Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Meditações

Postado em 28-03-2012

Editorial

A razão última, isto é, a principal razão por que Deus criou o homem, é para que o homem tenha conhecimento de Deus e o ame. E a intenção secundária pela qual Deus o criou é para que o homem participe eternamente sem fim na glória com Deus.

Raimundo Lúlio.

 

 

 

Caros amigos leitores:

 

Permitam-me que me apresente.

Chamo-me Hubert Jean-François Cormier. Sou antropólogo e filósofo franco-brasileiro. Sou também católico de tradição, expressão que prefiro a católico tradicionalista por esta última evocar em mim laivos ideológicos de amargas lembranças.

O intuito da presente revista é o de dar publicidade aos meus pensamentos e estudos. Gostaria de deixar bem claro que tudo, absolutamente tudo, que lerão nas páginas desta revista é de minha autoria.

Alguém, curioso, poderia perguntar: “mas porquê a necessidade de se escrever uma revista inteira sozinho? Vaidade? Egoísmo? Desdém para com os demais intelectuais de nosso país?” Não! Nenhum dos motivos acima numerados moveram-me a uma publicação solitária os motivos que advogo são os seguintes:

1 Todos sabem da situação de indigência intelectual que grassa nos meios universitários e na vida intelectual em geral. Não querendo fazer parte do grupo de pseudopensadores e intelectuais que contribuem cada vez mais para o aprofundamento da atual situação resolvi retirar-me deste meio;

2 Algum leitor, sabedor da inclinação religiosa de meu pensamento, poderia ser levado a crer que minha participação em alguma revista acadêmica ou cultural seria uma espécie de indicação da boa qualidade dos demais artigos, o que seria um lamentável engano. Para evitar que leitores cristãos sejam levados a ler idiotices ideológicas pelo fato de verem meu nome em uma publicação qualquer levando o estimado leitor a desviar-se de sua busca da verdade preferi abster-me de colaborar com qualquer publicação que seja;

3 Os inevitáveis protestos que ocorreriam pelos fanáticos ideológicos que ao verem meu nome em uma publicação acadêmica moveriam mundos e fundos para que a revista me expulsa-se de seus quadros. Como sou adepto do adágio popular “cada macaco no seu galho” deixo o terreno das publicações acadêmicas e culturais de nosso país para os “macacos” que as constituíram. Daí a necessidade de criar uma revista que fosse veículo unicamente de meu pensamento;

4 Mas o motivo que mais pesou em minha decisão de criar uma revista unicamente para mim foi o de que para mim a filosofia ser atividade solitária e que convém aos solitários. Não existe, no meu ponto de vista, filosofia coletiva, todo e qualquer pensamento é fruto de um pensamento único e intransferível. Daí eu preferir uma revista que seja reflexo de minhas idéias e somente delas.

Não me alinho com aqueles que acham que a situação atual é tão caótica que nada pode ser feito para reparar. Sou otimista! Como todo cristão que se preze também o é, não fico carpindo lágrimas diante dos destroços sem nada fazer em uma atitude de covardia perante o imenso trabalho que temos pela frente.

Sou católico de tradição já o disse, mas gostaria que ficasse claro que não sou do número que suspira por um passado ideal, que chora por uma pretensa idade de ouro situada sem lá em que tempo remoto de nossa história.

Essa revista será a minha modesta contribuição para ajudar àqueles que buscam com toda força de sua inteligência e de seu coração o caminho que leva a verdade que é Deus.

Cada número, que terá periodicidade indefinida, conterá cinco artigos versando cada um sobre cinco temas diferentes, a saber: filosofia, religião, arte, ciência e mística. Cinco artigos correspondendo às cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo, cinco vias tradicionais que conduzem à verdade única.

Com efeito, acredito plenamente na verdade única e eterna que em última instância é o próprio Deus. Acredito também que existe uma multiplicidade legitima de caminhos, ou vias, que nos levam até ele.

A filosofia pelo exercício de nossa razão. A religião pela fé[1]. A arte pelo sentimento. A ciência aplicando a racionalidade ao mundo físico. A mística pelo silêncio.

Em cada uma dessas linhas tenho delineado claramente quais os autores e temas que abordarei.

Em filosofia sigo, não somente nem em todos os desenvolvimentos, preferencialmente mestres como Aristóteles, Tomás de Aquino, Francisco Suarez dentre outros. Não é a toa que começo estudando a filosofia da mente do doutor Angélico posto que para mim sua doutrina da mente ainda conserva ensinamentos preciosos para o homem contemporâneo.

No artigo dedicado à religião, dedico-me ao estudo de uma noção precisa e completamente esquecida pela Igreja após o terrível concílio Vaticano II a noção de Tradição.

Na arte atenho-me aos delineamentos de uma metafísica da música sacra católica que podemos inferir da leitura do motu proprio de São Pio X que trata desse tema tão importante para a correta aplicação e vivência dos sagrados mistérios da liturgia.

No artigo sobre ciência começo relatando os fatos de um triste affaire. O affaire que batizei com o nome de seu principal envolvido: Maurice Allais.

Maurice allais, prêmio Nobel de economia (1988) tem seu lado de pesquisador diletante em física. Só que como resultado de suas experiências, o que aconteceu foi uma colocação em evidência de que os resultados da teoria da relatividade de Albert Einstein estão todos equivocados! Imaginem, caro leitor, a ciência tem gastado rios de papel para glorificar o gênio de Einstein e vem um diletante e coloca abaixo todo o edifício relativista com um só golpe. O fato é que em torno de Maurice Allais existe uma conspiração do silêncio para que o resultado de suas pesquisas não sejam divulgados e levados em consideração e que o mito da genialidade do farsante Albert Einstein não venha à tona.

Se Maurice Allais estiver correto a teoria da relatividade será considerada como o maior erro da história da ciência e Einstein não mais será visto como gênio mas como um incompetente que levou a física e com ela toda a ciência por caminhos falsos. Durma-se com um barulho desses!

O artigo sobre mística trata sobre a devotio moderna, movimento espiritual do final da idade média, e quer com isso mostrar que a modernidade longe de ser só idiotices pode sim ter como base o amor a Deus.

Cada artigo não esgotando os temas abordados será retomado em números posteriores, assim fica inteligível a numeração em romanos que precede cada artigo. Mas o leitor que por ventura ler o artigo de número II, por exemplo, de uma determinada série de estudos não perderá com isso a inteligibilidade do artigo em questão, pelo menos é o que espero.

Como não disponho de tempo suficiente para orientação em pesquisas particulares que nossos estimados leitores por ventura estejam desenvolvendo tenho por regra não me deter em longas correspondências com leitores e isso com o maior sentimento de gratidão e reverência por todos aqueles que se relacionam comigo de uma determinada maneira.

Os leitores não verão meu nome em lista de simpósios, congressos, palestras, entrevistas jornalísticas ou programas televisivos. Não me encaixo no perfil do intelectual midiático.

Que Deus Nosso Senhor abençoe meus caminhos.

Um grande abraço a todos

Hubert Jean-François Cormier.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A filosofia da mente de Santo Tomás de Aquino I

Quaestiones disputatae de veritate

Questão XV

A razão superior e a razão inferior[2]

 

 

 

                                               A perfeição de uma natureza espiritual consiste no conhecimento da verdade.

Santo Tomás de Aquino.

 

 

 

O problema da razão superior e da razão inferior é antigo no cristianismo. Com esta nomenclatura a questão foi colocada por Agostinho no seu magistral livro A Trindade. A partir de então muita tinta correu e com ela muitas doutrinas, algumas de viés marcadamente gnósticas, que tentavam a partir desta distinção legítima operada pelo bispo de Hipona justificar as mais descabidas interpretações.

O problema da diferenciação entre razão superior e razão inferior comporta basicamente duas questões:

1 Se existe no homem uma potência diferente e superior à razão denominada intelecto. É o que trataremos na primeira parte de nosso artigo;

2 Se podemos subdividir a razão em superior e inferior. Dada a resposta afirmativa, o que seria a razão superior e inferior? Quais os seus objetos de conhecimento? São questões que trataremos na segunda parte de nosso artigo.

A polêmica sobre o intelecto e razão não acabou com a intervenção de Santo Tomás de Aquino, ao contrário, muitos dos dominicanos que tentavam completar a obra do mestre no sentido de dar-lhe um acabamento místico[3] claramente retomam a concepção de que a alma humana possuísse o que eles denominavam “a ponta fina da alma” que seria precisamente por onde se operaria a presença divina em nós, e que corresponderia precisamente àquilo que denominamos aqui de intelecto, que se diferenciaria claramente da razão por ser incriada e por não operar de maneira discursiva dividindo e compondo como é próprio da faculdade racional.

Santo Tomás aborda essa delicada questão com sua costumeira clareza e é o seu ponto de vista que esboçaremos nas linhas que se seguem.

 

I

 

A razão está para o intelecto como o movimento para o repouso.

Santo Tomás de Aquino.

 

 

 

Para Tomás de Aquino, toda criatura espiritual, e nessa categoria encaixa-se o homem que é cidadão do mundo material, por seu corpo, e cidadão do mundo espiritual, por sua alma, e os anjos que são seres puramente espirituais, já que não possuem corpo, é dotada, necessariamente, da faculdade cognoscitiva. Dentre as inteligências das criaturas espirituais a menos desenvolvida é, precisamente, a dos homens, e pelo fato de esta ser tão infirma se comparada com a inteligência angélica, deve-se ao fato de que a origem e processamento do conhecimento nos homens e nos anjos serem diferentes.

Com efeito, para Tomás, as realidades humanas e angélicas não podem ser confundidas. O conhecimento angélico é obtido por uma via que já não é aquela que nos é própria, mas que nos será restituída na pátria celestial. Daí a recusa de Tomás de Aquino de admitir qualquer recurso à iluminação divina quando do processo cognitivo humano em sua presente situação ontológica.

Mas se a inteligência humana diferencia-se claramente da inteligência angélica isso não quer dizer que não possam existir correspondências entre elas. Mas sejamos bem claros aqui. O mestre Tomás de Aquino não admitindo ao homem conhecimento por iluminação divina, conhecimento este próprio aos anjos somente, nos lembra que a criação de Deus não foi feita por acaso nem opera de maneira caótica. Todos os seres criados por Deus encontram-se analogados por uma imensa cadeia hierárquica onde cada elo da cadeia recebe o influxo do grau superior e passa esse mesmo influxo para o grau imediatamente inferior. Decorre daí que o homem, ser naturalmente inferior aos anjos, participa de maneira pequena, mas não nula, da natureza angélica. Quanto à doutrina da inteligência isso fica claro, segundo o Aquinate, pelo fato de possuirmos intuitivamente a noção de princípios primeiros do conhecimento, que, inatos, possuem, precisamente, a natureza dos dados recebidos por intuição como é proprio das inteligências superiores ao homem.

Assim, a razão humana participa um pouco da operação cognitiva que encontramos nos anjos, mas não fazemos isso em todos os nossos atos cognitivos, senão seríamos anjos e não homens. Mas segundo a doutrina da hierarquia das criaturas que Tomás de Aquino retira do livro dos nomes divinos de Dionísio Areopagita o que temos é o seguinte quadro no que compete às inteligências das criaturas:

Anjos                                                                                   Intelecto

Intelecto

Homem                                                                      Razão discursiva

A faculdade intelectual própria ao homem é a razão, mas participamos, de uma certa maneira, das operações do intelecto, sobretudo através dos primeiros princípios do conhecimento percebido de maneira intuitiva[4].

Razão

Animais Superiores                                                   Sagacidade Natural

Os animais não possuem, propriamente falando, nenhuma operação intelectual. O que constatamos em algumas espécies é aquilo que Tomás denomina sagacidade natural, ou capacidade de estimação, e isso devido à pequenina participação que estes animais possuem na racionalidade humana o que se apresenta como capacidade de estimar determinadas situações em que se encontram.

Devemos sublinhar que quem participa de algo não detêm a perfeição daquilo em que participa. Deste modo, a razão humana não detém, com toda a sua perfeição, a faculdade intelectual dos anjos, o mesmo devendo ser dito dos animais em relação a nós. É o que ele claramente nos diz:

 

Não existe no homem uma faculdade especial que lhe dê simples e absolutamente, de maneira não discursiva, o conhecimento da verdade, se este conhecimento existe nele, é segundo um hábito natural que chamamos inteligência dos princípios.

Não existe no homem uma potência distinta da razão, potência esta que se chamaria intelecto, é a própria razão que chamamos de intelecto[5].

 

Maior clareza, impossível. Santo Tomás é categórico: o homem não pode receber e processar o conhecimento a não ser por via sensitiva e, a partir daí, ir subindo por uma escalada abstrativa até chegar ao conhecimento qüiditativo, estando vedada à nossa inteligência a apreensão simples e direta da qüididade dos seres, ato esse próprio da potência intelectual angélica. Os atos racionais e os atos intelectuais são diferentes e precisam, para serem exercidos, de potências distintas que o homem não possui: “o ato da razão que consiste em circular e o do intelecto que é o da simples apreensão da verdade estão relacionados entre si como está a geração e a existência, o movimento e o repouso”[6].

Seria angelismo procurarmos dotar ao homem daquilo que somente os anjos possuem. O repouso é próprio das operações exclusivamente imateriais, espirituais, o conhecimento racional humano não é capaz disso, ao menos imediatamente[7]. Para chegarmos ao conhecimento das qüididades dos seres temos que começar por alguma informação sensitiva existente, portanto, se faz necessário para nosso conhecimento um espaço a ser percorrido e um tempo a ser executado, já que não temos conhecimento por simpatia, não possuímos acesso imediato as qüididades dos seres que, fato sabido, ignoramos[8].

Na perspectiva tomista, o homem conhece através do movimento de seus sentidos e de sua razão, juntando peças distintas, sensações dispares, e concebendo conceitos correlativos as sensações percebidas[9].

Teríamos então, para Tomás de Aquino, a seguinte escalaridade cognitiva:

1 Os sentidos que conhecem as formas na matéria;

2 A imaginação que conhece as formas imateriais, desmaterializando, por assim dizer, a sensação, mas não as determinações da matéria. Neste nível não temos informações materiais, por estarmos na imaginação, faculdade imaterial. O que temos são as species das coisas conhecidas sensorialmente e que agora estão contidas na imaginação, mas esta, não abstrai os acidentes, ou as determinações materiais com as quais os seres se revestem inevitavelmente, daí que na imaginação conhecemos os seres imaterialmente, mas não desprovidos de suas determinações materiais;

3 A razão humana que conhece a forma essencial dos seres, sem matéria alguma, sem nenhum traço de individualidade, daí dizermos que conhecer é conhecer o universal e que não existe ciência do particular.

Assim, seguindo o esquema traçado acima, não temos a possibilidade de conferir ao homem uma potencialidade que é exterior à sua natureza decaída e, portanto, não possuímos em nós o intelecto e suas operações.

Mas aqui uma objeção poderia aparecer. No momento final da escalada cognitiva nós homens, também não chegamos, por uma via tortuosa, é certo, ao conhecimento qüiditativo dos seres? E isso não seria precisamente afirmar que também possuímos o intelecto angélico que conhece, ainda que imediatamente, as qüididades dos mesmos seres? Respondo dizendo que para Tomás todo conhecimento intelectual é conhecimento imaterial de uma qüididade e, portanto, assemelha-se como resultado final tanto ao conhecimento humano quanto ao angélico, o que não significa que conheçamos da mesma forma nem que utilizemos o mesmo processo e a mesma fonte de informação.

Tratamos acima da posição de Tomás a respeito da presença em nós da potência intelectual e de suas operações[10], passemos agora a esmiuçar se, para ele, podemos dizer que a razão superior e a razão inferior são duas razões que possuímos em nossa mente ou não.

 

II

 

A natureza da alma racional possui poderes no tocante ao domínio da natureza sensitiva ou vegetativa, mas não sobre o que diz respeito à natureza intelectual que lhe é superior.

Santo Tomás de Aquino.

 

 

 

Vimos claramente, no tópico anterior, que não existe no homem, ao menos como potência anímica, o intelecto, cabendo a nós apenas a razão discursiva. Discutiremos agora se a razão pode, na perspectiva tomista, subdividir-se em razão superior e razão inferior.

Não é segredo algum que Tomás dialoga o tempo inteiro com Agostinho. No que tange ao problema da razão superior e inferior o Aquinate, conservando a terminologia proposta pelo mestre de Hipona, posiciona-se a seu modo diante desta questão tão importante.

Para ele existe uma única potência cognitiva no homem, que pode desdobrar-se segundo os objetos visados por ela: “é evidente que razão superior e inferior não designam potências diferentes, mas uma única e mesma potência que se presta diversamente em situações diversas”.[11] As situações diversas referidas nas palavras de Tomás são, precisamente, a diversidade de seres e de suas respectivas gradações na hierarquia da criação que faz com que nossa razão se desdobre. Com efeito, ao exercermos a nossa faculdade cognitiva para os seres inferiores ao homem, não precisamos mais que a razão que compõe e divide para conhecer imaterialmente aquilo que nos é inferior. Já quando nos reportamos a seres superiores a nós, como é o caso expresso de Deus, é com a razão superior que o fazemos. Trata-se aqui muito mais de uma diferenciação de objetos de conhecimento de uma mesma potência que duas potências cognitivas operando no interior da mente humana.

Mas o que seria precisamente a razão superior e a razão inferior? Quais suas características? Quais suas operações? É o que tentaremos responder a seguir.

Em primeiro lugar, tentemos abordar o fato de que se temos uma única potência racional, o que faz com que ela se bifurque em seu exercício?  Para Tomás isso é muito simples de ser resolvido. Basta levarmos em conta que uma potência para passar do estado de potência ao ato tem que se conformar ao seu ato como a seu termo e quando este ato dirige-se a seres inferiores ao homem suas funções adaptam-se a tais atos:

 

Toda potência da alma quer seja ela ativa ou passiva, relaciona-se ao seu ato como a seu fim. […] Por conseguinte, cada potência possui sua maneira de ser específica, em função das possibilidades de adaptação a tal ato. Daí o porque de as potências se diversificarem na proporção que a diversidade dos atos exigirem princípios diversos em vista de emiti-los. De outra parte, o objeto sendo para o ato como que um termo e os atos sendo especificados pelos seus termos segundo o livro V da física, é necessário que os atos se distingam também segundo os objetos e, por conseguinte, a diversidade dos objetos determine a das potências[12].

 

Do acima dito fica claro que o ato cognitivo humano voltado para os seres que lhe são inferiores determina a maneira como utilizaremos a nossa potência cognitiva. Daí denominarmos a operação cognitiva desta operação como sendo realizada pela razão inferior. Mas se a natureza dos objetos pode diferenciar uma operação cognitiva ad extra, o mesmo não ocorre ad intra já que no nível puramente imaterial a diferenciação não é determinada pelos objetos, mas por suas formas. Com efeito, Tomás de Aquino nos ensina que podem existir diferentes tipos de atos: os atos podem ser físicos tais como os de ouvir, cheirar, degustar etc. ou formais que se destinam não à matéria, mas às suas determinações formais e aí é precisamente onde aparece a divisão das potências em intelectual e volitiva dado que para o conhecimento da verdade o ato formal requerido é o da potência intelectual e para a realização do bem o ato formal requerido é o da potência volitiva:

 

Quanto à parte da alma que em suas operações não se utiliza de órgãos corporais, ela permanece indeterminada e de uma certa maneira infinita, na medida em que  é imaterial, sua competência estende-se ao objeto comum a todos os seres. É por isso que dizemos que o objeto da inteligência é essa qualquer coisa (esse quid) que se encontra em todo gênero de ser é o motivo pelo qual o filósofo declara: “o intelecto é aquilo pelo qual somos capazes de tudo fazer e de transformar-se em tudo”. Não é, portanto, possível, na parte intelectiva, de se fundar uma distinção de potências sobre uma diferença de natureza entre os objetos, mas somente sobre uma divisão formal dos objetos, na medida precisa em que o ato da alma pode direcionar-se para uma só e mesma realidade sob pontos de vistas diversos. É por isso que na parte intelectual a verdade fundamenta a diferença da inteligência e da vontade. Com efeito, a inteligência dirige-se ao verdadeiro inteligível como para uma forma, visto que a inteligência deve ser informada do que é o objeto de intelecção, enquanto  a vontade dirige-se ao bem como a um fim, o que fez dizer o filósofo, Metafísica livro VI, que “a verdade encontra-se no espírito e o bem nas coisas” a forma sendo intrínseca e o fim extrínseco[13].

 

Sendo assim, para atos formais diferentes, potências anímicas diferentes são requeridas. Enquanto  no seio da mesma potência, no caso a potência cognitiva humana, podemos dizer que existe uma diferenciação de acordo com as distinções dos objetos.

Cada ato é determinado pela força de seu objeto e o objeto do intelecto é:

 

Essa qualquer coisa, como é dito no livro III da alma, e, por conseguinte, o intelecto estende sua ação tão longe quanto pode estender. Ora, é precisamente o caso dos primeiros princípios que primeiramente tornam-se conhecidos: isso adquirido continuamos o raciocínio e chegamos ao conhecimento das conclusões. Aristóteles denomina científico este poder que é o mesmo de concluir resolutivamente a qüididade. Mas existem realidades que não permitem uma resolução chegue a qüididade e isto por causa de sua indeterminação ontológica é o caso das realidades contingentes enquanto contingentes[14].

 

Não podemos ter um conhecimento científico das realidades particulares, daí não podermos ter um conhecimento qüiditativo dos contingentes enquanto contingentes. Neste caso nosso conhecimento é opinativo, não científico.

Tendo clarificado de vez a posição de Tomás de Aquino no tocante à razão superior e inferior resta-nos sublinhar que, para ele, as operações cognitivas que cabem ao homem, foram afetadas pela queda, conseqüência direta do pecado de nosso primeiro pai. Assim: “Se bem que a razão superior não esteja em contato imediato com a carne, entretanto, a corrupção da carne a atinge na medida onde as potências superiores recebem das potências inferiores.”[15] É o erro supremo dos platonismos de todos os matizes, o de recusarem-se a ver o homem em sua presente condição, que se encontra ferida, e com ela enfraquecida em todas as suas potências e operações.

O realismo do diagnóstico nos leva a um realismo de nossa situação e de nossas possibilidades deixando de lado toda e qualquer referência a utopias e desvarios tão próprios do homem contemporâneo. É um recado precioso e direto de um santo e sábio medieval para o homem de todos os tempos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A noção de Tradição no cristianismo (I)

 

O que foi desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com nossos olhos, o que miramos, e palparam nossas mãos do verbo da vida. Porque a vida foi manifestada e nós a vimos, e damos dela testemunho, e nós vos anunciamos esta vida eterna, que estava no Pai e que nos apareceu a nós outros, o que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que também vós tenhais comunhão conosco, e que a nossa comunhão seja com o Pai, e com seu Filho Jesus Cristo. E essas coisas vos escrevemos para que vos alegreis, e a vossa alegria seja completa.

1 João 1-4.

 

 

 

Na recente eleição de Sua Santidade o Papa Bento XVI vimos a imprensa torcer o nariz por sua eleição simplesmente pelo fato dele ser a garantia da manutenção do depósito da fé católica. Com Bento XVI a chance da Igreja “modernizar-se” em sua doutrina são quase que nulas o que, evidentemente, é mal visto por uma imprensa ávida por novidades e que é incapaz de compreender minimamente as realidades religiosas, seus contextos, seu tipo de pensamento e suas conseqüências práticas para os fiéis que a ela aderem com toda firmeza e sinceridade de que são capazes.

Tendo em vista esse quadro desolador achamos por bem explorar um conceito completamente esquecido pelo mundo pós-moderno, o conceito de Tradição. O que é Tradição? Qual a sua importância para o cristianismo? O que implica esta noção? E o que tentaremos desenvolver nesse artigo.

 

I

 

Caríssimos, eu não vos escrevo um mandamento novo, mas sim os mandamentos velhos, que vós recebestes desde o princípio: este mandamento velho é a palavra que ouviste desde o princípio.

1 João 2, 7.

 

As palavras transcritas acima e que servem de epígrafe para a presente reflexão são a base mesma da noção de tradição para o cristianismo. Com efeito, no versículo joânico supracitado, salta aos olhos a importância do princípio, não qualquer princípio, mas “aquilo que era desde o princípio”, a própria fonte da vida e do ser que está para além de toda vida e de todo ser, eis o “princípio” a partir do qual toda e qualquer noção de tradição autêntica apoia-se no cristianismo.

A fidelidade ao princípio é essencial a pensamento religioso, não se entende nada de religião se não se tem em mente essa noção. O pensamento religioso cristão é fruto de uma revelação, e por isso é recepção de algo que transcende a simples capacidade humana de produzir uma tal doutrina. Assim, a tradição começa a desvelar todo o seu conteúdo e importância.

Com efeito, só podemos falar de tradição no cristianismo quando nos atemos a um fato que trás as seguintes características:

1 Trata-se de uma doutrina de origem não humana, que existe desde o princípio, que é fonte da vida e do ser, obtida por revelação e que contém ensinamentos preciosos para a perfeição do homem[16];

2 Trata-se de uma doutrina essencial, atemporal, que não pode ser modificada em seu núcleo[17] sob pena de falsificação não só da doutrina, mas do próprio homem que deixa de poder realizar-se plenamente como homem;

3 Se uma doutrina de origem não humana nos é comunicada é para que ela seja guardada e retransmitida o que pressupõe a fidelidade dos guardiães da doutrina recebida à própria doutrina.

Das três características enumeradas acima podemos depreender algumas conclusões importantes.

Se a doutrina é de origem não humana e que com a simples utilização natural de nossas potências anímicas não poderíamos obtê-la a veneração por tal ensinamento se faz necessária, daí se explicar o devotamento religioso de populações inteiras por seus escritos sacros, já que sendo de origem divina, contém em si toda a verdade necessária para sermos homens em toda plenitude. Podemos agora compreender, em toda sua profundidade, o mandamento de se honrar Pai e Mãe: “honra a teu pai e a tua mãe, como te mandou o Senhor teu Deus, para viveres largo tempo, e para seres bem sucedido na terra que o Senhor teu Deus está para te dar”.[18]

Honrar Pai e Mãe é ser fiel à origem, ao princípio, e, sendo assim, seremos bem sucedidos na vida eterna que Deus nos prometeu. Mas essa fidelidade a uma doutrina, a um princípio, é, propriamente, o que torna impossível o diálogo entre o pensamento religioso e o homem moderno e pós-moderno, que desonrando Pai e Mãe acha que honra melhor a si mesmo, que sendo fiel às novidades estará cumprindo plenamente sua liberdade. E que os mundos moderno e pós-moderno baseiam-se não mais à fidelidade a um princípio transmitido fielmente por tradição de geração em geração, mas que o mundo moderno, como revela sua etimologia é o mundo da moda, do efêmero, do transitório e o que se quer é precisamente poder escolher democraticamente princípios que guiarão o homem provisoriamente até que se elejam outros que serão substituídos quando, por sua vez, estes caducarem.

A tradição possui também, uma unidade de pensamento, um delineamento preciso de características que a faz profundamente identitária, e, consequentemente faz dos seus fiéis portadores desta mesma identidade, fato esse abominável aos olhos do homem contemporâneo que sente verdadeira ojeriza por qualquer identidade bem definida[19].

A tradição não é identificável com seu portador, não assimilamos uma tradição, assimilamos uma ideologia não uma tradição espiritual autêntica. O homem vive pela e na tradição, não se torna a tradição como ocorre na identificação mimética a uma ideologia política, religiosa ou filosófica que pertencem mais propriamente ao domínio das patologias psíquicas humanas que a um pleno desenvolvimento espiritual do homem[20].

Tradição é deste modo identidade na alteridade, não somos a tradição, mas apenas orientados por ela. Aqui vemos claramente que uma tradição espiritual autêntica está para além de todo individualismo, posto que, a tradição remete ao supra individual, a que transcende à mera subjetividade e ao mesmo tempo desvia-se de todo coletivismo já que a adesão mimética a um modelo totêmico qualquer é o anverso do pensamento tradicional já que a identidade pessoal deve ser preservada e elevada à sua perfeição pela tradição[21].

Por fim, a tradição é intermediadora. Sim! A tradição é elo que liga o homem ao princípio, seja através de uma doutrina sagrada, seja através da objetivação desta doutrina em uma instituição que seria a guardiã do depósito desta mesma doutrina.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A música sacra segundo São Pio X[22]

Ressoe os salmos no sóbrio banquete: e, como tens memória tenaz e voz canora, assume esse ofício segundo o costume em moda: a pessoas a ti caríssimas ofereces maior nutrimento se da nossa parte houver uma audição espiritual, e se a doçura religiosa deleitar o nosso ouvido.

São Cipriano.

 

 

 

Com a revolução litúrgica operada pelo concílio Vaticano II, o Papa Paulo VI, com um único golpe, destruiu, ao mesmo tempo, o caráter sacrificial da santa missa e aboliu todo e qualquer sinal de sagrado na mesma liturgia.

A liturgia católica, culto sacratíssimo e digno dos mais altos louvores, sofreu com isso um duro revés, e, como conseqüência desse duro golpe, assistimos a uma verdadeira invasão, sem igual em dois mil anos de história do cristianismo, do profano nos lugares e ações sagrados.

Como efeito vimos o sacerdote reduzir-se a um mero “presidente da assembléia” e, com ele, todo caráter transcendente do culto católico esvair-se. Quanto à música litúrgica o desastre é completo.

Em primeiro lugar, verificamos que o que ocorre na missa nova é que a música, que nem é necessário dizer é completamente profana e de um sentimentalismo sem igual, comanda a liturgia o que claramente contraria a recomendação de são Pio X no motu proprio que hora estudamos: “é condenável, como abuso gravíssimo, que nas funções eclesiásticas a liturgia esteja dependente da música, quando é certo que a música é que é parte da liturgia[23]”.

Depois, o caráter da música nada mais possui de sagrado e isso se evidencia tanto pela estrutura interna da música quanto pelos instrumentos musicais utilizados[24].

Mas deixemos de lado as aberrações saídas do concílio Vaticano II e atenhamo-nos aos ensinamentos salutares emanado do magistério eclesiástico de antes do malfadado concílio.

São Pio X, o último Papa santo, foi o homem da tradição por antonomásia nos anos iniciais do século XX. Sua ação benéfica em prol da manutenção da doutrina tradicional da Igreja é certamente uma das glórias de seu pontificado. Neste artigo, não trataremos deste assunto, mas vamos nos ater a seu ensinamento específico sobre a música sacra.

Como legítimo bom pastor, São Pio X, começa seu motu proprio sobre a música sacra lembrando que uma de suas principais ocupações é precisamente a de:

 

Entre os cuidados do ofício pastoral, não somente desta Suprema Cátedra, que por inescrutável disposição da Providência, ainda que indigno, ocupamos, mas também de todas as Igrejas particulares, e, sem dúvida, um dos principais é o de manter e promover o decoro da Casa de Deus, onde se celebram os augustos mistérios da religião e o povo cristão se reúne, para receber a graça dos Sacramentos, assistir ao Santo Sacrifício do altar, adorar o augustíssimo Sacramento do corpo do Senhor e unir-se à oração comum da Igreja na celebração pública e solene dos ofícios litúrgicos. Nada, pois, deve suceder no templo que perturbe ou, sequer, diminua a piedade e a devoção dos fiéis, nada que dê justificado motivo de desgosto ou de escândalo, nada, sobretudo, que diretamente ofenda o decoro e a santidade das sacras funções e seja por isso indigno da Casa de Oração e da majestade de Deus[25].

 

E em virtude de sua autoridade apostólica relembra aos fiéis do mundo inteiro qual seriam os princípios gerais, através dos quais, poderíamos considerar uma música como sendo sacra:

1 A música sacra participando da liturgia participa de seus fins, quais sejam: a glória de Deus e a santificação dos fiéis[26];

2 A música sacra deve manter o decoro e esplendor das sagradas cerimônias aumentando a eficácia dos textos levando os fiéis à piedade e preparando-os melhor para os frutos da graça[27];

3 A música sacra deve possuir santidade e delicadeza de forma; [28]

4 A música sacra deve ser universal[29].

Os critérios são simples e límpidos e de uma eficácia totalmente comprovada quando retamente aplicada. Dados os critérios, São Pio X, indica o canto gregoriano como sendo a música que melhor reúne estas características e propõe-na como modelo:

 

Estas qualidades encontram-se em grau sumo no canto gregoriano, que é por conseqüência o canto próprio da Igreja Romana, o único que ela herdou dos antigos Padres, que conservou cuidadosamente no decurso dos séculos em seus códigos litúrgicos e que, como seu, propõe diretamente aos fiéis, o qual estudos recentíssimos restituíram à sua integridade e pureza. Por tais motivos, o canto gregoriano foi sempre considerado como modelo supremo da música sacra, podendo, com razão, estabelecer-se a seguinte lei geral: uma composição religiosa será tanto mais sacra e litúrgica quanto mais se aproxima no andamento, inspiração e sabor da melodia gregoriana, e será tanto menos digna do templo quanto mais se afastar daquele modelo[30].

 

Desta forma, vemos claramente, que tudo na Igreja católica deve levar em consideração o crivo da “forma católica” que deve, precisamente, “informar”[31] toda e qualquer realidade tocada pelas mãos da Igreja.

Torna-se claro aqui que a Igreja não deve inculturar-se, mas sim, ao contrário, deve ser ela a dirigir a cultura, fato esse completamente invertido contemporaneamente. Com efeito, quando a igreja “informou” a cultura, e aí evidentemente incluem-se as artes em geral, e a música em particular, como aconteceu muitas vezes no passado o que vimos foi uma elevação do homem a Deus. Quando o contrário aconteceu, ou seja, quando a Igreja fez-se mundana, o homem se rebaixou e a Igreja “arca da salvação” ao invés de salvá-lo elevando-o afundou com ele no pântano das mais espantosas vilezas de alma.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Affaire Maurice Allais

 

A experiência demonstra que a opinião dos homens “competentes” está em constante desacordo com a realidade, e a história da ciência é a história dos erros dos homens “competentes”.

Vilfreto Pareto.

 

 

 

Hoje em dia quando pensamos em um cientista, logo nos vem a mente um senhor  vestido de jaleco branco, de aparência meio amalucada, de olhar inteligente e mente aberta. De todas as características acima enumeradas deixemos aquelas que fazem parte do inevitável folclore a que nosso imaginário pós-moderno recorre quando falamos de uma atividade, crença ou pessoa que acederam às instâncias do mito, como é o caso evidente da ciência e dos cientistas contemporâneos, e retenhamos apenas a última que deveria caracterizar a atitude inequívoca do sábio perante o mundo que o cerca e as teorias científicas elaboradas para explicá-lo.

De fato, a ciência moderna caracterizou-se pelo seu combate sem tréguas contra os dogmas. No seu nascedouro o combate era contra os dogmas religiosos que, segundo os cientistas de então, obnubliavam suas pesquisas engessando-as a priori em dados metafísicos incontornáveis, é o que retratava o famoso dito de Galileu: “não quero saber como se vai para o céu, mas como vai o céu” indicando aqui, claramente, qual seria as fronteiras legítimas, segundo ele, da pesquisa científica dos dogmas da religião.

Vamos também, neste escrito, deixar de lado os problemas suscitados por essa demarcação. O que nos interessa nesse artigo não é a relação entre ciência moderna e religião tradicional, mas a relação interna da perspectiva científica contemporânea e teorias divergentes sobre “como vai o céu” do dito de Galileu.

Com efeito, Galileu pensava que matematizando as ciências naturais poderíamos traçar um caminho seguro de “como vai o céu[32]” e a mediocridade positivista só acentuou o grau de miopia dessa visão.

Quando começamos a analisar com maior cuidado a história da ciência moderna o que vemos não é essa abertura de espírito que tanto se propaga, muito menos a total ausência de dogmas no domínio das pesquisas científicas. O contrário sim é o que se verifica. A história da ciência moderna é um amontoado inacreditável de falsos ídolos, de dogmas inquestionáveis e de estreiteza de pensamento que somente podemos encontrar paralelo em grupúsculos fanáticos de fundamentalistas religiosos que a ciência sempre condenou e às vezes identificava pejorativamente com o comportamento religioso tout court.

Com essas palavras não queremos cometer com a ciência e cientistas o erro que eles cometeram com a religião e religiosos. Não jogaremos no mesmo balaio de gatos toda a ciência e todos os cientistas pelo fato de haver entre eles pessoas dogmáticas e de mente obtusa que se recusam a mudar de opinião mesmo quando a realidade teima em lhes oferecer dados inequívocos de que suas teorias estão erradas.

É sobre um triste affaire da ciência contemporânea que trataremos nas páginas que seguem. Trata-se do affaire que envolve um cientista de qualidade excepcional, Maurice Allais (1911-), único francês até a presente data a ser laureado com o prêmio Nobel de economia, ou seja, não estamos tratando com alguém desconhecido ou de competência científica duvidosa, mas de alguém que é reconhecido pelos seus próprios pares como um insigne representante do que há de melhor na ciência contemporânea.

O affaire em que ele se envolveu, ao contrário do que se possa supor não tem relação direta, com economia, mas com a física relativista e com a cosmologia advinda desta teoria. Sim! Maurice Allais, além de excelente economista é também um excepcional físico, mas para desespero, ou desprezo, da academia ele é físico autodidata, nunca integrou quadro de nenhum departamento de física de nenhuma universidade ou instituição de pesquisa reconhecida, o que por si só já é suficiente para torná-lo suspeito aos olhos de uma academia enrijecida em seus métodos e hábitos[33].

Passemos então para os dados deste triste affaire para que depois possamos retirar algumas conclusões a respeito das questões envolvidas.

 

II

 

Status Questionis

 

A história das ciências mostra que o progresso da ciência foi constantemente entravado pela influência tirânica de certas concepções que acabamos por considerar como dogmas. Por essa razão, convém submeter, periodicamente, a um exame aprofundado os princípios que acabamos por admitir sem maiores discussões.

Louis de Broglie

 

 

 

Maurice Allais é largamente conhecido do público culto como um economista de exceção, mas raros são aqueles que conhecem sua atividade bissexta de pesquisador no domínio da física, sobretudo nos domínios da mecânica e da ótica, bem como nos dos problemas relativos à transmissão das ações à distância e da influência do movimento da terra sobre s fenômenos terrestres.

Toda a sua pesquisa nos domínios supracitados tem como objetivo aprofundar uma intuição originária, qual seja, a de que:

 

a propagação das ações de gravitação e das ações eletromagnéticas efetuam-se passo a passo e que portanto, encontra-se implicada a existência de um meio intermediário, o éter de Fresnel e dos físicos do século XIX, sem que, portanto, devêssemos admitir, como era admitido no século XIX, que todas as partes deste meio encontrem-se perfeitamente imóvel umas em relação às outras e notadamente em relação às estrelas fixas[34].

 

Para quem conhece minimamente os postulados da física relativista, sabe que a simples conjetura de que o éter possa existir já se constitui de per si em um afronta grave à teoria de Einstein que mandou para o depósito de velharias toda e qualquer afirmação neste sentido. Mas eis que um pesquisador corajoso, cujo único compromisso sempre foi o da mais estrita obediência à verdade dos fatos, coloca em questão o interdito relativista. O resultado não poderia ser outro a recusa a priori de toda e qualquer análise dos resultados obtidos pela pesquisa feita sob tal pressuposição. De fato, para muitos cientistas colocar em dúvida alguma afirmação de Einstein significaria mais que erro científico crime de lesa majestade.

Mas voltemos aos dados da pesquisa. Partindo da convicção afirmada acima Maurice Allais arquitetou o seguinte raciocínio: se existe tal meio intermediário um campo magnético pode corresponder à rotação local de tal meio. E se tal suposição fosse verdadeira ele poderia estabelecer uma ligação inequívoca entre gravitação e magnetismo. Para tanto observou a ação do campo magnético sobre o movimento de um pêndulo de dois metros que terminava em uma bola de vidro. Tal movimento foi estudado, a princípio, na ausência de toda a influência de campo magnético que não o terrestre e para grande surpresa de Allais:

 

Constatei que este movimento não se reduzia ao efeito de Foucault, mas que apresentava anomalias muito importantes e variações com o tempo relativamente a este efeito. É o estudo destas anomalias imprevistas que constituiu o objeto essencial de minhas experiências de 1954 a 1960[35].

 

E é sobre estes efeitos que se apóiam todo o affaire Maurice Allais. Os dados são impressionantes; a periodicidade diurna lunar obtida pelo experimento era da ordem de 24 h 50 mn, a ordem da diferença com as teorias admitidas era de simplesmente entre 20 e 100 milhões de vezes. Tal dado não pode ser desconsiderado pelas teorias vigentes, mas o foram por puro dogmatismo teórico.

Mas como Allais explica esta gigantesca anomalia? Ele o faz respondendo que “as experiências realizadas sugeriam a existência a cada momento de uma direção de anisotropia do espaço[36]”. Postular a anisotropia do espaço é simplesmente colocar a baixo todo o edifício relativista e é precisamente por esse fato que suas experiências foram negadas a priori.

Na repetição da experiência quando dos eclipses totais do sol ocorridas em 30 de junho de 1954 e em 2 de outubro de 1959 novamente resultados surpreendentes foram obtidos que levaram Allais a constatar a: “existência de uma direção de anisotropia do espaço variável com o tempo deduzida das observações do pêndulo paracônico de suporte isotrópico[37]”. O resultado era evidente, a periodicidade lunisolar era totalmente disparatada com a da até então admitida.

Os resultados das observações de Maurice Allais foram todos remetidos à academia de ciência da França na forma de oito notas apresentadas a Albert Caquot e duas notas apresentadas a Joseph Kampé de Fériet[38]. Como resultado prático destas notas varias visitas de eminentes cientistas franceses foram realizadas aos dois laboratórios onde ocorriam as experiências de Allais, tendo ele sido convidado a proferir três conferências sobre suas investigações no Cercle Alexandre Dufour[39].

Outro sinal significativo da seriedade das pesquisas foi o fato de Allais ter ganhado os prêmios Galabert de 1959 conferido pela sociedade francesa de astronáutica e o prêmio americano da Gravity Research Foundation também em 1959.

Mas quem pensar que com tantos sinais notórios de seriedade das pesquisas efetuadas e que a promessa de resultados ainda mais surpreendentes estariam por vir facilitasse a vida desse sábio cometeu um erro crasso. Allais foi instigado a abandonar suas pesquisas em 1960, pois todos os institutos de pesquisas franceses recusaram-se a financiar a continuidade das experiências tão carregadas de promessas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma outra modernidade é possível?

A Devotio Moderna

Florent Radewijns

 

O mundo moderno começou no dia em que os idiotas descobriram que eram a maioria.

Nelson Rodrigues.

 

 

 

Falar mal da modernidade tornou-se lugar comum[40]. Nada mais fácil, para um espírito religioso, do que constatar que o mundo moderno é, de certa forma, uma aberração em meio a todas as culturas de todos os povos, e isso em qualquer tempo. Não é mistério para ninguém, que todas as culturas até hoje constituídas, salvo a precisa exceção da cultura moderna, o foram por meio de princípios metafísicos[41].

Essas culturas retiravam não do mundo material, e muito menos do homem em sua dimensão meramente corporal, seus princípios norteadores, mas todas elas em seus mitos fundadores tinham em comum o fato de que os princípios sob os quais elas se apoiavam referirem-se não ao hic et nunc, mas a atemporalidade ou, como muito bem ressaltou Mircea Eliade[42], seus princípios referiam-se a um in illo tempore, tempo mítico, das origens no qual o que contava não era o mundo em sua espessura material, mas, ao contrário, a revelação do espírito.

Nada de similar aconteceu com a cultura e o mundo modernos, posto que este já em seu nascedouro advogava sua auto-suficiência, sua revolta e fechamento a qualquer referência ao transcendente, estabelecendo-se contra tudo e todos que representassem algo de superior à deusa razão, e isso a priori.  E é nesse sentido que podemos entender a revolta do homem moderno contra a Igreja católica, precisamente, por esta representar a seus olhos, a instituição mais visível e palpável que ligaria o homem ao invisível e impalpável que é Deus e o próprio espírito humano.

Desta forma, fica muito fácil atacar, ao menos na perspectiva da metafísica perene, um mundo concebido não sob os sólidos fundamentos metafísicos das culturas tradicionais, mas improvisado sobre os caprichos, sonhos e ilusões do homem e do mundo.

Feita a constatação, gostaríamos de sublinhar que está não será a nossa perspectiva nessa série de artigos sobre a devotio moderna, ao contrário, partirei da constatação de que se a moeda falsa existe, é sinal seguro de que a moeda verdadeira também existe e, portanto, se o mundo moderno é falso isso não significa que toda e qualquer modernidade também o seja.

É precisamente este o caso que estudaremos a seguir, mostrando que também existe uma certa modernidade, no caso a advogada pela devotio moderna, que pode sim estar firmemente ancorada na tradição da Igreja católica.

 

I

 

A Devotio Moderna

 

Só é verdadeira a ciência que abraçamos para agir.

Santo Agostinho

 

 

 

A devotio moderna nasceu nos países do norte europeu em pleno século XIV, século de decadência moral impressionante. É surpreendente saber que os devotos modernos nascem precisamente para se contraporem a essa decadência da alma ocidental.

E como eles julgavam que poderiam fazer frente a esta decadência? Combatendo-a pela via da denúncia, pelo ódio perseguidor, instaurando um terror religioso qualquer? Não! O caráter da devotio moderna repousa muito mais em um desejo ardente de autenticidade interior e de pureza de coração do que em fanfarronices persecutórias tão presente nos espíritos pseudotradicionalistas e de pendores farisaicos de todos os tempos.

Os devotos modernos[43], tinham como ideal de vida não o engajamento religioso através da profissão de votos, mas sim pela imitação da vida dos apóstolos e da Igreja primitiva para se chegar de uma maneira mais rápida e segura à fonte única da verdadeira santidade, Jesus Cristo. Para tanto, escolheram uma vida de profunda pobreza exterior a ponto de serem confundidos pela população com os mendigos que deambulavam pelas ruas do norte da Europa de então. Mas esta pobreza exterior estava firmemente ancorada na humildade interior, sem a qual qualquer exercício de virtude degenera-se em bufonaria.

Praticavam também as mais austeras mortificações corporais a ponto de Florent Radewijns ter perdido a faculdade do gosto e de outro irmão, Geraldo Zerbolt de Zutphen ter sido, por várias vezes advertido, pelo próprio Florent, para que minorasse seus rigores ascéticos a fim de que não comprometesse de vez sua já frágil saúde. Que contradição com um certo mundo moderno dominado não pelo ideal da humildade e pureza de coração, mas pela grandeza orgulhosa de um candidato a Fausto qualquer!

A correção fraterna era outro expediente espiritual largamente utilizado em seu meio, e era vista como meio seguro de se progredir nas virtudes. Tal expediente era levado tão a sério por estes pobres irmãos, que seu prior Florent Radewijns chegou a ser cognominado de Strenuus Exercitator[44].

Thomas de Kempis, autor da imitação de Cristo, que conheceu Florent quando ainda era um jovenzinho, conta-nos deste rigoroso instrutor que:

 

Certo dia encontrava-me perto de Florent Radewijns no coro. Ele virou-se em minha direção para poder seguir o canto em nosso livro. Postou-se por trás de mim apoiando suas mãos sobre meus ombros. Esse gesto fez com que eu caísse no chão, com dificuldade consegui mover-me, enregelado que estava por tal honra ter-me cabido.”[45]

 

Estes irmãos tinham também em alta conta o trabalho manual, já que segundo um antigo adágio por eles sempre repetido “o homem ocioso batalha contra uma multidão de demônios, o trabalhador luta apenas contra um” e para tanto, escolheram como forma ideal de trabalho, que servia ao mesmo tempo como ganha pão e exercício espiritual o de copistas.

É neste contexto que viveu o holandês Florent Radewijns (1350-1400), que teve uma fama de santidade tão grande em seu tempo que várias pessoas, algumas eminentes, vinham aconselharem-se consigo. Sua obra literária não foi extensa e constitui-se de parcos escritos e umas poucas cartas. Seu estilo é fruto de sua atividade de copista posto que escrevia resumidamente o que lia e copiava dos mestres espirituais. Suas obras objetivavam muito mais o bem da comunidade dos irmãos da vida comum, que deste modo encontravam alimento espiritual substancioso, do que se destinavam para um público externo.

Seu sistema de composição e escritura é de uma tocante simplicidade, consistindo-se em agrupar citações e pensamentos edificantes em torno de um tema determinado precedido de um título que sempre indica o sujeito tratado e isso de maneira sistemática. O fio condutor é, precisamente, o da perfeição cristã tão ardentemente almejada. Esse procedimento era tido por eles como o mais fiel e capaz de religá-los aos cristãos dos tempos apostólicos.

Passemos agora à análise da doutrina contida nesses escritos.


[1] Ainda que não só por ela, já que a religião católica advogando a necessidade da fé não relega em momento algum a necessidade da razão. Pensar o contrário seria cair em fideísmo posição indefensável segundo o ponto de vista católico.

[2] Para este estudo utilizamos a tradução francesa da Questão Disputada sobre a Verdade Questão XV: Questions Disputées sur la vérité Questions XV, XVI, XVII. Éditions Vrin. Paris. 1991.

[3] É o caso preciso dos autores dominicanos da escola da mística renana tais como Suso, Tauler e principalmente Mestre Eckart.

[4] A participação a uma natureza superior não quer dizer que a possuamos em sua perfeição em nossa natureza anímica, ao contrário, Santo Tomás é categórico quando nos diz: “é a mesma potência em nós que conhece a simples qüididade das coisas, que forma as proposições e constrói os raciocínios”. Op. Cit. P. 43. Do que fica dito acima, é claríssimo que Tomás de Aquino não admite uma outra potência anímica no homem que não seja a da racionalidade.

[5] Op. Cit. P. 37.

[6] Op. Cit. P. 39.

[7] Uma das diferenças mais gritantes entre intelecto e razão é precisamente o fato de: “o intelecto designa um conhecimento simples e absoluto. Com efeito, não dizemos de alguém que ele intelige porque lê, de alguma maneira, a verdade, no interior da essência mesma da coisa? Pelo contrário, a razão designa uma espécie de movimento discursivo pelo qual a alma humana se aplica ou passa a um conhecimento”. Op. Cit. P. 33. O intelecto não precisa de informações sensitivas, vai direto as qüididades, a razão é discursiva, move-se do mais grosseiro ao mais sutil, do individual ao universal e assim por diante.

[8] É o que textualmente ele nos diz quando afirma que: “é próprio ao conhecimento humano a particularidade de começar pelos sentidos e imagens”. Op. Cit. P. 45.

[9] O que não é, de maneira alguma, o caso dos anjos. Com efeito, os anjos possuem uma inteligência deiforme e por isso conhecem os seres e suas verdades por participação na divina sabedoria. Os anjos conhecem sem movimento algum, de maneira extática, precisamente por serem substância espiritual. O homem conhece por movimento, compondo e dividindo, por ser uma substância racional.

[10] Não se engane o estimado leitor que lendo em Tomás em variados trechos de seus escritos o termo intelecto que Tomás de Aquino em algum momento de seu pensamento tenha abandonado a posição aqui anunciada. Para ele quando usamos a palavra intelecto é à razão que estamos referindo como que a um sinônimo.

[11] Op. Cit. P. 67.

[12] Op. Cit. P. 61.

[13] Op. Cit. P. 63.

[14] Op. Cit. P. 69.

[15] Op. Cit. P. 123.

[16] É o que fica claro quando São João nos diz “que vossa alegria seja completa”. Assim, somente com a fidelidade à doutrina tradicional, a alegria do homem, a sua perfeição, poderá ser completa.

[17] O núcleo da tradição é imutável. O que é passível de mudança é aquilo que muda com o tempo e que pode adaptar-se a ele sem nenhuma falsificação da doutrina. Exemplo disso é a mudança ao longo do tempo da idade necessária para se receber a primeira comunhão, mas não se mudou com isso a verdade sobre a Eucaristia.

[18] Deuteronômio 5, 16.

[19] Qualquer fidelidade a uma doutrina religiosa é, hoje em dia, simplesmente, rotulada de fanatismo.

[20] As ideologias contemporâneas são frutos do que poderíamos nomear como contra-tradição, fruto do decaimento de uma doutrina espiritual em pseudodoutrinas de cunho psicológico e sentimental sem nenhum compromisso com a verdade essencial do homem. O homem que se submete a uma ideologia é escravo dela, e não Senhor de si mesmo. Um católico adepto da teologia da libertação é muito mais passível de fanatismo político do que portador da paz espiritual herança legítima que o proprio Cristo nos deixou.

[21] Liberalismo e socialismo são perversões, conscientemente elaboradas, das verdades cristãs a ponto de Chesterton ter dito que o mundo moderno ser o resultado das “virtudes cristãs tornadas loucas”.

[22] Notas sobre a doutrina da música sacra referente ao Motu Proprio Tra Le Sollecitudini.

[23] São Pio X. Motu Proprio Tra Le Sollecitudini. In: Documentos sobre a música litúrgica. Editora Paulus. São Paulo. 2005. P. 21.

[24] É fato conhecido por todos que nas igrejas católicas, a partir da revolução litúrgica do Vaticano II, vemos, e ouvimos, lamentavelmente, a liturgia ser acompanhada, quando não dirigida, por baterias, guitarras elétricas e outros instrumentos expressamente proibidos por São Pio X em seu motu proprio:

“É proibido, na igreja, o uso do piano bem como de instrumentos fragorosos, o tambor, o bombo, os pratos, as campainhas e semelhantes.

É rigorosamente proibido que as bandas musicais toquem nas igrejas, e só em algum caso particular, com o consentimento do ordinário, será permitida uma escolha limitada, judiciosa e proporcionada ao ambiente de instrumentos de sopro, contanto que a composição seja em estilo grave, conveniente e semelhante em tudo às do órgão”. São Pio X. Op. Cit. P. 20.

Tal proibição não advém simplesmente de uma mente conservadora que se recusa a dialogar com seu tempo, ao contrário, é fruto da convicção de uma mente retamente constituída de que somente deve ser digno de se manifestar no mundo físico àquilo que corresponde a um princípio metafísico – quanto mais naquilo que tange às realidades sagradas – e, tais princípios metafísicos devem ser apontados pela razão e pelo ensinamento magisterial da Igreja.

Quando tais normas não são obedecidas, como acontece presentemente um pouco por todo o mundo, o que encontramos é o contrário do pretendido pela Igreja em seu ensinamento. Com efeito, ao adentrarmos em qualquer igreja católica contemporânea o que escutamos é uma cacofonia de sons fruto da anterior cacofonia de crenças advindo do abandono da metafísica tradicional da Igreja e substituição  arbitrária desta por uma adaptação equivocada ao mundo moderno feita geralmente às pressas e de qualquer maneira.

[25] Op. Cit. P. 13.

[26] Op. Cit. P. 15.

[27] Op. Cit. P. 15.

[28] Op. Cit. P. 15.

[29] Op. Cit. P. 16.

[30] Op. Cit. P. 16.

[31] Informar aqui é entendido no sentido que a filosofia escolástica a toma, qual seja, a de dar formar a uma realidade material que antes dela encontrar-se-ia amorfa. A forma católica seria, por conseguinte, o espírito que deve animar toda e qualquer ação cumprida sobre sua égide.

[32] Um exemplo claro de caminhos divergentes que levam ao mesmo resultado, levando-se em consideração apenas o ponto de vista matemático, está no clássico exemplo da querela autoral sobre o cálculo infinitesimal entre Newton e Leibniz. Provavelmente os dois desenvolveram suas técnicas de cálculo desconhecendo o que o outro fazia e chegaram por meios diferentes a um resultado idêntico. Somente a miopia positivista pode postular um acordo inquestionável sobre resultados e métodos na ciência.

[33] A mentalidade acadêmica é às vezes tão refratária ao real que o cientista francês Louis Rougier um dos raros defensores de primeira hora de seu colega Maurice Allais, chegou a dizer o seguinte: “freqüentemente perguntei-me, ao longo de minha carreira, se na universidade e nas altas escolas amávamos verdadeiramente a inteligência”.

[34] Allais, Maurice. L’anisotropie de l’espace. Les données de l’experience. Editins Clement Juglar. Paris. 1997. P. 44.

[35] Allais. Op. cit. P. 44.

[36]  Op. Cit. P. 49.

[37]  Op. Cit. P. 49.

[38] Allais. Op. cit. P. 51.

[39] As três conferências pronunciadas por Allais foram:

1 “Faut-il reconsidérer les lois de la gravitation? Sur une nouvelle expérience de Mécanique”. Proferida no dia 22 de fevereiro de 1958 no anfiteatro Henri Poincaré da escola politécnica;

2 “Faut-il reconsidérer les lois de la gravitation? Nouveaux résultats, bilan et perspectives”. Proferida em 7 de novembro de 1959 na sociedade dos engenheiros civis da França;

3 “Les périodicités constatées dans le mouvement du pendule paraconique sont-elles réelles ou non? Géneralisation du test de Schuster au cas de séries temprelles autocorrélées’. Proferida no dia 18 de março de 1967*.

*Fonte Allais, op. cit. P. 52.

[40] Existem primorosas análises do mal que afligem o mundo moderno, de sua inanição metafísica e espiritual e dos remédios salutares a serem aplicados para sua cura e restabelecimento em princípios sólidos e sadios. Tais análises foram feitas por espíritos argutos e não se restringiram a autores católicos, se bem que é a eles que nos reportamos nestas linhas. De fato, autores dos mais diversos matizes levantaram sua voz contra o mundo moderno basta citar o caso de René Guenon.

[41] É esta precisamente a tese advogada pelo filósofo tomista belga Marcel de Corte (1905-1994) no seu belo e fundamental livro: essai sur la fin d’une civilization. Éditions Remi Perrin. Paris. 2001.

[42] Antropólogo e historiador das religiões romeno, naturalizado norte americano. 1906-1986.

[43] A devotio moderna foi fruto da prática espiritual dos irmãos da vida comum, comunidade religiosa fundada por inspiração dos ensinamentos e do testemunho de vida de Geraldo Grote (1340-1384).

[44] Instrutor severo.

[45] Radewijns, Florent. Petit Manuel pour le dévot moderne. Introdução de Thom Mertens. Brepols. Bruxelas. 1999. P. 7.