religiosos e religiosas de várias partes do País. Terminada a palestra, no final da tarde, o padre foi visitar o bispo e informá-lo de como se tinham passado as coisas. E disse-lhe: “Sr. bispo, tive oportunidade de explanar a carta Ordinatio sacerdotalis”. Para surpresa e decepção do padre, o bispo recebeu a informação com um amargo dissabor. E o padre perguntou-lhe porque não lhe agradava a referência à carta apostólica de João Paulo II. E o bispo disse: “Acontece que há muita gente de outras dioceses onde se contesta o ensinamento do papa e podia surgir uma discussão inoportuna no congresso.”

Desde então – disse-me o padre – fiquei convencido de que, contando com as atitudes ambíguas e omissões da hierarquia, a heresia avançava em surdina em todos os setores da Igreja.

De maneira que não ficarei surpreso se amanhã vir nas missas solenes da Ecclesia Dei diaconisas cantando o Evangelho, pregando ou batizando seus netinhos. Muitos padres birritualistas certamente vão participar de cerimônias servidas pelas reverendas.

De capitulação em capitulação chegamos às diaconisas e bispas. Que vão, quem sabe, tomar chá com a papisa rainha Elisabeth na sede da seita anglicana.

Anápolis, 4 de agosto de 2016.

Festa de São Domingos Gusmão, fundador da Ordem dos Pregadores, apóstolo do Santo Rosário de Nossa Senhora.

Entre Brasília e Roma. Entre ministras e diaconisas

Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa

Hoje, vejo-me obrigado a oscilar entre a política e a religião para analisar os sintomas de um mal generalizado pelo mundo. Espero não perder o fio de meada considerando todos os assuntos à luz da fé e da razão.

Apenas começou o seu governo na qualidade de presidente interino da República, Michel Temer foi desancado pela mídia esquerdista que achou um erro imperdoável, uma falta inominável, o seu ministério não ter a presença de nenhuma mulher. Nos mesmos dias noticiou-se que em Roma o papa Francisco acolhia o pedido de um grupo de religiosas que pretendem ser ordenadas diaconisas. O bispo de Roma prometeu-lhes que constituiria uma comissão encarregada de estudar a questão.

Na verdade, essas feministas que querem ser ministras de Estado são umas impostoras. Querem ser ministras para defender o aborto, a ideologia do gênero e todo tipo de perversão que atenta contra a lei de Deus, mas não querem aposentar-se com a mesma idade que os homens, alegando que têm uma jornada dupla de trabalho. Que jornada dupla? Não têm filhos, são abortistas. Acresce que são duplamente culpadas pelo deficit da previdência social, porquanto, além de se aposentarem jovens, são responsáveis pelo envelhecimento da população não gerando filhos em número suficiente para recompor a população e a massa trabalhadora.

As freirinhas modernistas também cometem uma impostura, porque  alimentam a vaidade de poder ostentar o “glorioso” título de diaconisas mas não querem ser madres, isto é, mães, dando à família cristã um grande mau exemplo.

Como se vê, por mais que se fale em separação entre a sociedade política e a sociedade religiosa, os problemas e as questões que se levantam sempre interessam a ambas, têm repercussões comuns. Há uma analogia entre ambas sociedades, que mereceu a atenção de grandes filósofos do passado e mesmo no mundo secularizado de hoje não deve ser descurada.

Essa reivindicação das feministas da sociedade laica moderna e das freiras da nova religião tem as mesmas raízes, as mesmas causas. Em nossos dias o homem perdeu completamente seus diversos vínculos com a sociedade de que é membro e na qual tem suas raízes. A perda desses vínculos e raízes acarretou-lhe a perda da sua personalidade e a sua consequente redução a indivíduo “solto” de uma aldeia global. De maneira que o homem e a mulher hoje já não sabem qual a sua função, o seu comportamento dentro da sociedade, já não sabem compreender-se a si mesmos na formação da própria personalidade,na busca do seu próprio bem e do bem comum da sociedade em que nasceram e cresceram.

A sociedade deixou de ser uma comunidade histórica com valores perenes, reduziu-se a uma arena em que indivíduos incompreensíveis, na farsa da democracia, exercem uma liberdade limitada apenas em virtude de uma lei que seria ela mesma expressão da soberania popular.

Está claro que em tal ambiente não pode haver complementaridade entre homem e mulher. Será um mundo em que os homens e as mulheres estarão condenados a viver sós e infelizes, dominados pelo egoísmo sob o pretexto de realização pessoal. Coisa raríssima hoje é um homem encontrar uma mulher que queira realmente ser sua mulher e comportar-se sempre como tal. É difícil também encontrar uma mulher que queira realmente casar-se conforme a lei de Deus, tamanha a corrupção e a degenerescência das filhas de Eva.

(O meu bom barbeiro criado no belo cerrado goiano, que se abeberou das tradições religiosas do Santuário do Divino Padre Eterno, sabe tudo isso e sofre muito vendo a ruína do Brasil e da família católica, mas nossas lideranças políticas e religiosas e nossos intelectualoides estão cegos.)

Ademais, onde não se concebe um bem comum, onde se concebe apenas o Estado como uma plataforma (para usar a expressão de um dos  ativistas mais fanáticos do laicismo tupiniquim), em que todos os indivíduos possam viver como bem entenderem, a vida humana estará sob a mais grave ameaça. No individualismo desbragado não haverá as condições necessárias para o florescimento da sabedoria e das virtudes sem as quais o homem embrutecerá, ainda que conquiste grandes conhecimentos científicos.

Com efeito, no dizer do referido ativista sr. Celso Laffer, o Estado laico e secular se impõe como uma necessidade para assegurar o mais amplo e irrestrito direito de pesquisa científica que não esteja limitado por nenhum dogma religioso. Quer dizer, em nome de uma pseudociência, ou melhor, em nome de um cientificismo judaico-maçônico-iluminista, o homem tem de ser reduzido a cobaia.

Ora, a vida humana, para quem ainda não tem a sua consciência moral completamente obscurecida pelas trevas da modernidade, é o valor máximo, não pode ser considerada só à luz da ciência, mas também da sabedoria. Ciência sem consciência é a ruína do homem, disse um sábio. Ora, o lugar próprio da sabedoria não é o laboratório de um químico laicista ou de um alquimista teósofo, mas os mosteiros e as boas faculdades de filosofia e teologia.

A ciência sem a sabedoria destrói a vida humana. Não é capaz de desvendar-lhe os mistérios, mas é capaz de profaná-la e promover a eugenia. É capaz de justificar  regimes monstruosos como o comunista e o nazista que eliminavam seus adversários acusando-os inimigos do progresso, da ciência e do avanço da humanidade.

Alguns filósofos modernos, insuspeitos de serem representantes da grande tradição metafísica e escolástica da cristandade, tiveram o mérito de reconhecer os limites da ciência diante das mais altas questões de interesse para a vida do homem. Por exemplo, Karl Jaspers disse: “O conhecimento científico não está em condições de dar nenhuma orientação para a vida. Ele não estabelece valores válidos. A ciência como ciência não pode guiar a vida; por sua clareza e decisão, ela remete a outro fundamento da nossa vida.” (Apud Giovanni Reale, História da Filosofia, v. 3, 1991). Igualmente, Ludwig Wittgenstein disse: “Ainda que todas as possíveis perguntas da ciência recebessem sua resposta, os problemas da nossa vida não seriam sequer arranhados.”(Ibidem)

Por conseguinte, o secularismo, o laicismo são aberrações. São sintomas de uma sociedade gravemente enferma. São sinais claros de uma civilização em agonia. Só não vê isto quem não quer.

É absolutamente necessário que a sociedade política esteja subordinadamente unida à sociedade religiosa como o corpo à alma. São elementos de uma mesma realidade. Separados, morrem.

Para remate, formulo, com fé, meus votos de que Brasília e Roma convalesçam brevemente para o bem das almas.

O povo brasileiro não tem nenhuma saudade da sra. Rousseff e suas graciosas ministras.

Anápolis, 20 de maio de 2016.

Sexta-feira da oitava de Pentecostes.

Breve síntese dos principais erros da eclesiologia modernista

  1. Conceito “latitudinarista” e ecumênico da Igreja.

   O conceito de Igreja como “povo de Deus” encontra-se atualmente em numerosos documentos oficiais: as atas do concílio Unitatis RedintegratioLumen Gentium, – o novo Código de Direito Canônico (c. 204, § 1), a carta do papa João Paulo II Cathequesi tradendae e a alocução na Igreja Anglicana de Cantuária, – o Diretório Ecumênico: Ad totam Ecclesiam do Secretáriado para a Unidade dos Cristãos.

    Este conceito transpira um sentido latitudinarista e um falso ecumenismo.

     Fatos manifestam, de modo evidente, este conceito heterodoxo: as autorizações para a construção de salas destinadas ao pluralismo religioso, – a edição de bíblias ecumênicas que não são mais conformes à exegese católica, – as cerimônias ecumênicas como as de Cantuária.

    Na Unitatis Redintegratio ensina-se que a divisão dos cristãos “é para o mundo um objeto de escândalo e dificulta a pregação do Evangelho a toda a criatura…que o Espírito  Santo não se recusa a servir-se de outras religiões como meios de salvação”. Este erro é repetido no documento Catechesi Tradendae de João Paulo II. É no mesmo espírito e com afirmações contrárias à fé tradicional que João Paulo II declarou na catedral de Cantuária, em 25 de maio de 1982, “que a promessa de Cristo nos inspira a confiança de que o Espírito Santo sanará as divisões introduzidas na Igreja, desde os primeiros tempos, após Pentecostes, como se a unidade do Credo jamais tivesse existido na Igreja.

     O conceito de “povo de Deus” insinua que o protestantismo não é outra coisa senão uma forma particular da mesma religião cristã.

     O Vaticano II ensina “uma verdadeira união no Espírito  Santo com as seitas heréticas (Lumen Gentium 13), “uma certa comunhão, embora imperfeita, com elas” (Unitatis Redintegratio, 3).

      Esta unidade ecumênica contradiz a encíclica Satis Cognitum de Leão XIII, que ensina que “Jesus não fundou uma Igreja que abarca várias comunidades que se assemelham genericamente, mas que são distintas e não estão vinculadas por um liame que forma uma Igreja individual e única”. Igualmente, esta unidade ecumênica contraria a encíclica Humani generis de Pio XII, que condena a ideia de reduzir a uma fórmula qualquer a necessidade de pertencer à Igreja Católica; contraria, outrossim, a encíclica Mystici Corporis do mesmo papa que condena a concepção de uma Igreja “pneumática” que seria um laço invisível das comunidades separadas na fé.

     Este ecumenismo é igualmente contrário aos ensinamentos de Pio XI na encíclica Mortalium animos: “Sobre este ponto é oportuno expor e recusar uma opinião falsa que está na raiz deste problema e deste movimento por meio do qual os não católicos se esforçam por realizar uma união das Igrejas cristãs. Os que  aderem a esta opinião citam constantemente estas palavras de Cristo: “Que eles sejam um… e que não exista senão um só rebanho e um só pastor (Jo. 17, 21 e 10, 16) e pretendem que, por estas palavras, Jesus exprime um desejo ou uma oração que jamais foi realizada. Eles pretendem, com efeito, que a unidade de fé e governo, que é uma das notas da verdadeira Igreja de Cristo, praticamente, até  hoje jamais existiu e hoje ainda não existe.”

       Este ecumenismo  condenado pela moral e o direito católicos chega a permitir a recepção dos sacramentos da penitência, da eucaristia e da extrema-unção de “ministros não católicos” (C. 844 do novo código) e favorece a “hospitalidade ecumênica”, autorizando os ministros católicos a dar o sacramento da Eucaristia a não católicos.

          Todas estas coisas são abertamente contrárias à revelação divina que prescreve a “separação” e recusa a união “entre a luz e as trevas”, entre o fiel e o infiel, entre o templo de Deus e o dos ídolos” (II Cor. 6, 14-18).

            2.  Governo colegial-democrático da Igreja.

             Depois de terem abalado a unidade da fé, os modernistas de hoje empenham-se por sacudir a unidade de governo e a estrutura hierárquica da Igreja.

                A doutrina, já sugerida pelo documento Lumen Gentium do Concílio Vaticano II, será retomada explicitamente pelo novo direito canônico (C. 336); doutrina segundo a qual o colégio dos bispos juntamente com o papa goza igualmente do poder supremo na Igreja, e isto de uma maneira habitual e constante.

                    Esta doutrina do duplo poder supremo é contrária ao ensinamento e à prática do magistério da Igreja, especialmente no Concílio Vaticano I (DS 3055) e na encíclica de Leão XIII Satis Cognitum. Somente o papa tem este poder supremo que ele comunica, na medida em que ele o julgar oportuno e em circunstâncias extraordinárias.

                A este grave erro está ligada a orientação democrática da Igreja, com os poderes inerentes no “povo de Deus”, como se define no novo direito. Este erro jansenista foi condenado pela bula Auctorem fidei de Pio VI (DS 2592).

                   Esta tendência de fazer a “base” participar do exercício do poder encontra-se na instituição do sínodo e das conferências episcopais, nos conselhos presbiterais, pastorais e na multiplicação de comissões romanas e de comissões nacionais, como no seio das congregações relgiosas (ver a propósito Concílio Vaticano I, DS 3061 – novo Código de Direito Canônico, c. 447).

                 A degradação da autoridade na Igreja é a fonte da anarquia e da desordem que nela se nota hoje por toda a parte.

               3. Os falsos direitos naturais do homem

           A declaração Dignitatis Humanae do Concílio Vaticano II afirma a existência de um falso direito natural do homem em matéria religiosa, que se opõe aos ensinamentos pontifícios, que negam formalmente semelhante blasfêmia.

           Assim Pio IX na sua encíclica Quanta Cura e o Syllabus, Leão XIII nas suas encíclicas Libertas praestatissimum Immortale Dei, Pio XII na sua alocução Ci riesce aos juristas católicos italianos negam que a razão e a revelação fundamentem semelhante direito.

              O Vaticano II crê e professa, de modo universal, que a “a verdade não pode impor-se senão pela força própria da verdade”, esquecendo-se de que a verdade pode impor-se também, normal e racionalmente, pela autoridade de Deus revelante. O concílio chega ao absurdo de afirmar o direito de não aderir e de não seguir a verdade, de obrigar os governantes civis a não mais fazer discriminações por motivos religiosos, estabelecendo a igualdade jurídica entre as falsas e a verdadeira religião.

              Tais doutrinas se fundamentam numa falsa concepção da dignidade humana, proveniente das pseudo-filosofias da Revolução Francesa, agnósticas e materialistas, que já foram condenadas por São Pio X na carta apostólica Notre charge apostolique.

                  O Vaticano II diz que da liberdade religiosa surgirá uma era de estabilidade para a Igreja. Gregório XVI, ao contrário, afirma que é suma impudência sustentar que da liberdade imoderada de opiniões provenha algum benef´cio para a Igreja (DS 2731).

                    O concílio, na Gaudium et Spes, exprime um princípio falso, quando julga que a dignidade humana e cristã procede do fato da Encarnação, que teria restaurado esta dignidade para todos os homens. Este mesmo erro é afirmado na encíclica Redemptor hominis de João Paulo II.

                  As consequências do reconhecimento por parte do concílio deste falso direito do homem arruínam os fundamentos do Reino Social de Nosso Senhor, abalam a autoridade e o poder da Igreja na sua missão de fazer reinar Nosso Senhor nos espíritos e nos corações, empenhando-se no combate contra as forças satânicas que subjugam as almas. O espírito missionário será acusado de proselitismo exagerado.

                    A neutralidade dos Estados em matéria religiosa é injuriosa a Nosso Senhor e a sua Igreja, quando se trata de Estados com maioria católica.

                   4. Poder absoluto do Papa

                 Sem dúvida, o poder do Papa na Igreja é um poder supremo, mas ele não pode ser absoluto e sem limites, visto que está subordinado ao poder divino, que se exprime na Tradição, na Sagrada Escritura e nas definições já promulgadas pelo magistério eclesiástico (DS 3116).

                  O poder do papa é subordinado e limitado pelo fim que determinou a concessão deste poder. Este fim foi claramente definido pelo papa Pio IX na Constituição Pastor Aeternus do Concílio Vaticano I (DS 3070). Seria um intolerável abuso de poder modificar a constituição da Igreja e pretender apelar para o direito humano contra o direito divino, como na liberdade religiosa, como na hospitalidade eucarística autorizada pelo novo direito, como na afirmação de dois poderes supremos na Igreja.

                  É claro que nestes casos e em outros semelhantes, há um dever para todo o clero e fiel católico de resistir e recusar a obediência. A obediência cega é um contra-senso e ninguém está isento de responsabilidade por ter obedecido aos homens antes que a Deus (DS 3115), e esta resistência deve ser pública se o mal é público e é uma causa de escândalo para as almas. (S. Th. IIª. IIªe. q. 33, a. 4 ad 2).

                 Aí estão princípios elementares de moral, que regulamentam as relações dos súditos com todas as autoridades legítimas.

                           Esta resistência, aliás, encontra uma confirmação no fato de que atualmente são punidos os que se mantêm firmemente vinculados à Tradição e à Fé católicas, ao passo que os que professam doutrinas heterodoxas ou realizam verdadeiros sacrilégios absolutamente não são inquietados. É a lógica do abuso do poder.

                        5. Concepção protestante da Missa

                    A nova concepção da Igreja, como a definiu o papa João Paulo II, na constituição que antecede o novo Código de Direito Canônico, pede uma mudança profunda no ato principal da Igreja que é o Sacrifício da Missa. A definição da nova eclesiologia dá exatamente a definição da nova Missa: a saber, um serviço, uma comunhão colegial e ecumênica. Não se pode definir melhor a nova missa, que, como a nova Igreja conciliar, está em ruptura profunda com a Tradição e o Magistério da Igreja.

                     É uma concepção mais protestante do que católica que explica tudo quanto foi indebitamente exaltado e tudo quanto foi diminuído.

                       Em oposição aos ensinamentos do Concílio de Trento na sua sessão XXII, em oposição à encíclica Mediator Dei de Pio XII, exagerou-se o papel dos fiéis na participação da Santa Missa e diminuiu-se o papel do sacerdote transformado em simples presidente. Exagerou-se o papel da liturgia da palavra e diminuiu-se o sacrifício propiciatório. Exaltou-se a a ceia comunitária e foi ela laicizada à custa do respeito e da fé na presença real mediante a transubstanciação.

                            Ao suprimir a língua sagrada, pluralizaram-se ao infinito os ritos, profanando-0s por achegas mundanas. ou pagãs e difundiram-se traduções falsas com prejuízo da verdadeira fé e da verdadeira piedade dos fiéis.

                                     E não obstante, os concílios de Florença e de Trento tinham pronunciado anátemas contra todas estas mudanças e afirmado que nossa missa no seu cânon remontava aos tempos apostólicos.

                                      Os papas São Pio V e Clemente VIII insistiram sobre a necessidade de evitar as  modificações

e as mudanças, conservando perpetuamente este rito romano consagrado pela Tradição.

                                     A dessacralização da Missa, sua laicização levam à laicização do sacerdócio, à maneira protestante.

                                       A reforma litúrgica de estilo protestante é um dos grandes erros da Igreja conciliar e dos mais ruinosos para a fé e a graça.

                               6. A livre difusão de erros e heresias.

                              A situação da Igreja, em postura de investigação, introduz na prática o livre exame protestante, resultado da pluralidade de credos no interior da Igreja.

                                  A supressão do Santo Ofício, do Index, do juramento antimodernista, provocou nos teólogos modernos uma necessidade de novas teorias que desorientam os fiéis e os engajam para o carismatismo, o pentecostalismo, as comunidades de base. É uma verdadeira revolução dirigida, em última análise, contra a autoridade de Deus e da Igreja:

                                 I – Os filósofos modernos antiescolásticos, existencialistas, anti-intelectualistas são ensinados nas universidades católicas e seminários maiores.

                                  II – O humanismo é favorecido por essa necessidade de as autoridades eclesiásticas fazerem eco ao mundo moderno, transformando o homem em fim de todas as coisas

                                  III – O naturalismo – a exaltação do homem e dos valores humanos – faz esquecer os valores sobrenaturais da redenção e da graça.

                                  IV – O modernismo evolucionista causa o repúdio da Tradição, da Revelação, do Magistério de 20 séculos. Não há mais Verdade fixa, nem dogma.

                                V  – O socialismo e o comunismo – A recusa do Concílio de condenar estes erros foi escandalosa e levou a pensar que o Vaticano hoje seria favorável a um socialismo ou um comunismo mais ou menos cristão.

                                  A atitude da Santa Sé durante estes 15 últimos anos confirma este julgamento, tanto deste como d outro lado da cortina de ferro.

                                  VI – Enfim, os acordos com a Maçonaria, o Conselho ecumênico das Igrejas e Moscou cofinam a Igreja num estado de prisioneira e a tornam totalmente incapaz de cumprir livremente sua missão. São verdadeiras traições que clamam vingança aos céus, como igualmente os elogios dados nestes dias ao heresiarca mais escandaloso e mais nocivo  à Igreja.

                                     É tempo de a Igreja recuperar sua liberdade de realizar o Reino de Nosso Senhor Jesus Cristo e o Reino de Maria, sem se preocupar com seus inimigos.

                       –

                             Rio de Janeiro, 21 de novembro de 1983.

Festa da Apresentação de Nossa Senhora.

+ Marcel Lefebvre

Antigo Arcebispo – Bispo de Tulle

+Antonio de Castro Mayer

Ex-Bispo de Campos

“Mal-educado” na defesa de Nossa Senhora

Como resposta ao inaceitável ataque à piedade mariana tradicional dirigido pelo pregador pontifício Cantalamessa que disse que os protestantes recusam Nossa Senhora porque os católicos teriam uma devoção mariana sem fundamento bíblico, traduzimos abaixo o relato de uma defesa de Nossa Senhora feita por um jovem italiano publicado no admirável periódico Si Si No No

Caro Si Si No No,

Esta manhã, por volta das 8 horas, na paróquia da estação da minha cidade, esperei Franco, 18 anos, que todas as manhãs, apenas desce do trem, vai lá rezar e oferecer ao Senhor o seu dia, antes de ir à escola.  Pontualmente chegam ele e um amigo seu mais jovem, Lúcio, que Franco protege das provocações no trem e na escola.

Rezamos juntos uns dez minutos e depois Franco me diz: “Falta um professor e entramos na escola às 9.15 horas.” Então fomos juntos tomar um café da manhã a um lugar tranquilo.

Franco conta-me todo contente e sorridente: “Não há um mês ainda que começamos a escola e eu já recebi uma advertência registrada no diário de classe… e estou orgulhoso por isso.” Olho para ele perplexo: “E por que?”. “Ouça-me – diz-me ele- o que me ocorreu. Nos últimos dias a professora de italiano e história falou-nos de Lutero. Disse-nos também que Lutero não crê nos mitos católicos sobre Nossa Senhora, por exemplo, que Nossa Senhora teria sido assunta  ao céu com seu corpo. “Rapazes, vede que Lutero tem razão: Nossa Senhora morreu e foi sepultada e corrompeu-se o seu corpo no sepulcro, como todos os mortais”.

A essa altura Franco levantou a mão e respondeu: “Professora, isto não é verdade! A senhora não pode falar assim, não deve falar assim, porque sou ofendido como se tivesse falado do pior modo de minha Mãe”. A professora já espumava de raiva, mas Franco continuou: “Nossa Senhora foi concebida imaculada, foi sempre virgem, é Mãe de Deus e…sim, foi assunta ao céu em corpo e alma. Verdade de fé católica, verdade absoluta que a senhora não pode blasfemar assim!”.

A mestra ficou furiosa: “Mas como ousas contradizer-me, a mim que sou laureada em italiano, história, latim e outras matérias que tu nem avalias. Como podes tu provar que Maria foi assunta ao céu? Por que to disse o padre? Ou a tua avó? É hora de deixar de lado os mitos, as fábulas da Igreja!”.

Franco respondeu-lhe: “Professora, com todas seus títulos, a senhora é uma ignorante. A senhora, que estudou, deveria saber que nós católicos cremos na Assunção de Maria Santíssima porque é verdade transmitida pela Tradição, desde o início, desde o tempo dos Apóstolos e, fundando-se nisto, em 1950, o Papa Pio XII definiu a Assunção em corpo e alma como verdade de fé. Ponto e basta”.

A essa altura, a professora reagiu como um vilã, tomou o registro de aula e escreveu: “O aluno F. L. comportou-se como mal educado respondendo de modo desaforado à professora. Prof. etc.”. E concluiu: “Terás de explicar-te ao diretor”. Franco, com o sorriso de sempre e coragem, respondeu-lhe: “Suceda o que suceder, que me importa a sua nota ou o que me diga o diretor” Que pretende a senhora? Fazer-me renegar a minha fé? Deveria envergonhar-se mestra de mentiras!”.

Os colegas de Franco estavam pálidos, quase aterrorizados. Todos guardaram um rigoroso silêncio. A professora não disse mais nada. Poucos minutos depois soou a campainha, a aula tinha terminado, e foram fumar ao corredor.

Disse a Franco: “Assim foi tido como mal educado por causa de Nossa Senhora, que você defendeu contra aquela bruxa! Bravíssimo, você é um gigante. Esteja certo de que Nossa Senhora se recordará para sempre do que você fez por Ela”.

Vede, amigos, esta é uma “boa escola” de hoje: uma “boa educação” para o ateísmo, para a negação da nossa civilização cristã, a má formação de homens sem fé e sem lei. Mas onde haverá um bispo que se insurja contra isto? Haverá? Há ainda  rapazes – no instituto profissionalizante, o mais humilde, portanto – na escola se insurgem na defesa do Credo católico, aí compreendida Nossa Senhora. “Recorde-se – disse-me Franco –  neste mundo parece mandarem os comunistas e maçons, mas nós, Marianos, somos mais fortes, mais poderosos, os vitoriosos somos nós!”.

Si Si No No, porque Nossa Senhora é mais forte que um exército em linha de batalha.

Insurgens

Que Nossa Senhora das Vitórias derrame copiosas bênçãos sobre o jovem Franco, o autor desta crônica e sobre o Si Si No No.

A desgraça do mundo moderno

Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa

Quantas e quantas vezes em meu combate, em discussões mais acaloradas, não ouvi uma sentença mais ou menos nestes termos: “Não se deu conta ainda de que o mundo se libertou das trevas da ignorância, dos preconceitos, dos tabus, da tirania, do despotismo, graças ao iluminismo?”

É preciso, pois, estudar e entender melhor o que foi o iluminismo e suas consequências. Há uma vasta e excelente literatura sobre o assunto. Todavia, nunca é demais tentar informar um público maior, não dado a leituras mais densas, um público que acaba sendo enganado pela propaganda ideológica subversiva que doura o iluminismo como se representasse um grande avanço da humanidade, uma descoberta libertadora do homem, que o tivesse tornado essencialmente melhor que o homem antigo, o homem histórico, ou ainda mais perfeito que o homem redimido e feito filho de Deus pelo batismo e membro do corpo místico de Cristo a Santa Igreja Católica.

A primeira coisa que cumpre dizer é que o iluminismo não representa absolutamente um período de desenvolvimento e aprofundamento da filosofia ou de um progresso do conhecimento humano em geral. Não houve disparate que não fosse sustentado pelos “filósofos das luzes”, como, por exemplo, a negação da causalidade por David de Hume, um dos precursores do iluminismo. Ele, contraditoriamente, queria descobrir a causa que levava o homem a confundir a sucessão constante entre dois fenômenos  com a relação de causa e efeito! E o pior é que tal absurdo lhe valeu a a admiração de outros autores que aumentaram e sofisticaram ainda mais os seus erros.

Acrescente-se ainda que os verdadeiros métodos científicos modernos não devem nada ao iluminismo. Bacon é anterior ao iluminismo e certamente ficaria horrorizado com o que alguns iluministas disseram sobre a ciência. E debocharia do otimismo pueril de muitos deles.

Outra acusação que se deve fazer contra o iluminismo é quanto ao seu endeusamento da razão. O hino iluminista à razão está longe de ser um reconhecimento reverente da capacidade da inteligência humana de conhecer a natureza humana e o mundo, adequar as coisas às necessidades do homem e promover, enfim, a ciência e a cultura. Pelo contrário, há no iluminismo uma tendência a rebaixar o homem à condição de irracional. É verdade que tal tendência  prevalece, sobretudo, em um Rousseau, justamente por isso classificado, sob certos aspectos, como um opositor do iluminismo.

Entretanto, é inegável que o fruto próprio do iluminismo tenha sido um amesquinhamento da razão humana considerada inepta para conhecer a realidade e reduzida a instrumento (por contraditório que pareça) de manipulação da realidade. O endeusamento da razão significa apenas um desprezo da fé, seja porque basta uma religião natural (o homem é bom e não precisa de uma religião redentora) seja porque o homem não pode sequer saber racionalmente se Deus existe.

Pois bem. A razão humana reduzida a instrumento de manipulação da realidade será empregada especialmente na planificação da sociedade e na direção da economia. Tudo deverá ser enquadrado no método geométrico. Como se vê, a consequência não pode ser outra senão desembocar num dirigismo socialista, centralizador, estatizante, na pior tirania que se possa conceber. É a desgraça do mundo moderno. O professor Wolfgand Röd, em sua obra O caminho da filosofia (Brasília UNB, 2014) mostra muito bem a relação entre o iluminismo e o socialismo.

Por conseguinte importa reconhecer que a democracia moderna, nascida da Revolução Francesa, sob o influxo do iluminismo, nos conduz ao totalitarismo na medida em que despreza as instituições tradicionais, a formação orgânica e história da sociedade e tenta organizar toda a vida social por meio de uma panacéia chamada constituição feita por “legisladores” e “representantes do povo soberano” escolhidos por meio da mentira universal das urnas.

Ademais, o iluminismo leva ao desamor e à desunião entre as famílias e os homens em geral. Com efeito, negando a capacidade da inteligência do homem de conhecer a realidade objetiva, nega ipso facto à vontade do  homem a capacidade de amar e respeitar o seu semelhante tal qual é mas só enquanto se adapta ao molde a que o submete. É por isso que os comunistas dizem “pior para os fatos” se resistem à revolução. À “companheirada” tudo; aos outros, mentira e paredon!

Esse subjetivismo da mentalidade revolucionária é a causa de tantos caprichos e arbitrariedades das autoridades modernas que se dizem democráticas, abertas ao diálogo, tolerantes etc, mas na verdade só cultuam seus juízos e idéias próprias que dizem valer mais que toda a história da humanidade, que toda a tradição, enfim, mais que todo o o mundo.

Assim, por exemplo, Paulo VI dizia: “Sono convinto che un pensiero mio, un pensiero della mia anima, vale per me più di qualunque cosa al mondo” (Apud Romano Amerio,  Iota Unum, Ricciardi, Milano, 1985, p. 155). Sem dúvida, parece que se está lendo uma página de Descartes. Cogito, ergo sum!

É por causa desse subjetivismo da cultura moderna que os papas pós-conciliares não aceitaram nenhuma advertência por reverencial que fosse, no sentido de alertá-los de que as novidades que se estavam introduzindo na Igreja eram perniciosas e demolidoras. Pense-se, por exemplo, no famoso Breve Exame Crítico da Missa Nova enviado a Paulo VI pelos cardeais Bacci e Ottaviani. Recorde-se o famoso episódio ocorrido durante o Vaticano II quando um prelado advertiu Paulo VI sobre o perigo da colegialidade como um erro condenado pela Tradição e, não obstante, Montini saiu em defesa da novidade.

De modo que hoje só um milagre poderá demover Francisco I de sua obstinação na nova pastoral familiar. Cada um tem sua concepção de bem e deve segui-la, disse ele.

Para quem está imbuído da cultura moderna, está claro que a tradição não vale nada. A família muda ao longo da história. Nada foi sempre assim no mundo  e talvez no futuro as coisas pouca semelhança guardem com o que vivemos hoje. O homem pode planejar tudo a seu bel prazer.

Que restará à Igreja dizer ao homem moderno?

Anápolis, 13 de novembro de 2015.

Festa de São Diogo confessor

Igreja descentralizada ou “individualizada”?

Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa

Tenho acompanhado com interesse, como é natural, o desenrolar do Sínodo sobre a Família. Devo dizer, no entanto, que nada do que leio a respeito me surpreende ou preocupa. Tendo vivido sob os pontificados de Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI, só posso estar convencido de que tudo o que bispo de Roma hoje diz, defende e promove nada mais é do que consequência necessária do que disseram e fizeram seus predecessores citados. De modo que a única surpresa desagradável para mim é ver alguns ditos tradicionalistas escandalizados com Francisco I. como se ele ousasse temerariamente romper com a solidez doutrinária da Igreja pós-conciliar.

Ora, sabe-se que Paulo VI não estava intimamente persuadido do valor dos ensinamentos da encíclica Humanae Vitae, tanto assim que deixou que se questionasse por alguns anos a doutrina da Igreja sobre a paternidade responsável e nomeou bispos que a contradiziam abertamente.

João Paulo II, com sua visão personalista, acentuava os preceitos da ordem moral mais como decorrentes de uma exigência da natureza humana do que propriamente uma lei divina imposta ao homem. Seus ensinamentos sobre a moral familiar e a ética sexual estão, em geral, em harmonia com a tradição da Igreja, embora, em alguns pontos, discrepem, como, por exemplo, a questão da hierarquia de fins do matrimônio e do casamento misto. Mas nomeou bispos que não ensinavam a doutrina tradicional e fez, na maioria dos casos, vista grossa.

O bispo Ratzinger, antes de ser eleito papa, levantou a questão da comunhão dos recasados e depois, como papa, seu ensinamento mais chocante em matéria de ética sexual foi a defesa do uso do preservativo pelos prostitutos. Ademais , foi um ardoroso apologista da liberdade de consciência. Há um famoso discurso dele que diz que, se tivesse de brindar à autoridade e a consciência, brindaria primeiro à consciência e depois à autoridade.

No momento, só me acodem à memória estes exemplos, que, certamente, poderiam multiplicar-se. Bastam, porém, para provar que Francisco I tem toda razão de dizer que apenas quer levar ao pleno cumprimento as disposições do Vaticano II. A muita gente causou raiva Bergoglio ter citado a intenção de João Paulo II de encontrar uma nova modalidade de exercício do ministério petrino para resolver os “desafios pastorais” do mundo contemporâneo.  À mesma classe de gente desagrada o fato de Francisco  I querer solucionar, de forma pragmática, sem muita especulação teológica, as dificuldades que vê no dia-a-dia da Igreja nas dioceses e paróquias espalhadas pelo mundo afora. Como se também nesse ponto Francisco divergisse dos seus ilustres predecessores da Igreja pós-conciliar. Ora, ninguém de boa fé me contestará que, embora fossem mais mais cultos e profundos na teologia,  Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI não eram absolutamente modelos de rigor doutrinário. Pelo contrário. Não obstante citações de São Tomás e do magistério de Pio XII, exerceram sua autoridade guiados pela nefasta nova teologia condenada pela Humani generis, de Pio XII.

A mim me parece hoje que a proposta de uma Igreja descentralizada que confiaria aos bispos e conferências episcopais a missão de encontrar para os diversos problemas pastorais soluções inspiradas no magistério da Igreja nada mais é que um sofisma. Porque, de fato, na imensa maioria das paróquias hoje o que prevalece é a soberania da consciência individual. O que ocorre na realidade é que Igreja apenas acompanha, anima, conforta, consola, aconselha os fiéis que a procuram, mas não há um exercício efetivo de uma autoridade. Cada um toma a decisão que quer. Isto está conforme o ensinamento de Francisco: cada um tem sua concepção de bem e deve segui-la. Neste ponto também Bergoglio se mostra em continuidade com João Paulo II, na medida em que parece influenciado pelo personalismo de Scheler que diz que o homem é o lugar único da divinização e que é um grave equívoco querer construir a ética sobre o dever ser normativo e não sobre sobre o dever ser ideal. (Cf. A filosofia contemporânea ocidental, I. M. Bochenski, Herder, SP, 1962). Na minha modesta opinião, é isto o que explica as diversas declarações e pronunciamentos  procedentes do Sínodo, no sentido de reduzir a doutrina moral da Igreja a um “ideal” a ser proposto e não uma norma a ser imposta.

Portanto, não se trata, na verdade, de uma descentralização, mas do reconhecimento, por parte da própria Igreja,  dos limites de sua ação no mundo moderno. Trata-se, realmente, de reconhecer que a imensa maioria dos católicos brinda primeiro a sua própria consciência e depois à autoridade.

Por último, que resultará do Sínodo? Creio que, se Francisco I vir que não triunfa a estratégia da “descentralização” (aliás, curiosamente contestada até por adeptos da inovações pastorais), redigirá depois um documento bem vago, bem misericordioso, em que reiterará mais uma vez sua doutrina da soberania da consciência individual. Igreja descentralizada não, mas individualizada, democratizada, roussseauniana, de um povo soberano e sacerdotal. Uma igreja em que o culto de Deus e o culto do homem dizem coexistir em paz.

Anápolis, 22 de outubro de 2015.

O ralliement de Leão XIII e o ralliement de Francisco I

Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa

Acabo de ler um livro realmente precioso, Il Ralliement di Leone XIII – il falimento di un progetto pastorale, de autoria do professor Roberto de Mattei (Firenze, 2014).

Sabia que a política do ralliement de Leão XIII não era nada apreciada pelos católicos da tradição, sabia que tinha favorecido o surgimento da nefasta democracia cristã e do modernismo, mas achava que podia ser, apesar de tudo, uma questão meramente política, campo em que há muita opinião e quase nenhuma certeza. A referida obra do prof. de Mattei mostrou-me que a atitude de Leão XIII foi uma coisa muito mais séria e teve consequências muito negativas para a Igreja não só na França mas em todo o mundo católico. E para toda a civilização ocidental.

Rico em informações e análises agudas sobre a situação da Igreja na Itália após a formação do reino e na França sobretudo após a queda de Napoleão III em 1870, o livro diz, com base em sólida documentação, que o cardeal Pecci, futuro Leão XIII, foi um núncio apostólico desastrado em Bruxelas, um crítico severo de Pio IX, contrário à definição do dogma da Imaculada Conceição (embora dissesse que pessoalmente cresse em tal privilégio da Mãe de Deus, entendia que não era conveniente defini-lo dogmaticamente e acusar de heresia quem o negasse). Conta que, quando um católico lhe disse que era um milagre um pontificado tão longo como o de Pio IX, respondeu que o considerava um castigo do céu. Conta também que Pio IX o nomeou camerlengo porque havia uma tradição segundo a qual tal dignitário não era eleito papa e uma vez declarou: “Morrer não é nada, pior é saber que posso ser sucedido pelo cardeal Pecci.” O livro do professor de Mattei informa também que a eleição de Pecci foi festejada pela franco-maçonaria.

Além dessas informações curiosas, o livro é interessantíssimo na análise da política da Santa Sé após a queda do poder temporal dos papas e em face de toda a Europa nascida da Revolução Francesa. Diz que Pio IX recusava-se terminantemente a um entendimento com os governos liberais e maçônicos. Apoiava corajosamente os católicos na luta pelo restabelecimento dos governos monárquicos legítimos, pela restauração do Reinado Social de Cristo. E quanto à questão romana o livro do prof. de Mattei informa que surgiram então duas correntes propondo políticas diferentes para tentar restabelecer o poder temporal do papa, considerado essencial para o cumprimento de sua missão, além de ser um direito ao qual a Igreja não podia renunciar. Uma corrente julgava possível uma aproximação da Santa Sé em relação ao recém fundado reino da Itália, contando com o apoio do Império Austro-Húngaro e da Alemanha, para alcançar a restauração, ainda que parcial, do poder temporal da Igreja. Este parecia ser o caminho mais seguro e prudente a ser trilhado pela Igreja na busca de um restauração dos seus direitos.

A outra corrente, da qual compartilhava Leão XIII, entendia que era preferível tentar obter o apoio da Rússia e da República Francesa maçônica e anticlerical (coisa mais pueril não se pode excogitar!), porque julgava que era do interesse da França o fim do Reino da Itália.  Por essa política de aproximação da França, da Rússia e da Alemanha em detrimento do Império Austro-Húngaro e da Polônia, Leão XIII foi acusado por um diplomata de ter compromisso com Bismark e com a maçonaria francesa – informa o prof. De Mattei – e explica como mais tarde no conclave que elegeu o patriarca de Veneza,  cardeal Pawel Puzyna, de Cracóvia, se valeu do direito de veto do Imperador Francisco José para afastar da sucessão papal o cardeal Rampolla, o coadjuvante de Leão XIII na aventura do ralliement.

Na esperança de obter esse apoio da França, o papa promoveu a política do ralliement, obrigou os católicos franceses, que veneravam a antiga monarquia e nutriam sentimentos de fidelidade ao herdeiro do trono, o conde de Chambord, a aderir à república maçônica que perseguia ferozmente a Igreja. Leão XIII distinguia entre a forma de governo e a legislação. Dizia que a Igreja aceita todas as formas de governo legítimas. Mas não distinguia a questão tratada abstratamente e o problema político da França em concreto. Na verdade, a república francesa não era uma simples forma de governo como as outras, era expressão política da ideologia revolucionária maçônica anticristã. Era inútil e especiosa a distinção entre a forma de governo e a legislação.

O resultado do ralliement foi, com efeito, catastrófico. Promoveu a divisão e o enfraquecimento da resistência católica à perseguição maçônica. Nas eleições subsequentes ao ralliement, os católicos sofreram derrotas acachapantes nas urnas, a perseguição contra a Igreja recrudesceu, o inimigo passou a escarnecer da Igreja como se esta tivesse perdido sua dignidade e ficado covarde e oportunista. Foi uma ignomínia. São Pio X, eleito em 1903, deu-se logo conta da situação deprimente da Igreja na França, nomeou bispos valorosos e monárquicos. E chegou a declarar a um jornalista legitimista que lhe relatou as consequências da política seguida por Leão XIII: “Não se ganha nada. Enquanto não se discute a república, o governo está seguro de que a maioria será anticlerical.”

Na conclusão, o prof. de Mattei examina a questão sobre o “liberalismo” de Leão XIII. Além de dizer que Leão XIII foi, sobretudo, o papa do ralliement e não da Rerum Novarum ou da Aeterni Patris, com acuidade interpreta o significado do termo liberal. Quanto à doutrina, Leão XIII absolutamente não foi liberal, seu magistério está em perfeita continuidade com o dos seus predecessores na condenação dos erros modernos e foi seguido por seu sucessor São Pio XIII. Não obstante, pode-se dizer, segundo de Mattei, que ele tinha um espírito ou uma tendência liberal, no sentido de querer sempre uma conciliação ou uma preferência por concessões a um confronto com os inimigos da Igreja. E esse espírito ou tendência seria perceptível em seus sucessores Bento XV e Pio XI e triunfaria no Vaticano II.

(Na minha modesta opinião, o magistério de Leão XIII, talvez até mais profundo na apresentação dos princípios da doutrina católica e na condenação dos erros modernos que o de seus predecessores Gregório XVI (Mirari vos) e Pio IX (Sylllabus e Quanta Cura), não tem um tom tão enérgico e não é tão contundente no ataque aos inimigos da Igreja como nos termos empregados sobretudo na Mirari Vos.)

Ainda na conclusão o prof. de Mattei diz que o ralliement provocou a secularização de toda ação católica posterior. Por um lado, a direita católica (Action Française) já não pautaria sua ação fundamentada em princípios metafísicos, já não defenderia o reinado social de Cristo, mas defenderia uma monarquia apenas por razões sociológicas ou históricas conforme o empirismo organizador de Comte. Por outro lado, a esquerda católica desembocaria em uma política abertamente aconfessional, a democracia cristã, em colaboração com os comunistas, socialistas e maçons.

Para remate desta resenha de um livro tão admirável do prof. de Mattei, desejaria expressar só mais duas observações. a primeira é que o livro é muito esclarecedor ao apresentar as argumentações dos críticos do ralliement (críticos que viveram os dias do ralliement, como o bispo mons. Freppel, que fez ponderações agudas mas em vão ao papa Leão XIII), que tiveram uma viva consciência de que o que estava em jogo em tão não era apenas a questão da forma de governo  (república ou monarquia), mas a grande heresia política do mundo moderno: a soberania popular. O padre Charles Maignen disse que os inimigos da Igreja na França prefeririam uma monarquia parlamentar, democrática, baseada no erro da soberania popular, a uma república tradicional, católica, baseada no princípio do poder emanado de Deus e de uma ordem moral objetiva. E ressalta que não será possível nenhuma ação política eficaz enquanto a Igreja não condenar esse erro da democracia moderna e não convencer os homens de que estão enganados por essa ideologia revolucionária.

A outra observação que desejaria fazer é que me parece que hoje, sob Francisco I, vivemos um novo ralliement. Com efeito, assim como Leão XIII destituiu e removeu os bispos que dele divergiam e se empenhou em obrigar os católicos a engolir um regime tirânico e anticristão, assim também hoje Francisco I obriga os católicos a depor as armas, a não confrontar com os governos empenhados em legalizar o “casamento homossexual” e outras coisas aberrantes.

Mas há algo pior: enquanto Leão XIII se limitava a dizer aos católicos que aderissem à república e depois tentassem mudar a  legislação, Francisco I hoje parece dizer aos católicos que não só não se oponham a tais governos, mas aceitem as suas leis.

Anápolis, 25 de setembro de 2015.

Sexta-feira das têmporas de Setembro.

“Jesus muçulmano”? Mais um fruto podre do falso ecumenismo

Si Si No No – 31 de janeiro de 2015

Em uma igreja desta pobre Itália dia 1º de janeiro o sacerdote local, na homilia para celebrar a jornada da paz (como se faz a cada ano desde o pontificado de Paulo VI), citou um livro escrito por um “missionário” na Turquia sobre as boas relações entre muçulmanos e os pouquíssimos católicos daquela terra.

Eis o fato. Os missionários têm uma bela igreja, visitada pelos turistas de todas as religiões. Uma manhã chega um grupo de meninos, todos muçulmanos, acompanhados pela professora deles. Visitam a igreja. Explica-lhes tudo. Depois deixa-se entrevistar pelos meninos desejosos de mais informações.

Um deles diz: “No Corão também se fala de Jesus: para nós é um profeta que viveu antes de Maomé”. O missionário: “Oh, certamente! Jesus é um profeta também para nós. Logo, podemos ser amigos”. O menino: “Mas Maomé superou Jesus”. Silêncio. Depois o menino continua: “É verdade que Jesus, no fim do mundo, se fará muçulmano?”.

O missionário pergunta: “Mas tu sabes que significa ser muçulmano?”. O menino: “Muçulmano, “muslin”, significa submisso, submisso a Deus, a Alá”. O padre: “Ó meu caro, quem é mais submisso a Deus que Jesus? Ele é em tudo submisso a Deus; portanto, vós sabeis que é como se fosse muçulmano”.

Os meninos partiram satisfeitos com essas palavras: agora sabem que Jesus é como eles, já é um convertido ao Islão. Vejam que vitória para eles!

O padre, depois de ter lido o episódio do livro do missionário na Turquia, comenta: “Vejam como é possível haver entendimento, como se pode promover a paz. Como se pode ser amigo, em comunhão entre nós. Basta o entendimento”.

Os fieis presentes à missa estão perplexos. Alguns saem da igreja, como o subscrito. Outros entreolham-se estarrecidos. Nosso Senhor Jesus, o Filho unigênito de Deus feito homem para redimir-nos e merecer-nos a graça divina e o paraíso, o único Salvador do mundo – ouvi, ouvi!- converteu-se em muçulmano!

Mas isto é uma blasfêmia, seja quem for que a diga. Em outros tempos, um padre assim teria sido despachado, segregado de qualquer contato com a grei dos fieis de Jesus Cristo, para não lhes fazer maior dano.

Hoje, ao contrário, é normal dizer blasfêmias desse jaez do púlpito. Não há palavras para comentar. São os frutos podres do ecumenismo. Estamos em pleno sincretismo, em plena apostasia. Tal missionário e tal padre deveriam ser denunciados. Mas a quem? Quem hoje intervirá para conter desastre permanente a que assistimos?

No entanto, cumpre levantar a voz! Fazer sentir que ao menos um “pequeno resto” de católicos não aceita que Jesus, o Homem-Deus, Ele que é a única Verdade, a única Via, a única Vida e “ninguém vai ao Pai senão por Ele (Jo. 14, 6). Não há outro nome, afora o Nome de Jesus, dado aos homens, pelo qual sejamos salvos” (At. 4, 12): palavra de Pedro, o primeiro papa, ainda em Jerusalém, quando não era “bispo de Roma”.

Caro SISINONO, guardemos a fé e e abracemo-nos à cruz de Jesus, sem jamais a deixar. Se outros o destronaram até esse ponto, nós queremos coroá-lo da glória divina, que só Ele merece.

Carta assinada.

Nota do tradutor. Esta maravilhosa carta, inspirada na mais pura fé católica e mais ardorosa caridade, mostra-nos claramente os frutos do Vaticano II (Nostra Aetate) e do “espírito de Assis”. Certamente, o missionário e o padre a que alude o missivista seguiram o exemplo de João Paulo II que beijou o Corão

A ilusão do espiritismo

Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa

É preciso reconhecer que o espiritismo, ou a doutrina da metempsicose ou transmigração dos espíritos, conhecida vulgarmente no Brasil como kardecismo, atrai e cativa muitas pessoas boas, mas incautas, que buscam uma explicação para a breve e atribulada vida terrena do homem.

Com efeito, à primeira vista, o espiritismo, com sua doutrina de “evolução” espiritual, de progresso  moral através de sucessivas reencarnações pelas quais o homem se vai libertando de seus defeitos e purificando-se dos seus pecados até alcançar a perfeição ou a condição de espírito superior – espiritismo diz que os homens perfeitos se transformam em anjos!-, com sua doutrina que nega um juízo inapelável sobre o destino eterno do homem, o espiritismo pode seduzir aquelas pessoas que se sentem frágeis diante da enorme responsabilidade moral implicada no conceito de livre arbítrio ou se acham desconcertadas ante a desigualdade de condições entre os homens. Um Deus que não julga ninguém, que não condena ninguém mas a todos dá oportunidades sem fim de, mais cedo ou mais tarde, chegar a sua meta é um Deus que ilude o homem apegado às suas más inclinações e não lhe impõe à consciência nenhum dever moral irretorquível. Um Deus assim parece realmente facilitar as relações entre a criatura e o Criador. Acresce que o espiritismo, com sua promessa de comunicação entre os vivos e os mortos, por um lado, cativa as pessoas mais débeis na fé que não se conformam com a perda de seus entes queridos e, por outro lado, com a sua propaganda das obras de caridade (0u melhor, de filantropia), conquista aquelas pessoas generosas e abnegadas que têm compaixão pelo sofrimento dos seus semelhantes. Tudo isso, sem dúvida, gera, em nossa cultura naturalista que confia  na capacidade de o homem por seus próprios esforços alcançar a sua salvação, um clima de simpatia pelo espiritismo.

Como se sabe, a doutrina da metempsicose não é uma novidade; desde a mais remota antiguidade, contou com ilustres defensores como Pitágoras e Platão, entre outros. Igualmente, entre os antigos israelitas, nos períodos de  decadência e ignorância religiosa, surgia a crença na transmigração da alma. Assim, por exemplo, quando Nosso Senhor interrogou os seus discípulos dizendo: Quem dizem os homens que é o Filho do Homem? responderam-lhe que uns diziam que era João Batista, outros que era Elias e outros que era Jeremias ou algum dos profetas (Mt. XVI, 13-14).  Esta resposta mostra-nos que havia entre os judeus ignorantes da sua própria religião uma crença na reencarnação sem nenhum fundamento nas Escrituras. Contudo, o espiritismo moderno, surgido na França no século XIX, não é herdeiro das antigas teorias da metempsicose. Surgiu em ambientes socialistas e revolucionários, influenciados pelo evolucionismo então em voga.

Em nossos dias, os espiritas gostam de citar aquela passagem do Evangelho segundo São Lucas que diz que o  São João Batista veio com o espírito e a virtude de Elias (Lc, I, 17) como se o precursor fosse a reencarnação do grande profeta que combateu os adoradores de Baal. Ora, Santo Agostinho, em seu belíssimo livro A Trindade explica que uma coisa é o espírito que recebemos para viver (a alma ou princípio vital) outra coisa é o espírito que recebemos para ser santos, quer dizer, o Espírito Santo que nos é dado como Dom. No caso, chama-se espírito de Elias o Espírito Santo recebido por Elias (A Trindade, livro V, capítulo 14).

Entretanto, hoje é muito mais importante uma refutação filosófica (racional) do espiritismo que uma refutação teológica extraída da Sagrada Escritura, tão desprestigiada está a teologia.

Cumpre, em primeiro lugar, dizer que a metempsicose defendida por Platão e fundamentada em mitos e mistérios escatológicos da antiguidade deve-se ao fato de o filósofo não ter conseguido explicar bem o conhecimento humano a partir dos sentidos e, então, propor a teoria do mundo das ideias, segundo a qual o conhecimento se daria por recordação e, consequentemente, só ser possível se a alma fosse  preexistente. Ademais, Platão não soube explicar bem a união entre a alma e o corpo. Para ele, no homem não há uma união substancial entre corpo e alma. Concebe o corpo como um cárcere da alma. Aliás semelhante equívoco foi defendido por Orígenes que dizia serem as almas preexistentes e, por castigo de uma culpa grave, se transformavam em demônios ou se uniam a corpos materiais.

Ao contrário, Aristóteles e Santo Tomás de Aquino explicaram o conhecimento humano com base na distinção entre conhecimento sensível e conhecimento intelectivo. No homem não há ideias inatas; a alma não é preexistente, o conhecimento não se dá por recordação nem iluminação (salvo uma revelação sobrenatural), mas a partir dos sentidos. A alma (ou princípio vital) é a forma do corpo; é ela que organiza o corpo de um ser vivo e lhe garante uma unidade em suas operações. Como forma substancial de um ser vivo, a alma não pode informar senão o corpo do qual é forma, não pode encarnar em outro corpo, porque é parte constitutiva do homem.

Como explana de modo admirável o Padre Enrico Zoffoli em sua obra Principi di Filosofia:  “Toda alma difere das outras da sua espécie segundo a determinada e inconfundível porção de matéria que é destinada a informar. Trata-se de uma distinção profunda, que a caracteriza como substância absolutamente única, inédita, irrepetível. E acrescenta logo a seguir: “À luz da genética pode-se dizer que a individuação deriva de uma entre milhares de bilhões de combinações dos cromossomos maternos com os paternos que fixam  o código genético da cada zigoto. Portanto, as diferenças entre as almas dependem da relação de cada uma à particular constituição do corpo ao qual Deus a destina em sintonia (misteriosa) com a causalidade desenvolvida pelos respectivos genitores. (…) Resulta que não seria humana uma alma que, por absurdo, não se relacionasse a um determinado corpo” (o. c. p. 325).

Por conseguinte, é um desarrazoado e contra os dados da ciência genética afirmar que a alma possa reencarnar em diferentes e sucessivos corpos.

O espiritismo, independentemente da boa fé das pessoas que por ignorância o abraçaram como uma filosofia de vida, é uma grave ofensa ao Deus Criador. Efetivamente, a alma humana, por ser imaterial, é incorruptível e após a morte está sob o domínio de Deus, aguardando o Juízo Final e a ressurreição da carne para voltar a unir-se ao corpo de que é a forma. É uma injuria ao Criador, é uma forma de magia diabólica pretender evocar uma alma para entrar em comunicação com os homens aqui na Terra. Nisto só pode haver charlatanismo ou ocasião para que o demônio possa enganar as pessoas que ousam desobedecer à lei de Deus que interdiz tal prática. Ademais, a crença no espiritismo e suas diversas práticas como as mesas falantes, mediunidade etc levam muitas pessoas a perder a sua própria identidade, a não saber mais quem elas são depois de terem “incorporado” tantos espíritos . É, portanto, um grande mal para o homem, também.

Nós católicos, nestes tempos  de grande confusão de ideias, de ignorância religiosa, em que parece que os homens, cansados da verdade que lhes impõe graves responsabilidades diante de Deus e do próximo, correm atrás de fábulas e novidades, devemos permanecer firmes na doutrina católica tradicional, na qual não há lugar para nenhuma fantasia perturbadora da nossa mente , mas sempre plena harmonia entre a fé e a razão.

Anápolis, 17 de setembro de 2014.

Comemoração dos Estigmas de São Francisco de Assis