Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Dom Hélder Câmara e Plínio Salgado

Postado em 11-04-2015

Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa

Na ânsia de promover sua própria imagem a Igreja Modernista tem multiplicado, de forma inédita, o número de beatificações e canonizações. O assunto tem sido tratado pelos teólogos que tentam explicar o intrincado problema. É mais uma cruz que se impõe aos ombros dos ilustres doutores. Que queimem a pestana mas não percam o sono.

A mim, sinceramente, não me interessa muito o aspecto teológico do assunto que tem chamado a atenção da opinião pública em geral, não só dos católicos. Não me interessa porque me convenci de que o que hoje se denomina beatificação e canonização não passa, muitas vezes, de homenagem póstuma aos amigos e benfeitores que partiram deste mundo.

Acontece que algumas dessas homenagens póstumas, realmente, causam mais espanto do que quando, por exemplo, procuramos o endereço de alguém e descobrimos que o nome da rua ou da cidade  do seu domicílio é simplesmente o nome de algum  político ou intelectual que não faz jus à homenagem e teve gravíssimos defeitos, para dizer o mínimo.

É o caso da homenagem que se quer prestar à memória de Dom Hélder Câmara, atribuindo-lhe o título de beato, já que não se pode mais falar em glória dos altares porque estes foram destruídos a marretadas pelos iconoclastas da nova religião.

Todavia, nada não nos autoriza a acusar D. Hélder Câmara e seu chefe político na primeira fase de sua vida, o escritor Plínio Salgado, de ter sido nazistas. Somente a ignorância ou a  má fé podem levar a tamanha difamação. E infelizmente isto tem ocorrido em nossos dias.

Com efeito, os historiadores das idéias políticas no Brasil afirmam que no seio da Ação Integralista Brasileira havia três correntes: uma representada pelo seu chefe maior Plínio Salgado, outra pelo jurista Miguel Reale e outra pelo historiador Gustavo Barroso. A corrente de Plínio Salgado caracterizava-se por um vago espiritualismo político, que depois de seu exílio em Portugal, graças ao contacto com o cardeal Cerejeira e ao seu amadurecimento intelectual, se aproximaria muito do catolicismo. (Não nos esqueçamos da sua bela obra A Vida de Jesus elogiada pelo referido cardeal). Essa corrente do integralismo tinha muito que ver com a doutrina social da Igreja, especialmente a Rerum Novarum de Leão XIII.

Já a corrente liderada por Miguel Reale se inspirava no hegelianismo e a do controvertido historiador Gustavo Barroso (famoso por suas afirmações contundentes e pouco fundamentadas) distinguia-se por um anti-semitismo de inspiração nazista.

O integralismo, na opinião de abalizados autores, não pode absolutamente ser classificado como uma ideologia política totalitária porque, embora defendesse um governo forte e centralizado, respeitava os grupos intermediários da sociedade, principalmente a família cristã com todos seus direitos e deveres, sem nenhuma pretensão de açambarcar sua esfera de ação e sua missão própria, tal como está previsto no plano divino da criação do homem e da mulher.

O integralismo, com efeito, não era um movimento político católico, mas atraiu a simpatia de muitos bons católicos. E pode-se dizer que, com todas suas limitações, fez um grande bem à Igreja no Brasil. A vida de Jesus auxiliou muita gente a voltar para o seio da Igreja. O integralismo teve o apoio de vários bispos, e não apenas de d. Hélder Câmara. Por exemplo, o bispo de Niterói, d. Antonio de Almeida Morais, era um simpatizante da Ação Integralista. Bons escritores e professores universitários católicos também o apoiaram. É preciso analisar a questão em seu contexto histórico.

Se aqui no Brasil se pode acusar alguém de ter sido filo-nazista este alguém se chama Getúlio Dornelles Vargas, a raposa de São Borja, que, infelizmente, contou com a benevolência do cardeal D. Sebastião Leme, arcebispo do Rio de Janeiro. O Estado Novo por ele implantado, inspirado no positivismo de Francisco Campos, se bem que contemporizasse com a Igreja, tinha muito menos afinidade com a doutrina social da Igreja do que o integralismo de Plínio Salgado.

Na verdade, há muito católico conservador que não tem nenhum apreço pela doutrina social da Igreja (e aqui só me refiro aos documentos de Leão XIII a Pio XI) e só a cita no que diz respeito à condenação do comunismo. Mas quanto às diretrizes dos pontífices sobre uma organização sócio-econômica corporativa passam por alto, porque defendem o capitalismo liberal baseado na partidocracia dita democrática. São esses católicos “conservadores”, que tanto enaltecem os EUA que acusam movimentos políticos como a Ação Integralista de ser nazista.

Quanto a D. Hélder, há muita coisa que se pode alegar contra a homenagem que se lhe quer render. Não se cometa o pecado de falso testemunho contra ele. Sabe-se, por exemplo, que, durante todo o pontificado de Paulo VI (outro beato), ele aqui no Brasil controlava a lista de nomeação dos bispos e expurgava do rol todos os que não compartilhavam da teologia da libertação. D. Pestana foi uma das vítimas. Teve de esperar que a teologia da libertação produzisse uma situação extrema para ser nomeado, no começo do pontificado de João Paulo II, com a missão de ser um contrapeso no ambiente então incendiário dominado pelos Casaldáligas e Balduínos.

Mas infelizmente os católicos de hoje, em sua imensa maioria, combatem os efeitos de causas muito apreciadas por eles mesmos. Quem manteve durante tantos anos um D. Hélder e um D. Arns fazendo tanto mal? Quando veio ao Brasil o papa João Paulo II abraçou D. Hélder dizendo-lhe: “D. Hélder, pai dos pobres e meu irmão”! E depois quando nomeou D. Cardoso Sobrinho para suceder-lhe à frente da arquidiocese de Olinda e Recife consta que lhe disse: “O senhor agora vai suceder a d. Hélder, um bom bispo. E desejo que o senhor seja tão bom quanto ele.”

Anápolis, 12 de abril de 2015.

Sábado dentro da Oitava da Páscoa.