Navegantes e naufragantes

Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa

Na travessia do mar tempestuoso desta vida há católicos que infelizmente preferem ouvir o canto da Sereia ao canto da Stella Maris, o canto da Senhora Soberana do céu e da terra. Certissimamente vão naufragar porque se recusam a sofrer todas as humilhações que a Providência Divina envia aos eleitos para purificá-los na demanda do reino do céu.

A vida do católico aqui na terra sempre foi e será um esforço constante para não desertar do combate a ser travado sob os estandartes de Cristo Rei contra o reino de Satanás e do Anticristo. É a doutrina exposta e defendida pelos grandes teólogos e mestres da vida espiritual com base na Sagrada Escritura. É a doutrina de Santo Agostinho na monumental Cidade de Deus. Em um regime de cristandade, em um estado confessional católico, onde as autoridades políticas se empenham em organizar a sociedade conforme a lei de Deus, a luta contra os inimigos da salvação pode ser menos renhida, mas, mesmo assim, a vida do católico será sempre uma luta.

Desgraçadamente, a partir do Vaticano II semelhante concepção da vida católica como um combate foi sendo deixada de lado para ser finalmente substituída pelo mito do diálogo. Não o diálogo como sempre o entendeu toda a tradição desde a antiguidade, como, por exemplo, Platão. Não o diálogo como uma investigação de pessoas que, tendo os mesmos princípios e valores, se unem em um esforço comum para chegar à solução de um problema ou sanar uma dúvida que aflige a todos. Mas um diálogo de céticos desesperados e contraditórios que, não vendo sentido em nada, se unem apenas no afã de descobrir uma regra geral de como compartilhar melhor as alegrias e penas de uma vida efêmera. Sinceramente, acho que não há exagero nestas palavras.

Foi assim que deixando de lado o hino Stella Maris, muitos católicos passaram a ouvir e a cantar o canto da Sereia e abraçaram os ídolos dos tempos modernos: democracia, liberdade, igualdade de oportunidades, direitos humanos. E agora vêem-se até defrontados com a necessidade de dialogar sobre questões que a princípio pode causar-lhes alguma repugnância mas terão de engolir se não quiserem receber a pecha de fundamentalistas. Refiro-me aos tópicos constantes da agenda da nova ordem mundial: direitos reprodutivos e sexuais da mulher, aborto, “casamento homossexual”, ideologia do gênero etc.

Com efeito, desprezando a Virgem Prudente, a Sede da Sabedoria, e ouvindo a Sereia, não puderam ou não quiseram esses católicos que agora naufragam e estão consternados com a rejeição do nome do jurista Ives Gandra para o Supremo Tribunal Federal, não puderam ou não quiseram entender que o mundo pós-moderno, herdeiro de todos os erros condenados pelo magistério tradicional da Igreja, não dá mais lugar a quem queira defender nas instâncias públicas valores morais baseados em princípios metafísicos ou teológicos. Não quiseram reconhecer que mais cedo ou mais seriam alijados por seus companheiros de viagem a quem adulavam ao mesmo tempo que zombavam dos católicos tradicionalistas taxados de fundamentalistas e cismáticos. Foram merecidamente devorados pelo grande monstro, pelo Leviatã moderno, chamado democracia laica ou secular, ao som do canto da Sereia, enquanto os católicos fiéis à tradição da Igreja escapam do naufrágio, escapam de ser comidos pelo monstro ou tragados pelo dilúvio porque preferem ser marginalizados, preferem ficar de fora, cantando Stella Maris e rezando o santo rosário.

O grande imperador Filipe II dizia “prefiro não reinar a reinar sobre hereges.” Palavras de grande valor moral, palavras de espantosa atualidade. Realmente, que pode fazer um rei católico em um país de hereges? Que pode fazer hoje um governante católico quando as famílias estão desestruturadas e as instituições completamente aparelhadas por bandidos revolucionários?

Que bem poderá fazer hoje um juiz católico na suprema corte? Certamente bem pouco para não dizer nada.

As palavras de Filipe II me convencem ainda mais de como estão errados os príncipes e monarquistas que sonham com a restauração do trono a qualquer custo. Que vale uma monarquia oca, uma monarquia cerimonial? Conta-se que o Conde de Chambord, prejudicado pelo ralliement de Leão XIII, teria dito que se tivesse cingido a coroa da França, não o teriam deixado governar porque não transigiria nos princípios fundamentais da política católica.

Do mesmo modo, que bem poderá fazer hoje um jovem sacerdote que aspire ao episcopado? Uma vez no governo de uma diocese, quanta resistência dos modernistas e dos progressistas da teologia da libertação não encontrará? Realmente, esses tais que aspiram ao episcopado não aquilatam a cruz que pedem. Uma cruz talvez não para a salvação mas para a própria condenação. Não se trata de recusar o exercício da autoridade por comodismo, por falta de fortaleza, mas de, com prudência, examinar as circunstâncias e reconhecer que hoje, como está a sociedade, não há lugar para homens de bem no governo. A sociedade está reduzida a uma quadrilha de bandidos e degenerados. As instituições faliram.

As palavras de Filipe II me fazem ver também como estão errados os leigos e clérigos que correm atrás de títulos nobiliárquicos e honoríficos. A dignidade de um título se mede pelo valor de quem o confere. Ser nomeado cavaleiro por um grande monarca sem dúvida é um notável galardão. Ser nomeado monsenhor por um santo papa também. Mas hoje tudo isso é impossível.

Das palavras de Filipe II me utilizo também para ilustrar a situação da Fraternidade Sacerdotal São Pio X. Há católicos “conservadores” ou linha média que desejam um acordo da Fraternidade com o Vaticano de Francisco I, fazem campanha para que ela tenha reconhecimento canônico de direito pontifício. Que bem poderá fazer a Fraternidade uma vez reconhecida? Muito mais nobre será sofrer o labéu de ter sido esbulhada nos anos setenta da sua estrutura canônica do que agora obter mediante termos ambíguos um reconhecimento. Muito mais nobre será agora pedir ao Vaticano que declare nula a supressão canônica ao tempo de Paulo VI do que estudar agora a viabilidade da ereção de uma prelazia pessoal.

Conta-se que o Patriarca José Bonifácio recusou o título de marquês de Santos, por discordar das atitudes de Dom Pedro I. Este, para desfeiteá-lo, agraciou sua favorita Domitila com o título de marquesa de Santos. O grande Joaquim Nabuco, embora também monarquista, recusou um título de visconde que lhe oferecia Dom Pedro II. Ambos são exemplos de autêntica nobreza não titulada.

A sociedade corrompeu-se a tal ponto hoje, que os verdadeiros católicos, se não quiserem trair sua consciência e sua fé, não podem mais esperar cargos e honrarias das altas esferas. Todos estamos assistindo perplexos aos desafios à autoridade do presidente dos EUA, que está longe de ser um estadista defensor dos valores tradicionais. Serve apenas para demonstrar o descontentamento de uma grande parcela da opinião pública. Não se sabe ainda como terminará a história.

Se nos Estados Unidos, onde o povo é mais culto e a sociedade bem mais organizada que a nossa, a situação é calamitosa, que dizer do Brasil depredado pelo lulopemedemismopetista e pela teologia da libertação?

Só nos resta rezar, só nos resta pedir o socorro da Estrela do Mar, bem longe da Sereia. Só nos resta salvar nossas famílias e pequenas comunidades.

Deus, venerunt gentes in heriditatem tuam, polluerunt templum sanctum tuum, posuerunt Ierusalem in pomorum custodiam. (Ps. 78)

Anápolis, 8 de fevereiro de 2017.

Festa de São João da Mata

A descoberta da Outra

Um leitor que se diz assíduo, numa longa conversa telefônica, estranhou o pós-conciliar. O leitor entende o termo como se significasse a mesma Igreja Católica, na era pós-conciliar. Bem sei que nesse período conturbado continua a existir, na terra, a Igreja Católica dita militante. Ora, minha sofrida e firme convicção, tantas vezes sustentada aqui, ali e acolá é que existe, entre a Religião Católica professada em todo o mundo católico até poucos anos atrás e a religião ostensivamente  apresentada como “nova”, “progressista”, “evoluída”, uma diferença de espécie ou diferença por alteridade. São portanto duas as Igrejas atualmente governadas e servidas pela mesma hierarquia: a Igreja Católica de sempre, e a Outra. E note bem, leitor: quando acaso der a essa outra o nome de Igreja pós-conciliar não quero de modo algum insinuar a infeliz idéia de que, após o Concílio, a Igreja de Cristo se teria transformado a ponto de tornar-se irreconhecível, devendo os fiéis de bem forma­da doutrina católica acreditar nessa nova forma visível da Igreja, por pura disciplina, ainda que a maioria das pregações e dos novos ensinamentos sejam ostensivamente diversos e as vezes opostos à doutrina católica. Não! A Igreja Católica e Apostólica continua a existir na era pós-conciliar, submetida a duras provações, mas sempre permanente e fiel guardiã do depósito sagrado.

Se o leitor me perguntasse agora quais são as essenciais diferenças que separam as duas religiões, eu responde­ria: diferença de espírito, diferença de doutrina, diferença de culto e diferença moral. Como terei chegado a tão assustadora convicção? Com muito sofrimento e muito trabalho, são milhares os católicos que chegaram à mesma convicção.

Começamos por confrontar os novos textos, as novas alocuções, as novas publicações pastorais com a doutrina ensinada até anteontem. A começar pelos textos emanados dos mais altos escalões, citemos alguns daqueles que mais dolorosamente e mais irresistivelmente nos levaram à conclusão de que se inspiram em outro espírito e se firmam em outra doutrina. Entre os textos conciliares, citamos os seguintes: Constituição Pastoral sobre a Igreja e o Mundo Atual (Gaudium et Spes); Decreto sobre o Ecumenismo (Unitatis Redintegratio); Declaração sobre a Liberdade Religiosa (Dignitatis Humanae); Discurso de Encerramento do Concílio, 7 de Dezembro de 1965; Institutio Generalis do Novus Ordo Missae: Ponto 7 (na primeira redação, de 1967, e principalmente a segunda redação de 1970). Além desses documentos dos mais altos escalões, poderíamos encher as páginas deste jornal com obras e pronunciamentos de cardeais, arcebispos, bispos e padres que eram bisonhos, retraídos e discretos quando tinham vaga consciência de suas deficiências filosóficas e teológicas e que subitamente descobrem que na “nova Igreja” podem dizer tudo o que lhes vem à boca que fala ou à mão que escreve. O que menos se conhece é a Teologia, mas o que mais abunda na Nova Igreja são os “teólogos da libertação”. 

Devemos dar especial atenção aos pronunciamentos das Conferências Episcopais que rarissimamente dizem coisa parecida com a Santa Religião ensinada por Jesus Cristo. Basta prestar atenção, ler, e comparar toda a prodigiosa logorréia dos reformadores com o que já lemos dos santos doutores, dos santos Papas, e de toda a Tradição católica. Eles não falam a mesma língua de nossa Mãe Igreja, não usam o mesmo léxico, não seguem o mesmo espírito. Evidencia-se com brutalidade dolorosa o fato de ter sido a Igreja invadida, ou de ter se deixado seduzir pelos mesmos inimigos que combatia. Uma das notas mais características do novo espírito é a da tolerância erigida em máxima virtude, e o correlato horror por qualquer espécie de luta ou combate. Os novos levitas corrompem a juventude, destroem as famílias, mas quando alguém ergue a voz pedindo punição severíssima para os seqüestradores e para os traficantes de drogas, logo começam a esganiçar gritinhos: Violência, não! Violência, não!

E aqui encerro a concisa resposta que dou ao leitor escandalizado: foi a atenta observação desses fatos, foi a paciente leitura de himalaias de mediocridade e foi a comparação gritante entre o que ensinam e o que ensinaram os santos, e creio que foi principalmente a graça de Deus certa­mente pedida cada dia, cada hora, nessa especial e gravíssima intenção, que nos levaram a essas conclusões. Se é preciso usar o recurso dos gritos que tanto usam hoje, gritarei eu também, e não esconderei a reação que tive em 1965 após a primeira leitura da Constituição sobre a Sagrada Liturgia: corri ao telefone do amigo mais próximo já chorando, já engasgado de soluços que me sacudiam o corpo todo. E gritei: eles estão loucos! Eles estão loucos! E mais não digo.

Vejo em seguida nos meios católicos um dilúvio de calamidades pavorosas. Nas melhores famílias católicas, tradicionalmente católicas, os jovens, pervertidos pelos professores de colégios católicos, se transformam em anormais, comunistas, criminosos seqüestradores, ou em inutilizados toxicômanos. Meu Deus! Como pode? Como pode? Como Pode? O mistério da permissão divina nos traz vertigens quando pensamos em tantos bons pais tão terrivelmente atingidos.

Mas quando pensamos que a crise de costumes que dissolve todos os valores morais de uma civilização é principalmente gerada pela impiedade e pelo orgulho dos homens, que reivindicam todas as liberdades e todos os direitos; e principalmente quando pensamos que é exatamente nessa hora sombria que os homens de Igreja julgam ter feito uma descoberta muito inteligente, e muito oportuna – a de se abrir para o mundo e até a de nele procurar inspirações para o novo humanismo que apregoam – então, com temor e terror, pensamos que a misteriosa permissão divina, já nos foi profeticamente revelada na Sagrada Escritura, e durará até o dia em que os homens descobrirem apavorados que desprezaram Deus, que contrariaram Deus, que se riram de Deus. E, nesse dia de espantosa desolação descobrirão “que não passam de homens” e que só Deus é o Senhor.

Neste ponto da entrevista, o leitor me faz uma pergunta muito séria e de importância capital:

 Qual é, na sua convicção, o traço principal, o conteúdo essencial dessa Outra religião que o senhor vê nos re­cintos da Igreja Católica?

 Mais uma vez insistido neste ponto: a desordem que se observa nos meios eclesiásticos e que produz tais malefícios, não pode  ser apenas uma pura desordem. A desfiguração da Igreja do Verbo Encarnado, isto é, da religião do Deus que se fez homem, tem uma figura: a da religião do homem que se faz Deus. Essa é a figura da desfiguração.

 Não foi o próprio Papa Paulo VI quem disse no discurso de encerramento do Concílio que “a Igreja de Deus que se fez homem encontrou-se no Concílio com a religião do homem que se faz Deus“?

 Exatamente. E se o amigo continuar a atenta leitura desse documento, se convencerá de que não exagero nem me perco em fantasias se lhe disser que a figura essencial da Outra é a de um humanismo que se torna uma nova religião que difere do cristianismo por seu desolado naturalismo, isto é, pela ausência da mais bela de todas as obras de Deus – a ordem da graça e da salvação.

Eles tentam disfarçar a chatice e a tristeza sinistra e feia, com retalhos de cristianismo sem vida  mas a anemia profunda do corpo sem sangue está na visibilidade da Outra que só serve para eclipsar a Santa Visibilidade da Igreja de Cristo.

 E como poderá a Igreja Católica desembaraçar-se desses equívocos e voltar a ser  visível, dourada, um pouco mais hoje, um pouco menos amanhã, mas sempre anunciando aos homens, aprisionados no efêmero, um Reino que não é deste mundo?

 O senhor espera ainda ver neste mundo a Igreja Militante em todo o seu esplendor?

 Não. A desordem é profunda demais e chegou aos vasos capilares dos membros da Igreja. Se ela não fosse obra sobrenatural de Deus eu diria, em termos usados pelos físicos, que a desordem é sempre prodigiosamente irreversível.

E, no caso, a improbabilidade de tal recuperação seria ex­pressa por números espantosos como dez elevado a menos mil (10-1000) que, na verdade, não exprimem nada. Não são números concretos nem entes de razão; quando muito diríamos que só são entes de giz no quadro negro. Emile Borel dizia francamente que, diante de tais improbabilidades, é melhor dizer simplesmente que são impossíveis. Mas nós aqui estamos  falando da mais maravilhosa das obras de Deus: 

Deus qui humanae substantiae dignitatem mirabiliter condidisti, et mirabilius reformasti” 

E o que a nós parece impossível, é possível para Deus. Mas nossa esperança teologal não nos obriga a esperar acontecimentos neste mundo. No ponto da vida em que me acho, só posso esperar, pela misericórdia de Deus e pelo Sangue de Cristo, a felicidade de ver brevemente a Igreja do Céu em toda a sua beleza eterna e fora do alcance dos flagelos humanos.

E é a alegria dessa esperança teologal que, nestes dias de transição desejo aos meus leitores e companheiros de trabalho.

Gustavo Corção

(O Globo, 29/12/1977)

A nova Inquisição contra os cardeais “rebeldes”

Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa

Finalmente, chegou ao conhecimento do grande público a vergonhosa divergência doutrinária entre um grupo de cardeais ditos “conservadores” e o papa Francisco sobre a exortação pós-sinodal Amoris laetitia. Uma divergência doutrinária vergonhosa e descabida por vários motivos. Vergonhosa porque já se pôde notar, ao longo da contenda, mudança de posições adotadas por ao menos um dos críticos de Amoris laetitia, como o sr. cardeal Muller, da Congregação para a Doutrina da Fé, que antes se declarava contrário às inovações da referida exortação, e agora se bandeou para o lado do papa, censurando publicamente os cardeais que interpelam Francisco I. Vergonhosa também porque em seus desdobramentos essa contenda começa a ferir os direitos da Soberana Ordem de Malta unicamente com o escopo de atingir seu patrono, o cardeal Burke, um dos principais signatários da interpelação do pontífice, mais conhecida como dubia. E descabida porque versa sobre um ponto doutrinário sobre o qual não paira a menor dúvida: um casamento rato e consumado não pode ser dissolvido nem sequer pelo papa, de modo que quem contrai segunda união após um casamento legítimo comete pecado de adultério e, por conseguinte, não pode receber absolvição enquanto não se desligar da união ilegítima e não pode receber a sagrada comunhão.

Agora os cardeais interpelantes estão sendo censurados pelo cardeal Muller por terem tido a coragem de tornar pública a correspondência dirigida ao papa como se fosse um desacato à autoridade do pontífice, uma intimidação contra o santo padre. Mas o pior é que se começa a esboçar um verdadeiro processo atrabiliário contra os cardeais, já ameaçados de degradação do cardinalato pelo presidente da Rota Romana. Com efeito, dir-se-ia que se estabelece uma inquisição bem ao gosto dos tempos modernos, bem adaptada à mentalidade do homem de hoje e aos recursos disponíveis. Em vez de um tribunal que julga os delitos contra a fé à luz da doutrina perene, à luz do dogma, em vez de um tribunal que conta com o trabalho sereno de teólogos que instruam um processo, apela-se logo aos meios de comunicação para conceder entrevistas que conquistem a simpatia da opinião pública, em vez de tratar o assunto em seu âmbito próprio e com os critérios legítimos. E a imprensa, que historicamente sempre se posicionou contra a Igreja e promoveu todas heresias e revoluções anticristãs, agora se mostra solidária com o papa e vilipendia os cardeais “conservadores” rotulados de rigoristas, homens rígidos, legalistas, desumanos, completamente alheios à realidade, incapazes de perceber a complexidade da vida humana que não se pode engessar dentro de esquemas teológicos ou ideológicos, como gosta de dizer Francisco I.

Quer dizer, a nova Inquisição entrega os cardeais acusados de cisma ao novo braço secular da Igreja pós-conciliar, a mídia. E esta se encarrega de executar a sentença de morte, condenando à execração pública os cismáticos que teimam em defender a moral familiar tradicional. Realmente, foi isto que se pôde verificar na edição do último domingo do jornal “O Estado de S. Paulo”, numa matéria de página inteira em defesa de Bergoglio e contra os cardeais “conservadores”, sob o título A revolução e a reação a Francisco dentro do Vaticano.

É pasmoso que um jornal de tradição maçônica, secular, cientificista, e não sei que coisa mais, saia em defesa de Francisco. Um jornal que promove o aborto, o casamento gay, o feminismo, o controle demográfico a qualquer custo, publica uma matéria contra os cardeais. E chama a atenção o fato que a matéria entrevista alguns “especialistas” que desenvolvem a defesa de Francisco, não com argumentos teológicos, mas recorrendo apenas a razões sociológicas para justificar a abertura de Francisco, ou melhor, a traição da doutrina católica sobre o casamento: a sociedade mudou, há uma nova cultura, a Igreja tem de adaptar-se, enfim, as bobagens de sempre.

Entretanto, do fim do mundo, quero dizer, da Argentina (assim a chamou Francisco I quando se apresentou ao mundo como o “bispo de Roma”) não vêm apenas sobressaltos. A grande nação platina é berço de grandes intelectuais católicos. É a terra de Cristián Iturralde. autor de La Inquisición – un tribunal de misericordia (Buenos Aires – 2012). Uma obra preciosa, um estudo realmente científico, com uma profusão de informações bem documentadas e concatenadas sobre o tema da Inquisição, o cavalo de batalha de todos os inimigos da Igreja e também dos maus católicos.

Uma das informações bem documentadas da obra de Iturralde, a qual vem bem a calhar com a contenda entre Francisco e os cardeais “rebeldes ou conservadores”, é a que nos diz que todas as religiões, em todos os tempos, inclusive as seitas protestantes apesar do seu proclamado livre-exame, sempre exerceram uma censura contra os seus hereges e aplicaram uma sanção. Sobre o judaísmo, por exemplo, o autor informa, com abundantes documentos, como os judeus apelavam para a Inquisição para que punisse os hebreus acusados de heresia, como o famoso Moisés Maimônides. Cita autores judeus que dizem que os rabinos e doutores da sinagoga tinham ótimas relações com os inquisidores, porque, como não tinham poder coercitivo contra os seus hereges, queriam que os inquisidores os punissem. Mostra que os guetos, as “juderias”, eram organizações queridas pelos próprios judeus para preservarem suas tradições e costumes; que não se tratava absolutamente de uma segregação injusta dos grandes reis católicos. Diz também que a Inquisição espanhola deve sua origem aos hebreus que, à medida que se convertiam ao catolicismo, lhe traziam seus procedimentos.

Iturralde esclarece perfeitamente a lenda da “pureza de sangue”, a infamante acusação de racismo lançada contra os papas e os reis da Espanha, recordando a postura antirracista do rei católico Fernando e citando bulas  dos papas Nicolau V e Sixto IV. Explica que a pureza de sangue significava não ter antecedentes heréticos nem imputação de outros delitos. Pureza de sangue significava, diz, um conjunto de fatores espirituais e morais, como a tradição, a fé, um destino comum, não era uma categoria racial.

Na página 47 da referida obra Iturralde destrói todas as imposturas contra a Inquisição,sustentadas até por pessoas “cultas”:

a) Galileu foi queimado pela Inquisição.

b) Tomás de Torquemada queimou milhares de protestantes.

c) a Inquisição queimou milhares de bruxas.

d) a Espanha, a Igreja e a Inquisição foram racistas.

e) o castigo comum da Inquisição era a fogueira.

f) o primeiro inquisidor São Domingos queimou milhares de hereges com a Inquisição medieval.

Responde Iturralde:

a) Galileu morreu de morte natural, em sua casa, gozando de uma pensão papal.

b)Torquemada morreu em 1498,vinte anos antes da revolução luterana.

c) A Inquisição espanhola nunca se interessou realmente pelas bruxas, as quais tinha por impostoras e loucas. Os protestantes ingleses e alemães,ao contrário, levaram-nas a sério: 150.000 pessoas queimadas, em sua maioria mulheres, só por acusações de bruxaria.

d) Houve milhares de inquisidores, religiosos, oficiais régios de origem judia.

e) A fogueira, empregada por quase todos os tribunais na história, só raramente foi empregada pela Inquisição, por considerá-la um castigo sumamente rigoroso. Os protestantes, ao contrário, empregaram este suplício em abundância.

f) São Domingos não foi o primeiro inquisidor, muito menos fundador do tribunal pontifício, tendo morrido dez anos antes da criação da Inquisição medieval.

Ademais, Iturralde esclarece como se originou a legenda negra contra a Igreja e a Inquisição. Os hereges que odiavam a Espanha e a Igreja usaram e abusaram da imprensa para lançar suas mentiras e calúnias. O espanhol, povo nobre e cavalheiro, cristão que não guarda rancor, não respondeu às difamações. Só tardiamente surgiram os bons apologistas católicos, como Menéndez Pelayo e outros que desmascararam um Llorente, por exemplo, o padre inquisidor, jansenista, que se voltou contra a Inquisição que servira e publicou uma obra infame a respeito do Santo Ofício.

O autor expõe também as garantias processuais da Inquisição, que não cabe aqui reproduzir.

A conclusão a que se chega é que hoje os cardeais submetidos à nova inquisição da Igreja pós-conciliar estariam em situação bem mais vantajosa se fossem conduzidos às barras do tribunal da Santa Inquisição! Que Nossa Senhora das Vitórias os proteja!

Anápolis, 17 de janeiro de 2017.

Festa de Santo Antão Abade

Que se pode esperar da interpelação dos cardeais “rebeldes”?

Pe João Batista de A. Prado Ferraz Costa

A parte  sã do catolicismo tomou conhecimento, possuída de um sentimento misto de surpresa e conforto, da interpelação dirigida ao santo padre por quatro cardeais a propósito de problemas de teologia moral suscitados pela exortação pós-sinodal Amoris Laetitia. A solene interpelação, que restou ignorada pelo destinatário, consistiu nas dubia referentes, basicamente, a duas questões: podem ou não os divorciados “recasados” civilmente receber os sacramentos da confissão e da eucaristia; há ou não há ações intrinsecamente más, ou seja, há normas morais absolutamente obrigatórias independentemente das circunstâncias?

O motivo da surpresa da parte sã do catolicismo diante da reação dos cardeais à revolução  bergogliana é que os eminentes purpurados são eclesiásticos que, ao que consta, jamais manifestaram uma discordância quanto ao curso percorrido pela  Igreja desde o Vaticano II. Aliás não seriam criados cardeais  pelos papas da Igreja conciliar.

Quer dizer, são dignitários que aceitam, por exemplo, a Gaudium et spes, documento conciliar que introduz uma mudança na doutrina da Igreja sobre a hierarquia de fins do matrimônio (o que, sem dúvida, favorece a ideia tão cara aos católicos modernos, de aceitar a possibilidade de reconstruir uma vida feliz após o fracasso de um primeiro casamento, esquecidos do dogma da indissolubilidade do vínculo). São cardeais que aceitam Dignitatis humanae, a declaração conciliar sobre a liberdade dos cultos, que dá primazia à consciência errônea sobre a verdade objetiva. Declaração que escarnece o bem comum da sociedade representado pela unidade do povo cristão em torno da  religião católica como sua alma. Declaração que, em germe, contém os erros flagrantes da exortação pós-sinodal ora impugnada.

São cardeais que aceitam do mesmo modo a nova exegese proposta pela Dei Verbum, que nega a inerrância absoluta da Sagrada Escritura, restringe a divina inspiração bíblica às verdades salvíficas e adota a teoria protestante de uma única fonte bíblica da revelação. De maneira que, nesta perspectiva, os purpurados autores da interpelação contra o pontífice, em princípio, não são teólogos da tradição em sentido estrito.

Em suma, os interpelantes aceitam perfeitamente o concílio, o espírito do concílio, a reforma litúrgica, o ecumenismo, o espírito de Assis, a nova eclesiologia da Lumen gentium, com a sua infeliz expressão subsistit. A qual expressão  também favorece os erros que consideram encerrados em Amoris Laetitia, na medida em que diz que a Igreja de Cristo é constituída pelas igrejas cismáticas que há milênios aceitam as orientações da exortação de Francisco I.

De modo que o motivo da surpresa ou espanto é que os senhores cardeais sabem apontar os problemas doutrinários da exortação pós-sinodal sem, todavia, verem a relação dos mesmos com o Concílio Vaticano II, quando Francisco I, com toda razão, diz seguir o concílio e o caminho traçado por seus predecessores. É realmente desejável que os cardeais interpelantes verifiquem que há tal relação e se lembrem de que um pequeno erro no princípio se torna grande no fim. Se é que se pode dizer que os erros do Vaticano II são pequenos!

Com efeito, acode-me à memória a história do rei Acab. Diz o III livro dos Reis que, quando o Senhor  quis induzi-lo em erro consultou todo o exército do céu e perguntou quem enganaria a Acab. Então o espírito maligno se adiantou e disse: “Eu o enganarei”. E o Senhor lhe disse: “De que modo?” E ele respondeu: “Eu sairei, e serei um espírito mentiroso na boca de todos os seus profetas”. E o Senhor disse: “Tu o enganarás, e prevalecerás: Sai, e faze-o assim.”

O Doutor Santo Agostinho comenta a passagem bíblica dizendo que “era justo que Acab, que não tinha crido no Deus verdadeiro, fosse enganado pelo falso.”

O que quero dizer é que todos os teólogos que desprezaram  ou relativizaram o alto alcance da Pascendi de São Pio X e não quiseram ouvir a Humani generis de Pio XII, mas aderiram à Nouvelle Theologie e constituíram a “linha média” da Igreja pós-conciliar, e motejaram dos católicos da tradição como uns estouvados, uns exagerados e radicais que não sabiam interpretar bem o Vaticano II, e hoje estão perplexos com a desenvoltura de Francisco I, foram merecidamente enganados pelo espírito mentiroso por uma especial permissão divina, justamente por terem desprezado, por exemplo, o alcance do magistério tradicional e menoscabado daqueles que, como Dom Lefèbvre e  Dom Antonio de Castro Mayer, (a quem acusavam de ser rebeldes e cismáticos, as mesmas injúrias que hoje são assacadas contra eles) diziam que as inovações do Vaticano II levariam à ruína da Igreja.

Sem dúvida, a linha média, que hoje se sente enganada e escandalizada com as atitudes de Francisco I, paga o preço da aliança que fez com a ala mais radical da Nouvelle Theologie para vencer, nos embates do concílio Vaticano II, os católicos que queriam permanecer fieis aos anátemas lançados pelos grandes papas contra o liberalismo e o modernismo. Na verdade, queriam o aggiornamento. Mas agora não querem colher seus frutos mais amargos.

Bem sabemos:  Nosso Senhor não abandona a sua Igreja. Não permitirá que o espírito mentiroso chegue a destruí-la. Serve-se dele apenas para castigar os infiéis. Este é o nosso conforto.

De modo que cremos que Deus Nosso Senhor, por intercessão da Imaculada Conceição, poderá conceder a todos os católicos da linha média, que hoje estão escandalizados, a graça de que cessem de ouvir os falsos profetas inspirados pelo espírito mentiroso, tomem consciência dos problemas não só da exortação Amoris Laetitia mas também dos “pequenos erros” do Vaticano e de todas as problemáticas reformas pós-conciliares.

Mas se acolherem essa graça terão de sofrer  como Miqueias, o profeta verdadeiro desprezado por Acab. Miqueias foi condenado à cadeia e a ser sustentado com o pão de tribulação e a água de angústia. Semelhante sorte parece reservada aos quatro cardeais, pelo que disse há pouco o presidente da Rota Romana.

Tenho esta esperança. Rogo a Deus pelos cardeais interpelantes.

Oxalá possa alguém escrever sobre eles um livro semelhante àquele que há muitos anos atrás foi escrito por Dr. Ricardo Dip: “Monseigneur Marcel Lefèbvre: rebelde ou católico?

Anápolis, 2 de dezembro de 2016.

Festa de Santa Bibiana, virgem e mártir

 

A saborosa vitória de Trump

Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa

Como sacerdote católico tradicionalista (Os verdadeiros amigos do povo são tradicionalistas, dizia São Pio X), em princípio monarquista (não um monarquista parlamentarista liberal), jamais fui um admirador dos EUA, mas tampouco jamais compartilhei a opinião da esquerda que considera os EUA o império do mal que vive da exploração das outras nações.

Minha antipatia pelos EUA foi sempre por outras razões. Deveu-se às suas origens históricas: uma nação nascida do que houve de pior na revolução religiosa do século XVI: as piores seitas heréticas da criminosa Inglaterra que tinha condenado à morte Santo Tomás Morus, Maria Stuart e milhares de católicos sacerdotes e leigos. Um reino corrompido não só pela heresia mas pelos gravíssimos erros filosóficos do nominalismo, do sensualismo, do contratualismo que tiveram  nefastas consequências no campo da moral, da política e geraram enfim uma visão do mundo completamente oposta à visão católica tradicional do que deva ser a verdadeira ordem política.

Minha antipatia deveu-se também à maneira brutal como os hereges colonizadores e seus descendentes trataram os índios e os negros. Um chileno bom observador das sociedades americana e brasileira me disse que há muitos anos atrás pôde comparar o negro americano e o negro brasileiro e concluiu que o negro brasileiro, apesar da pobreza do Brasil, estampava mais alegria e serenidade que o negro americano. E eu lhe disse que sem dúvida era mais uma diferença entre a cultura católica e a cultura protestante.

Os EUA, na minha opinião, sempre encarnaram e promoveram, ao longo da sua história, esses erros e males, ainda que não tivessem chegado ao ponto de aderir completamente ao espírito ateu do iluminismo mais exaltado, como bem o mostrou Alexis de Tocqueville em De la démocratie en Amérique. E justamente por não terem absorvido as idéias mais radicais do iluminismo os EUA ficaram mais ou menos preservados da mentalidade revolucionária francesa do século XVIII, ao menos no que esta tinha de mais visceralmente anticristão.

De maneira que os EUA sempre me pareceram uma nação que ficou na metade do caminho do processo revolucionário moderno. E por isso suas principais lideranças políticas não puderam jamais compreender como na Europa e em outras partes do mundo ocidental, sobretudo nas nações católicas, havia forças políticas contra-revolucionárias muito boas que mereciam ter recebido apoio dos EUA. Por exemplo, está provado que os EUA podiam, no final de primeira guerra mundial, ter impedido a dissolução do Império Austro-Húngaro e, consequentemente, ter impedido os desastres posteriores no leste europeu. Os EUA foram também contra o grande estadista católico português Antonio de Oliveira Salazar, que lutava para não deixar que os domínios ultramarinos de Portugal caíssem na escravidão comunista. Tudo isto para não falar da  proverbial incompetência dos EUA na condução dos negócios políticos ao final da segunda guerra. E a própria revolução cultural dos nossos dias, forjada pela equivocadamente chamada Escola de Frankfurt, na verdade foi cozinhada e temperada nos EUA.

É verdade que os EUA receberam inúmeros imigrantes católicos que puderam melhorar em boas condições de trabalho suas próprias vidas e a de suas famílias, ajudando assim, também, o crescimento dos EUA. Tanto assim que já no século XIX o papa Pio IX reconheceu que a Igreja tinha de valer-se da liberdade religiosa garantida pela constituição norte-americana para propagar a fé. E igualmente Pio XII incentivou muito o apostolado dos jesuítas nos EUA. Oxalá os católicos tradicionalistas dos EUA se multipliquem e venham a transformá-los na maior potência católica (de verdade) do mundo. Se essas famílias católicas devem ser gratas aos EUA, estes também o devem ser a elas, como, aliás, reconheceu o presidente recém-eleito.

De modo que, embora no meu coração não tenha muito carinho pelos EUA pelos motivos expostos (no meu coração entram o velho Portugal, a Espanha de Filipe II, a Áustria dos Habsburgos e a França do Ancien Regime), devo dizer que saboreei muito a vitória do sr. Donaldo Trump e por ela rezei a Nossa Senhora de Guadalupe.

Realmente, tenho esperança de que o Sr. Trump, justamente pelo ódio que despertou não só na cúpula do seu partido republicano mas em toda a grande mídia e entre os “intelectuais” da subcultura moderna, possa redimir os EUA dos seus  erros cometidos no campo da política internacional. Tenho esperança de que, em primeiro lugar, promova os valores morais, religiosos, familiares, a defesa de vida inocente no ventre materno, combata o feminismo execrando, a ideologia do gênero e ouras aberrações que eram a bandeira da sua adversária. Espero também que ele mantenha boas relações com o presidente da Rússia Vladimir Putin, não só reconhecendo a anexação da Criméia e enfraquecendo a OTAN no Leste Europeu, a fim de obrigar a UE a assumir o ônus de uma defesa injustificada, mas sobretudo unindo-se a Putin na defesa dos cristãos da Síria ameaçados pelo Estado Islâmico. Espero igualmente que Trump contenha as pretensões e a arrogância da ONU que teve a petulância de dizer que ele constituía um perigo para a paz mundial.

Enfim, apesar de meu coração não ser ianque, me alegro imensamente com a vitória do Sr. Donaldo Trump, não tanto pela esperança que despertou entre os bons, quanto pela desolação dos maus que estão espumando de ódio através da grande mídia.

Anápolis, 10 de novembro de 2016.

Santo André Avelino

Dois bispos

Gustavo Corção

O Globo, 3 de abril de 1976

 

Depois dos comentários feitos à desoladora atitude de quase todos os bispos em face da expansão comunista que mais se explica por nossa fraqueza e covardia do que pela força e engenho deles, seria injusto não mencionar os nomes de dois bispos que provocaram a admiração dos que ainda esperam, e a cólera dos traidores.

O primeiro é o de D. Francisco da Silva, Arcebispo de Braga, e portanto, Primaz de Portugal. Está na lembrança de todos, o comício realizado em Braga no ano passado em frente do Palácio Episcopal, onde milhares de portugueses dispostos à resistência buscaram nas palavras do bom Pastor apoio e encorajamento para a luta. Dom Francisco da Silva não se esquivou nem aconselhou a covardia em nome do princípio de não-violência inventado pelos que procuram eufemismos, neologismos, palavras adulteradas para esconder a covardia, ou para esconder o mal que faz com coisas santas. Como Mons. Affre, Arcebispo de Paris, que em 1848 deu sua vida por suas ovelhas, Dom Francisco é hoje um dos cinco ou seis bispos vivos que ainda sabe o que quer dizer o termo “pastoral”, cuja adulteração foi talvez o maio escândalo do “Concílio” que não houve.

Lembro aqui uma palavra muito conhecida de Aristóteles sobre a impossibilidade de pensar sem fazer metafísica: para desfazer a metafísica é preciso fazer metafísica. Cito de memória, confiante apenas no núcleo da ideia. Assim também, para montar um Concílio não doutrinário é preciso começar por admitir uma doutrinação capaz de substituir a que se deseja evitar. No caso começaram por dar ao termo pastoral, muito bem definido no Evangelho do Bom Pastor (Jo 10,1-16), um sentido quase exatamente oposto: o zelo pela custódia da doutrina, escrita com o Preciosíssimo Sangue de Nosso Salvador, foi substituído pela tolerância, pelo relaxamento, e pelas demais pervesidades insistentemente definidas e condenadas pela Santa Igreja – indiferentismo, latitudinarismo, liberalismo, irenismo – agora erigidas em sistema ou louvadas como virtudes.

Ora, se “pastoral” quer dizer o que Jesus ensinou e Mons. Affre praticou, torno a dizer que todos os concílios católicos havidos nos vinte séculos de Igreja Militante, foram pastorais, com exceção do Concílio Vaticano II, que não foi um concílio católico por pretender ter sido o círculo quadrado de um concílio apenas pastoral.

O Arcebispo Primaz de Portugal não discursou sobre os termos usados e adulterados pelo Concílio, mas sua simples atitude de bom Pastor, ereto, ensinante, exemplar, foi um desmentido vivo e heroico da alvitante adulteração do termo que designa seu dever maior diante de Deus e dos homens. Transcrevo abaixo, traduzindo do francês, palavras que com imenso gosto leria em português, uma passagem do pronunciamento de Dom Francisco, publicado pela revista L’Ordre Français: “Nós rejeitamos uma sociedade que falsifica a verdade, favorece a mentira, entretém a calúnia e a difamação. O comunismo é inimigo de nossa religião. Não podemos crer em seus chefes quando eles declaram respeitar as convicções religiosas quando tudo em seus atos (e em sua história) demonstram o contrário”.

A reação do inimigo bem mostra a indignação furiosa com que receberam as palavras do Arcebispo de Braga. O mesmo número de L’Ordre Français nos dá um artigo de La Croix, 13 de agosto de 1975: “Nós subscrevemos este apelo (formulado pelo jornal comunista L’Humanitá contra o discurso de D. Francisco) porque não podemos aceitar o ódio e a violência. As palavras de Dom Francisco da Silva soam como uma incitação à guerra civil. Como pode um bispo chegar a pronunciar um tal discurso?”

Interrompo a transcrição para dar certa razão ao escriba de La Croix que se espanta de ainda encontrar um Bispo católico capaz de um “tal discurso”, ou melhor, um Bispo católico capaz de aconselhar a luta contra os comunistas. O títere das esquerdas, pelo que ouve e lê, imaginava já não haver no mundo um só prelado capaz de arriscar a perda da casa, da comida, da roupa lavada, e até da doce vida, para proteger seu rebanho, e para dar o testemunho de Cristo.

Continuamos a transcrição do artigo de La Croix: “Onde se deterá a violência assim desencadeada? Como cristão, e como homem que pondera a consequência de seus atos, não posso esconder minha reprovação dessas palavras que levam ao ódio e semeiam a morte”.

E eu, como católico e como homem inteiro não posso esconder minha náusea pelas palavras desse emasculado.

O segundo bispo que para nosso conforto, quebra a monotonia da universal mediocridade me surgiu sob as espécies de um livro publicado na sua terceira edição, atualizada e aumentada. Trata-se do livro Un Evêque Parle (Um bispo fala) de Dom Marcel Lefebvre que, por desígnios de Deus e não por seu gosto próprio, numa berlinda de espantosa eminência, está oferecido em espetáculo ao mundo. Neste livro de capital importância Dom Lefebvre, entre outros gravíssimos problemas, aborda o da singular tenacidade com que a maioria dos padres conciliares se recusava não apenas a atender às exigências da Dountria Sagrada como até as definições das palavras – tudo isto sob a cobertura do termo “pastoral”; e também aborda o escândalo que clama aos céus da recapitulação diante do comunismo. Mas deixemos o próprio Bispo falar de tais escândalos:

“… insistirei no fato de, em regra geral, não terem os padres conciliares querido atender aos pedidos de definições em termos exatos das coisas discutidas, e é esta recusa de definições, esta recusa de examinar filosoficamente e teologicamente os assuntos abordados, obstinação que nos deixava limitados a puras descrições das coisas discutidas…”.

É esta sombria recusa de um comportamento católico que hoje obriga Dom Lefebvre a recusar as conclusões de tal assembleia.

O próprio bispo, entretanto, reconhece que algumas vezes vinha dos próprios padres conciliares o fervor de definir, para falsear as definições já feitas e usadas secularmente pela Igreja. Na página 155, Dom Lefebvre dá abundantes exemplos de fraudes praticadas contra a integridade da Doutrina Católica e contra a identidade da Igreja. Assim, falsearam a definição do casamento, colegialidade e até de Igreja. Em resumo, Dom Lefebvre denuncia a recusa de definições, a falsificação e a difusão de defeituosas e ambíguas definições.

Quanto ao comportamento dos 2.350 padres conciliares que se recusaram a atender ao pedido de uma reafirmação condenatória do comuniscmo já assinalada por 450 bispos, Dom Lefebvre, nas últimas páginas deste livro católico, acentua a gravidade da posição espiritual, teológica (e não simplesmente política) assim tomada pela maioria dos padres conciliares em relação ao comunismo.

Como em outro artigo já assinalamos, este fato basta para marcar a ruptura, a descontinuidade que se estabelece entre a Igreja de Cristo e a nova instituição que se apresenta como derivada de tal ruptura.