Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Limitações do discurso conservador

Postado em 01-08-2020

Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa

Causa-me preocupação e desgosto ver as limitações do crescente movimento conservador no Brasil e no mundo afora. Se por um lado devemos ser gratos ao movimento conservador porque nos ajudou a libertar o Brasil da desolação lulopetista que nos oprimia, por outro lado devemos ter uma consciência bem viva das suas limitações. Com efeito, o discurso conservador cinge-se a promover a difusão da alta cultura, a transmissão dos valores tradicionais da civilização, mas não se opõe com toda energia ao espírito revolucionário que atenta contra esse patrimônio cultural que diz defender. Esta contradição deve-se ao fato de o discurso conservador não levar em conta a realidade de uma grande ruptura na história da civilização ocidental.

Em razão dessa inadvertência  quanto a uma ruptura na história da civilização ocidental (ruptura que poderíamos situar no surgimento do novo direito político a que referia Leão XIII – a teoria da soberania popular), o discurso conservador entabula um diálogo indesejável com correntes de pensamento que na verdade são a mola propulsora de toda a revolução anticristã, como a maçonaria, por exemplo. Tampouco percebe toda a malícia da falsa reforma religiosa do século XVI e suas deletérias conseqüências.

De maneira que todo o movimento conservador atual se mostra inepto para a grande tarefa que incumbe aos verdadeiros contra-revolucionários, de restaurar a ordem tradicional da civilização cristã. Enquanto o discurso conservador não reconhecer que há um ponto de ruptura na história, será incapaz de efetivamente apontar um norte para o nosso verdadeiro combate espiritual e político. Limitar-se-á à conversa mole de promover a alta cultura. Não saberá dizer aonde quer chegar.

Como caudatário desse discurso conservador inepto classificaria o simpático movimento monarquista brasileiro. Defender uma volta da monarquia sem ter consciência do grave problema político da democracia individualista dos nossos dias, sem ter consciência do erro do sufrágio universal igualitário, sem propugnar por uma sociedade orgânica, é defender uma monarquia de comédia.

O próprio movimento pró-vida e pró-família, por mais benemérito que seja, na medida em que não percebe a malignidade da democracia moderna e da revolução do concílio Vaticano II, acaba tendo uma ação limitada.

Igualmente caudatária das idéias conservadoras é a posição assumida por alguns prelados que se dizem hoje desorientados com o pontificado do papa Francisco e lhe pedem que sane suas dúvidas. Será que um dia se darão conta da grande ruptura que houve na história da Igreja por ocasião do concílio Vaticano II? Enquanto não virem essa realidade, toda sua ação será inócua. Não há motivo nenhum para opor-se à Amoris laetitia se se aceita o magistério do Vaticano II que renega a doutrina tradicional da hierarquia de fins do matrimônio.

É preciso que tenhamos idéias claras; é preciso que saibamos onde está a origem dos nossos males na história, para que saibamos quem são realmente nossos inimigos e os possamos combater eficazmente. Só assim saberemos por que ordem social batalhamos. E não estaremos, na verdade, trabalhando para conservar um sistema hostil aos nossos valores. Os revolucionários sabem, na visão equivocada deles, onde está a origem dos males sociais (a família patriarcal, a propriedade privada etc) e agem em consequência. Assim também nós católicos da tradição devemos saber a origem dos nossos males tanto na sociedade civil quanto na sociedade religiosa: a democracia fundada no dogma da soberania popular e o modernismo triunfante no Vaticano II.

Para remate, uma paráfrase de São Pio X: os verdadeiros amigos do povo são os católicos tradicionalistas reacionários, herdeiros da tradição contra-revolucionária do século XIX;  não são os políticos conservadores de matriz anglo-saxã.

 

Anápolis, 1º de agosto de 2020.

Festa dos Santos Mártires Macabeus.