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Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Garrigou-Lagrange, Ratzinger e Bergoglio

Postado em 13-03-2018

Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa

No quinto aniversário da eleição do bispo de Roma Francisco, parece-me oportuno pôr em evidência alguns pontos em comum entre Bergoglio e seu predecessor Ratzinger, tido por alguns ingênuos, sem nenhum fundamento, como um baluarte da sagrada e imutável tradição da Igreja.

Infelizmente, aqui no Brasil os blogs dos grupos Summorum Pontificum, atrelados à Pontifícia Comissão Ecclesia Dei Adflicta, não deram a merecida publicidade ao lançamento do livro do filósofo italiano Enrico Radaelli, curador da obra de Romano Amerio, Al cuore di Ratzinger – al cuore del mondo. 

Na referida obra, Radaelli imputa a Ratzinger diversos erros filosóficos e teológicos defendidos em sua obra de juventude Introdução ao cristianismo, sendo que em alguns desses erros reincidiu o autor após ter abdicado do trono de São Pedro.

Diz Radaelli que, segundo Ratzinger, a existência de Deus é a melhor hipótese mas não é um dado da razão, como ensina São Tomás de Aquino. Ratzinger, portanto, seria um “tradicionalista rígido”, ou melhor, um fideísta. Quando li que Ratzinger considera Deus a melhor hipótese lembrei-me do que dizia D. Pestana sobre a mentalidade materialista de hoje: “Considera-se Deus uma hipótese inútil”.

Procurei, então, entender o alcance e as consequências do erro defendido pelo ex-papa. E logo me acudiram à memória as 24 teses tomistas concebidas sob o pontificado de São Pio X e publicadas  por Bento XV, em 1916. As 24 teses foram elaboradas e propostas como regras seguras de direção intelectual, a fim de que se evitassem erros filosóficos que tivessem consequências deletérias nos estudos teológicos.

A primeira tese diz: “Potentia et actus ita dividunt ens, ut quidquid est, vel sit actus purus, vel ex potentia et actu tanquam primis et intrinsecis principiis necessario coalescat.” ( A potência e o ato de tal modo dividem o ser, que tudo quanto existe ou é ato puro ou necessariamente composto de ato e potência como de seus primeiros princípios intrínsecos.)

Como se sabe, os conceitos de potência (capacidade) e ato (perfeição) foram elaborados por Aristóteles para explicar o movimento, que nem Parmênides (que o negava) nem Heráclito (que negava a estabilidade do ser e afirmava um puro devir da realidade) tinham sabido explicar. Graças ao gênio de Aristóteles e ao aprofundamento de uma investigação posterior de São Tomás de Aquino à luz da Revelação, foi possível estabelecer não só uma distinção real entre potência e ato (que explica a passagem de um ser indeterminado, como um germe, para um ser determinado, como uma planta, sob o influxo de uma causa extrínseca), mas foi possível estabelecer também a distinção real entre ser e essência, a partir daquela famosa passagem bíblica do Êxodo em que Deus diz a Moisés Ego sum qui sum ( Eu sou o que sou). Quer dizer, em Deus o ser não está limitado. Ele não não tem o ser mas é o Ser.

Os conceitos de potência e ato e a distinção entre ser e essência são o fundamento da metafísica do ser. São anteriores à especulação do espírito humano, que, com muito esforço, os descobre como princípios da realidade. Qualquer inteligência reta e sã os reconhece e respeita como leis do ser.

Entretanto, houve filósofos que os deturparam, entenderam mal ou os classificaram como distinções de razão. Uma vez negados ou deturpados esses conceitos, ou reduzidos a postulados, o princípio de causalidade (todo ser contingente depende de um ser necessário), que é fulcro de toda ciência, perde todo seu valor. O movimento  só pode ser entendido à maneira de Heráclito: a realidade é puro devir, o ser não tem estabilidade. O movimento não é trânsito de potência a ato, sob o influxo de outro ser em ato. Toda a realidade passa a ser considerada como em constante evolução sem que se admita um ser em ato que a presida.

Ora, a aplicação dessas ideias à teologia tem consequências devastadoras no campo da dogmática. É evidente que uma teologia que não tenha em conta os conceitos explanados acima não pode defender a imutabilidade do dogma nem sequer seu desenvolvimento homogêneo como um aprofundamento da sua inteligência. Cai por terra o juramento anti-modernista exigido por São Pio X de todos os clérigos: “Fidei doctrinam ab Apostolis per orthodoxos patres eodem sensu eademque semper sententia ad nos transmissam, sincere recipio; ideoque prorsus reicio haereticum commentum evolutionis dogmatum…” (Aceito sinceramente a doutrina da fé transmitida pelos Padres da Igreja no mesmo sentido e sempre na mesma sentença; por isso repilo a herética doutrina da evolução dos dogmas.)

É isto que explica a confusão crescente que se instalou na Igreja, desde que foram abandonadas as 24 teses tomistas como diretrizes dos estudos filosóficos e teológicos, desde que a qualquer coisa, por mais aberrante que fosse, como a filosofia social de um sr. Jacques Maritain (patrocinado por Giovanni Battista Montini) ou à politicagem de um Montoro e a toda a democracia cristã se desse o honroso nome de tomismo. Basta ver um manual de história da filosofia para ver a que bella roba se atribui uma influência do Santo Doutor.

Garrigou-Lagrange, em sua Síntese Tomista (Desclé de Brouwer, 1946), diz que, após a Aeterni Patris de Leão XIII e os vários documentos de Pio X sobre o modernismo exigindo que se seguisse a doutrina de São Tomás de Aquino nos estudos filosóficos e teológicos, houve muitos estudiosos que diziam estar de acordo com Santo Tomás mas na verdade tentavam adaptar a doutrina do Santo Doutor a suas novidades. Não é à toa que até Francisco se defendeu da acusação de favorecer heresia dizendo que a autorização para adúlteros receberem os sacramentos tem base na moral de Santo Tomás de Aquino. É por isso também que hoje lemos a notícia de que Ratzinger declarou que o pontificado de Francisco está em perfeita continuidade com o seu, de modo que, se antes era proibido dar a comunhão aos adúlteros e hoje se autoriza, tudo se explica por uma evolução das coisas sem necessidade de uma coerência entre o que se ensinava antes e o que se ensina hoje.

É a hora e o poder das trevas. É a hora e o poder do modernismo.

Anápolis, 13 de março de 2018.

5.º aniversário do pontificado do bispo de Roma Francisco.