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Mazelas e sofismas da democracia

Postado em 09-04-2013

As medidas demagógicas e irresponsáveis tomadas pelo governo federal  visando apenas à sua reeleição em 2014 (uma absurda antecipação do processo eleitoral) e o aprofundamento da crise econômica da União Européia têm levado alguns analistas a reconhecer os graves defeitos da democracia moderna.É claro que estamos ainda longe de um reconhecimento da natureza perversa do regime democrático moderno, mas já é um grande passo que se dá ao admitir imperfeições, limitações e vícios inerentes a esse sistema. É um grande passo porque a democracia é a religião do homem moderno, sobretudo após o Vaticano II. De maneira que falar contra a democracia é atentar contra o único dogma que resta em vigor: fora da democracia não há salvação!

Aqui no Brasil já se começam a ouvir vozes clamando contra decisões absolutamente equivocadas do governo, decisões ditadas só por um imediatismo  a fim de garantir a vitória nas urnas no próximo ano. Há diversos homens dignos de respeito alertando para o perigo de o Brasil ter o seu futuro comprometido gravemente porque o governo atual está destruindo os fundamentos da economia do país.

É preciso que, na falta de uma oposição corajosa,  nós católicos, cumprindo o dever moral de zelar pelo bem comum e por amor à Pátria, encetemos uma campanha de esclarecimento da opinião pública, especialmente das pessoas menos instruídas que estão iludidas com a demagogia petista que engana as camadas mais modestas da sociedade com a redução da conta de luz, o adiamento do reajuste da tarifa de ônibus urbano etc. É preciso dizer a essas pessoas que mais tarde a conta será apresentada com encargos muito mais dolorosos. É preciso dizer-lhes que a redução da conta de luz é uma tapeação, pois a diferença do preço será compensada pelo aumento de impostos, além de ameaçar toda a infraestrutura do setor energético. É preciso também esclarecer que esse governo, querendo perpetuar-se no poder a qualquer custo, alicia um setor muito suspeito do empresariado nacional por meio de concessão de vantagens do BNDES que não revertem em prol do crescimento do país.

Li há poucos dias uma entrevista de dois intelectuais ( Nathan Gardels e Nicolas Berggruen) que com muita felicidade explanaram as causas desses males que nos afligem. Gardels disse: “Quando dizemos que a democracia tem dificuldades para se corrigir, há duas razões: o imediatismo político nas eleições (o horizonte de curto prazo dos eleitores) e a plutocracia (o poder do dinheiro, dos interesses particulares, dos lobbies). Democracia supõe que as eleições mudarão um país. Plutocracia, como a define Francis Fukuyama,  diz que há eleições e ponto. Assim as coisa não mudam, pois os poderosos (Wall Street e os lobistas financeiros, por exemplo) continuam protegendo seus interesses.”

Aqui justamente é que bate o ponto. A democracia moderna é um grande sofisma. É, como disse Chesterton, uma plutocracia disfarçada de partidocracia. É um regime estruturado em partidos políticos que,  muitas vezes, não passam de organizações criminosas de lavagem de dinheiro, de negociatas, e estão completamente desvinculados das forças vivas da sociedade. Não são braços dos grupos sociais autênticos. Este gande mal que padecemos não decorre de falhas aleatórias ou pontuais do regime democrático, mas é conseqüência direta das suas premissas. A democracia moderna está fundada no individualismo. Ela exige que sejam solapadas pelo Estado todas as instituições sociais para que o indivíduo, como um semideus, seja livre de todas as amarras sociais e possa ilusoriamente  escolher seus governantes através do sufrágio universal igualitário. Com razão aponta o sr. Berggruen uma grave perversidade da democracia: “Quando você é 1 entre 1 milhão, digamos na Índia, o que a democracia significa se você só tem direito ao voto?” Realmente, o indíviduo, enquanto indivíduo, como disse alguém, é irrepresentável. O indivíduo, desvinculado do seu grupo natural e histórico, não passa de objeto de manobra e manipulação à mercê dos controladores da alta finança, mas não tem voz perante o Estado onipresente. Daí a concentração da riqueza, no mundo moderno, em mãos criminosas e de poucos.

A democracia leva à morte do homem. Do homem consciente da sua dignidade, das suas raízes e dos seus deveres. Transforma-0 em joguete no meio das massas agitadas que em vão falam em direitos humanos, em cidadania e outros mitos dos nossos tempos. A democracia destrói a sociedade verdadeira que se origina a partir da família, para reduzi-la a poeira humana. A democracia leva à morte da civilização porque nela não há amor à tradição nem respeito pelas gerações futuras. Nela tudo se resolve com base no imediatismo, no pragmatismo. Não obedece aos princípios morais e à verdade. Nela prevalece a estúpida lei da maioria e do poder do mais rico que compra tudo, inclusive as eleições por meio de medidas demagógicas como as que se vêem hoje no Brasil.

Na referida entrevista, o sr. Gardels mostra como a democracia está dilapidando os frutos do boom das commodities: “O perigo é que os frutos desse boom  não estão sendo investidos no futuro. As pessoas consomem no presente e os governos não investem em infraestrutura e projetos de longo prazo. Penso que as democracias sempre se focam no presente. É uma democracia da coca diet, em que mídia, mercado e política dizem: “Aproveite, consuma agora, sem calorias, nem custo”. E o sr. Berggruen arremata: “Dar benefícios econômicos para todos, de olho nas próximas eleições, é uma tentação muito alta. (…) A democracia nesses lugares mais atrapalha que ajuda.”

Realmente, é lapidar a análise. Aqui no Brasil já sofremos essa mazela há longo tempo. Carlos Lacerda, um dos poucos políticos lúcidos que tivemos no século passado,  dizia que o Brasil havia queimado divisas (bônus resultantes da segunda guerra) com geladeiras, rádios e bugigangas. Agora, chegou a vez de o PT fazer a farra. Que eu saiba, um dos poucos brasileiros que pensaram realmente em empregar com sabedoria os nossos recursos naturais para o bem de toda a nação e para o futuro do país, foi o filho da princesa Isabel, D. Luís de Orleans e Bragança, em seu belo e hoje esquecido livro Sob o cruzeiro do Sul.

Talvez algum leitor destas mal traçadas linhas se escandalize dizendo que não compete a um padre católico tratar de assuntos dessa natureza. Reconheço que não tenho competência em política econômica. Mas, como observo o poder deletério da democracia moderna que está destruindo toda uma civilização – a democracia moderna é uma ideologia invasiva que pretende estabelecer o seu critério do número e da falsa soberania popular em todos os setores da vida humana –  não posso calar-me, na esperança de poder dar minha modesta contribuição para o esclarecimento e solução do problema.

Finalmente, desejaria dizer que, ao criticar a democracia moderna, é evidente que não defendo como alternativa o estado totalitário nazifascista muito menos a tirania socialista ou a terceira via do bolivarianismo. Admito, conforme a doutrina da Igreja, a legitimidade de todas as formas clássicas de governo, cabendo a cada povo, segundo sua índole e circunstâncias históricas, escolher com prudência a forma de governo que melhor lhe convier. Entretanto, afirmo ser espúria a democracia moderna baseada nos falsos princípios do individualismo, do igualitarismo, do laicismo e da soberania popular. E por causa desses erros considero um dever dos católicos combater a democracia moderna e lutar pelo estabelecimento de um regime político baseado na ordem moral e na constituição orgânica da sociedade civil, um conjunto de famílias e outros grupos naturais. Era assim que se organizava a sociedade nos tempos da cristandade. É nosso dever trabalhar para que ela volte a ser asssim.

Padre João Batista de Almeida Prado Ferraz Costa

Anápolis, 9 de abril de 2013.