Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

De perversão a dom de Deus. E depois de Bergoglio?

Postado em 11-08-2017

 

Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa

Diante dos últimos acontecimentos na Igreja – refiro-me ao sermão do bispo de Caicó, à correspondência do Vaticano sobre o batismo de crianças “educadas” por parceiros homossexuais e à inacreditável declaração de Bergoglio a um bispo canadense: a Igreja não precisa preocupar-se tanto com a escassez de sacerdotes porque o futuro da Igreja está mais na Bíblia do que na Eucaristia -, diante de fatos de uma gravidade assombrosa, creio que não há católico que não se pergunte em seu íntimo que será da Igreja dentro de poucos anos.

Os chamados católicos Ecclesia Dei Adflicta depositam todas suas esperanças em purpurados da ala conservadora como um Sarah ou um Burke ou quem sabe até em um Müller (Que coisa conservará este?), na expectativa de que num próximo conclave um deles venha a ser eleito papa e possa sanar a confusão reinante na Igreja, debelar a anarquia crescente e impedir o caos. Desejam um papa Napoleão que, com energia, impeça os excessos e consolide a revolução do Vaticano II e a doure com o brilho de uma aguada liturgia de “São João XXIII”. Almejam só a Pax liturgica.

Sinceramente, não me parece que seja o melhor remédio para o letal câncer modernista que devasta a Igreja. Equivaleria a combater apenas os efeitos, seria um paliativo sem remover as causas do mal.

Neste ponto, cumpre reconhecer que Francisco I é, sim, fiel à letra e ao espírito do Vaticano II. É preciso também reconhecer que a melhor interpretação do Vaticano II, no que diz respeito à ética sexual e familiar, é a que, em linguagem muito simples e acessível a todos, expôs o cardeal Carlo Maria Martini SJ em seu livro Diálogos noturnos em Jerusalém (Paulus, 2012), obra importantíssima para entender bem todo o pontificado de Francisco I.

Com efeito, diz o cardeal Martini: “Os moralistas falavam do fim primário da sexualidade. Também aqui o Concílio Vaticano II abriu um horizonte mais amplo, reconhecendo conscientemente a mesma importância no companheirismo e no amor mútuo dos esposos.” (o. c. p. 124) Em seguida, o cardeal tem o mérito de tirar as últimas consequências desta ruptura do Vaticano II com todo o magistério tradicional da Igreja, dizendo que cobra da Igreja uma atitude de reserva e discrição em relação ao tema da homossexualidade. E fazendo uma exegese das passagens bíblicas sobre a questão, diz que as palavras fortes da Sagrada Escritura contra a homossexualidade na verdade constituem apenas uma condenação de uma prática muito comum na antiguidade quando homens tinham, para seu prazer, jovens e amantes masculinos, ao lado da sua família. (Ibidem). E encerra o assunto dizendo que, diante de uma pluralidade de posturas das diversas religiões e confissões cristãs sobre a homossexualidade, a Igreja precisa encontrar seu caminho e ser mais sensível, tratando do assunto “com ternura” e sem medo.

De maneira que, se os católicos neoconservadores hoje estão perplexos com a nova orientação impressa por Francisco à caminhada da Igreja em nossos dias, deveriam reconhecer que houve um grande equívoco  ao longo pontificado de João Paulo II em querer impedir que o Vaticano II produzisse todos os seus frutos amargos no campo da fé e da moral. Realmente, pensar que uma declaração Dominus Iesus, sobre a Igreja e o ecumenismo, ou as diversas instruções sobre ética sexual e familiar fossem suficientes para a preservação da fé e da moral e, ao mesmo tempo, promover um moderno panteão nos vários congressos de Assis, ou ainda defender o uso de preservativos pelos prostitutos como um mal menor, como o fez Bento XVI, pensar assim é uma ilusão.

O correto, o justo, teria sido reconhecer humildemente que D. Lefèbvre e D. Mayer tinham razão em suas críticas ao Vaticano II e ter a clarividência de desarmar a bombas de tempo contidas nos vários documentos conciliares, bombas que mais cedo ou mais tarde haveriam de explodir. Pensar que uma teologia baseada em um tomismo aberto e em diálogo com as diversas correntes de pensamento contemporâneo, tal como se ensina nas faculdades e seminários “conservadores”, uma teologia à de Lubac, Danielou, Congar bastasse para conter o avanço do modernismo é um erro grosseiro.

A história do mundo moderno mostra que o “centro”, aliado à “esquerda”, sempre saiu perdendo, mais cedo ou mais tarde. Durante o longo pontificado de João Paulo II houve a nomeação só de um D. Pestana, inimigo declarado da teologia da libertação, ao passo que foram criados inúmeros bispos e cardeais que hoje aplaudem Francisco. De modo que nós “da direita”, em certo sentido, podemos alegrar-nos com a vitória dos modernistas radicais. João Paulo II disse a D. Helder: “Pai dos pobres e meu irmão”, mas consta que zombou de D. Lefèbvre quando leu o primeiro manifesto episcopal de 1983.

Hoje, o desastre é impossível de ser reparado. O fato é que o papa Francisco goza de uma popularidade enorme dentro da Igreja e no mundo. Ele tem feito e continuará a fazer o que a imensa maioria dos católicos que frequentam as paróquias querem e almejam. Quantas meninas “acólitas” e leitoras não sonham em fazer batizados? Quantas ministras da Eucaristia e freiras não sonham ser diaconisas e oficiar casamentos e proferir uma homilia durante as celebrações? Aliás isso já é realidade e muitos lugares. Já se pode lobrigar que, dentro de alguns anos, as crianças educadas por pares “homoafetivos” e hoje batizadas nas paróquias de inúmeras dioceses vão defender o “casamento homossexual” canônico.

Realmente, se é verdade que o conclave que elegeu o cardeal Bergoglio foi influenciado pela oligarquia mundialista representada pelos Clintos e Soros das altas esferas do poder oculto global, só podemos esperar que tal grupo de poder que se assenhoreou do Vaticano não o desocupe enquanto não realizar todos os seus objetivos.

Na história da Igreja lemos que o desastroso papa Bento IX (1033-1048), uma calamidade, um castigo permitido por Deus a sua Igreja, renunciou ao papado quando o arcipreste João Graciano, mestre do futuro grande papa São Gregório VII, valendo-se de um recurso extremo, lhe ofereceu vultosa soma. E o historiador Pe. Rivaux observa que Bento IX e outros pontífices semelhantes, que fizeram um grande mal à Igreja, foram impostos à Igreja por intrigas do mundo e cita um autor célebre: “Por conseguinte, se houve maus papas, foi o mundo, e não a Igreja, que os fez” (Cf. Tratado de História Eclesiástica, Rivaux, v. 1, p.585, Editora Pinus. 2011, Brasília).

Costuma-se dizer, e com razão, que hoje vivemos a Paixão da Igreja. Pio XII já dizia “alonga-se o sábado santo da Igreja”. A situação, desde então, só se agravou e ninguém sabe como e quando terminará a paixão do Corpo Místico de Cristo. Quando Nosso Senhor predisse pela primeira vez sua paixão, São Pedro disse a Jesus: “Longe de ti, Senhor, essa ideia; não te há de acontecer isso”. Na segunda e na terceira predições da paixão, os evangelistas dizem que os discípulos não entendiam nada. Creio que se pode dizer que só não entendiam o mistério da ressurreição, pois São Pedro tinha entendido bem que Nosso Senhor anunciara um grande sofrimento iminente.

Pois bem. Hoje devemos estar conscientes do drama da Igreja. Devemos orar e reparar tanta injúria e tanta traição feitas à Igreja que é nossa mãe e mestra. Devemos sofrer e não buscar paliativos para um mal que não podemos eliminar. Devemos estar preparados para o pior. Mas não podemos perder a esperança e a confiança: Ad nos, triunfans, éxsules, Regina, verte lumina, caeli ut beátam pátriam, te, consequámur, áuspice.” (Hino das primeiras vésperas da Assunção).

Que a Rainha das Vitórias nos auxilie na luta para chegarmos à Igreja triunfante do céu.

 

Anápolis, 11 de agosto de 2017.

São Tibúrcio e Santa Susana mártires