Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Monsenhor Giussani e o modernismo

Postado em 16-01-2011

Flávio Mamede Pereira Gomes

Não ser teólogo nem filósofo dificulta ao extremo o bom termo desta tarefa, difícil per si. Ninguém discorda que entender o pensamento de D. Giussani requer quase uma iniciação. Diz-se que é no tempo que se entendem as coisas que são ensinadas, dando espaço para um relacionamento, para a amizade, amizade esta que, quando é verdadeira, é capaz sim de julgar a vida em todos os seus aspectos, quando se abre ou se tem dentro do seu âmbito um relacionamento com um Outro [1]. Dirão que para entender as coisas que são ditas é preciso fazer experiência delas, entenda-se experiência aqui como sinônimo de julgar.

A introdução já contém variados conceitos que demandariam ser resolvidos. Quase não é possível, então, de início buscar um ponto de partida para iniciar esta tarefa. Em português técnico, encontrar o fio da meada para começar a julgar a experiência. Esta é a tarefa. Julgar esta experiência, a experiência do Movimento, o método proposto por D. Giussani para encontrar a Cristo. Diz-se que a genialidade do mestre está no seu método. Diz-se que D. Giussani teve intuições geniais quando lecionava no colégio Berchet, de Milão, quando descobriu que o problema de a fé católica não ter incidência sobre a vida daqueles rapazes adolescentes só podia ser um problema de método. Agora, quero julgar esta experiência, portanto este método, suas afirmações, sua procedência e sua incidência na vida das pessoas.

Eu, depois de 12 anos participando do Movimento, às vezes mais próximo, às vezes mais distante por razões diversas, acho que posso dizer algo sobre esta experiência. Na verdade, sou testemunha dela e vejo ali muita confusão. Confusão de conceitos, confusão entre as pessoas. Muitos podem ficar espantados com esta palavra, confusão. Não seria exagero? Ou fruto de uma má vontade? Pode ser. Mas quero colocar algo em questão, e não tentar provar que há confusão. Como já disse, quero julgar a experiência do Movimento. Para provar que há confusão, teria que citar tantos fatos e histórias que tornaria inacabável qualquer tarefa. E haveria tantas interpretações possíveis sobre fatos, pessoas e momentos de pessoas, que tudo se tornaria uma longa e enfadonha novela. E haveria outros tantos fatos, pessoas e momentos de pessoas que tentariam provar exatamente o contrário. Nada disso é necessário. Basta dizer que, para mim, observar muitas coisas confusas no Movimento foi um ponto de partida para aprofundar mais as coisas. Principalmente, para conhecer mais o conteúdo da Fé católica. Encontrei muita coisa. Descobri que a Igreja é rica em sabedoria. E sua história é feita de luta e regada com o sangue dos mártires. Que não há lugar para confusão, pelo contrário, tudo é de uma precisão conceitual, terminológica, até estilística, de uma integridade e coerência, de um rigor como apenas quem tem consciência de possuir a verdade [2]absolutamente sublime, de origem divina, é capaz de ter. Tanto zelo. Tantos Papas, tanto ensino. É, a árvore se conhece pelos frutos. Pode ser que não seja verdade que haja tanta confusão assim no Movimento. Ou se há, existem aqueles para os quais tudo está muito claro, sendo então estes os verdadeiros representantes do Movimento. Pode ser que a confusão esteja em minha cabeça, por causa de tantos defeitos que tenho. Acho que não, embora admita os defeitos (não é demagogia). De qualquer maneira, por causa da confusão que me parece existir no Movimento, procurei ir cada vez mais às fontes, à procura de alguma luz que pudesse ajudar a mim e aos demais. Fui às fontes, fui encontrar o Magistério da Igreja. Pareceu-me que a Igreja já havia ensinado tudo. Tudo o que é necessário saber ou possível até perguntar-se, a Igreja já se preocupou em julgar cuidadosamente. Ademais, para todo tipo de erro que a espécie humana teima em propor, a Igreja tem já uma resposta adequada, sensata, muitas vezes sublime. Se não enfrentou ainda o problema, tem as ferramentas adequadas para fazê-lo, conta com os melhores meios intelectuais, humanos, e, é claro, sobrenaturais, por inspiração do Espírito Santo, que por promessa de seu fundador, Jesus Cristo, nunca deixaria de assisti-la na sua peregrinação até a morada celeste. Certo é que aos homens é possível, e de fato o fazem, resistir ao Espírito Santo [3]. Enfim, por esta Igreja me apaixonei. A Igreja dos santos e dos mártires, dos santos padres e doutores. A Igreja da conversão dos bárbaros, da luta contra os hereges e muçulmanos. A Igreja das catedrais, universidades, escolas, hospitais, bibliotecas, mosteiros. A Igreja da “idade das trevas”, talvez o ápice da humanidade, de tanta luz. A Igreja das cruzadas, da Inquisição, da Contra-Reforma, dos concílios e do Concílio de Trento. A Igreja do barroco e das artes, da conversão dos índios, da catequese do Brasil. Quem me dera ter tempo para aprender mais.

Tanta beleza tão pouco ensinada no Movimento, por falta de tempo e espaço nas infindáveis discussões sobre os desejos do coração e as dificuldades da vida. Bom, nada de falar da suposta confusão. Apenas citei-a a título de introdução. Importa que, um belo dia, comentando com um amigo sobre algumas coisas do Movimento, ele dizia: “Leia a Pascendi [4]”. E ficava em silêncio. Disse isto uma vez. Outro dia, mesmos comentários, mesma resposta: “Leia a Pascendi. Você vai entender tudo em um ato”. Fiquei curioso, fui lá e li. Realmente, entendi tudo em um ato, tão prontamente quanto o dia em que entrei em uma igreja por livre e espontânea vontade pela primeira vez, vi e acreditei: é o dom da Fé [5]. Foi uma constatação: D. Giussani é modernista. É claro que não é tão simples assim. Se fosse, outros já o teriam classificado assim. Se D. Giussani for modernista, não pode ser um modernista puro. Afinal, D. Giussani tem fé eucarística, crê na ressurreição corporal (física) de Jesus Cristo, tem devoção a Nossa Senhora; pelo menos me parece assim. E estas verdades de fé são contrárias ao agnosticismo, princípio do modernismo. Talvez D. Giussani tenha aceitado algumas teses modernistas, na tentativa de melhor servir à Fé Católica. Julgar isto não é minha tarefa. A mim, um sadio camponês, basta saber que alguns ensinamentos dos mais importantes de D. Giussani são modernistas e muito logicamente causa do que observei ser confuso, o que é suficiente para procurar uma outra orientação, mais segura e conforme o ensinamento tradicional da Igreja.

As coisas se percebem melhor também por contraste. No Brasil, o modernismo tomou conta. Existem explicações bem plausíveis para isto, mas extrapolam este escopo. Basta dizer que a Igreja Católica no Brasil é, atualmente, Teologia da Libertação e Renovação Carismática Católica, e que ambas posições são conseqüências do modernismo e imbuídas dele. O Movimento não se parece nem com um nem com outro. Percebi que o movimento era modernista quando li a Pascendi porque havia conhecido há pouco tempo a missa tridentina e os padres de Campos, ditos tradicionalistas, ou seja, o oposto ao modernismo.

Hoje, passados dois anos, estou convicto que a Igreja Católica é a Igreja de Cristo, que por isto é a mesma ontem, hoje e sempre. Sua maior virtude é ser fiel. Guardar o depósito da Fé [6] e transmitir integralmente, sem erro algum. Precisamente isto se chama Tradição: uma “passação”, receber e passar, sem alterar nada.

Enfim, quem sou eu para ensinar alguma coisa. A Igreja ensina estas coisas em seus documentos com caridade e sabedoria infinitamente maiores.

Estou apto a começar, então, o propósito desta carta, uma vez que sinto ter bem colocado as motivações e um esboço do processo pelo qual se deu em mim tão grande mudança. O que pretendo é colocar lado a lado os textos, afirmações e ensinamentos de D. Giussani e até mesmo a prática do Movimento, tentando o mais possível fazer transcrições textuais. Quando não, colocar meu próprio testemunho do que vi e ouvi, certo de que poderá ser confirmado.

 

Sobre o Senso Religioso

Quase tudo que D. Giussani vai começar a expor ou explicar sempre começa por retomar do senso religioso, seja para falar do trabalho, seja de política, de obras sociais ou de educação. Na sua obra mais importante, didática e sistemática, o conjunto dos volumes do PerCurso, D. Giussani prepara extensamente o caminho, falando do senso religioso. Começa sua abordagem fazendo importantes premissas, citadas mais vezes do que todo o conjunto da obra, por conter os elementos principais do que ensina ser o senso religioso. Na experiência das Escolas de Comunidade também o senso religioso e as três premissas assumem papel preponderante. Eu chamaria o senso religioso de o superdogma [7] do Movimento, de tão preponderante que é em relação a tudo o mais que é ensinado. Razoável é começar a expor por este assunto.

“Que tipo de fenômeno é a experiência religiosa? É um fenômeno que diz respeito ao ser humano. […] Em se tratando, pois, de um fenômeno que se passa em mim, que interessa à minha consciência e ao meu eu como pessoa, é sobre mim mesmo que devo refletir. […] depois de termos conduzido uma investigação existencial, é necessário saber emitir um juízo acerca dos resultados de tal investigação sobre nós mesmos. […] Perguntemo-nos então: qual é o critério que nos permite julgar aquilo que vemos acontecer em nós mesmos? […] O critério para julgar essa reflexão sobre a própria humanidade deve, portanto, ser algoimanente à estrutura originária da pessoa. […] Todas as experiência de minha humanidade e de minha personalidade passam pelo crivo de uma “experiência original”, primordial, que constitui o meu rosto ao confrontar-me com tudo”. […] Em que consiste esta experiência original, elementar? Trata-se de um conjunto de exigências e evidências com as quais o homem é lançado no confronto com tudo o que existe, […] A natureza lança o homem na comparação universal consigo mesmo, com os outros e com as coisas, dotando-o – como instrumento de tal confronto universal – de um conjunto de evidências e exigências originais, tão originais que tudo o que o homem diz ou faz depende delas. […] A elas podem ser dados muitos nomes, através de diversas expressões,como: exigência de felicidade, exigência de verdade, exigência de justiça, etc.”. (Senso Religioso, p.24)

Eu diria que este texto é o mais representativo do que D. Giussani tem como certo e básico do que tem insistentemente ensinado há tantos anos no Movimento. De tão importante, esta introdução à sua doutrina se repete em várias de suas obras, como mostraremos a seguir. Importa indicar o que a Pascendi comenta dos mesmos termos:

“[…] todo o fundamento da filosofia religiosa dos modernistas assenta sobre a doutrina, que chamamos agnosticismo. Por força desta doutrina, a razão humana fica inteiramente reduzida à consideração dosfenômenos, isto é, só das coisas perceptíveis e pelo modo como são perceptíveis”. (Pascendi).

Não estou dizendo aqui que D. Giussani é agnóstico, como já expliquei antes. Estou dizendo que este modo de expressar é o do agnosticismo modernista e D. Giussani utiliza linguagem semelhante, compartilhando certamente este aspecto. É claro que isto não basta para alguém ser classificado agnóstico ou modernista.

“[…] Este agnosticismo, porém, na doutrina dos modernistas, não constitui senão a parte negativa; a positiva acha-se toda na imanência vital. Eis aqui o modo como eles passam de uma parte a outra. A religião, quer a natural quer a sobrenatural, é mister seja explicada como qualquer outro fato (ou fenômeno)”. […] é claro que se não pode procurar fora do homem essa explicação. Deve-se, pois, procurar no mesmo homem; e visto que a religião não é de fato senão uma forma da vida, a sua explicação se deve achar mesmo na vida do homem. Daqui procede o princípio da imanência religiosa”. (Pascendi).

Esta descrição da Pascendi sobre a doutrina modernista passando do princípio do agnosticismo (parte negativa da doutrina) para o princípio da imanência vital (parte positiva), afirmando esta que então se deve procurar no homem a explicação é passo-a-passo o que D. Giussani explica, ou seja, que o critério de juízo para julgar a experiência (ou fenômeno) religioso nos é dado com a própria natureza do homem, “imanente à estrutura originária da pessoa”, como citado acima.

“Ademais, a primeira moção, por assim dizer, de todo fenômeno vital, deve sempre ser atribuída a uma necessidade; os primórdios, porém, falando mais especialmente da vida, devem ser atribuídos a ummovimento do coração, que se chama sentimento”. (Pascendi)

São exatamente os termos que D. Giussani utiliza. Necessidade é o mesmo que exigência. Exigências do coração do homem, diria D. Giussani, dando o nome de senso religioso o que na Pascendi é o sentimento religioso. D. Giussani no passado criticou muito o sentimentalismo, embora eu não disponha de material para indicar as fontes. Posteriormente, ele mitigou a crítica, pois esta estava sendo entendida e extendida a tudo quanto fosse sentimento humano, como se na religião não pudesse nunca entrar o sentimento. Como a fé católica “não esquece nada, não renega nada do que é humano” (palavras de D. Giussani, citadas livremente), pelo contrário, “leva em conta a totalidade dos fatores do humano” (idem), e no Senso Religioso ele explica que a emoção ou sentimento, colocado no seu justo lugar, é como uma lente que aproxima adequadamente o objeto para que o intelecto o possa compreender, as críticas ao sentimentalismo foram bastante moderadas. Uma certa vez, em conversas como o pessoal do Grupo Adulto, ele teria respondido a uma pergunta de alguém identificando com todas as letras que “senso religioso e sentimento religioso” é a mesma coisa”. Infelizmente, não tenho o texto contendo esta passagem para citá-lo, mas sei que li.

“O sentimento religioso, que por imanência vital surge dos esconderijos da subconsciência (coração?), é pois o gérmen de toda a religião e a razão de tudo o que tem havido e haverá ainda em qualquer religião” (Pascendi, sobre o modernismo).

Não é exatamente o que D. Giusasni ensina sobre como nascem as religiões, não excetuando a católica? Vale ressaltar à parte que nem todas as conseqüências da doutrina modernista são encontradas em D. Giussani e no Movimento. As explicações sobre transfiguração e desfiguração dos fatos “ditos” históricos pela fé católica são características da Teologia da Libertação [8]. D. Giussani afirma que “o imperativo cristão é que o conteúdo de sua mensagem se apresenta como um fato. Nunca será demais refrisar isto.” (Na Origem da Pretensão Cristã, p.50). E de fato, nunca é demais refrisar, pois D. Giussani afirma inúmeras vezes isto, o fato que o cristianismo é um fato. Este ponto é particularmente importante, pois ele usa este argumento para refutar a plausível alegação protestante, cambaleante entre o subjetivismo sentimentalista e o racionalismo, o que tornaria possível diferenciar, então, o senso religioso do sentimento religioso atribuídos aos protestantes, criticado como sentimentalismo, como se a religião fosse o sentir alegria na exaltação de bater palmas e cantar nas celebrações e o chorar de emoção nessas situações. Mas voltando ao elogio que estou tecendo a D. Giussani, conseqüência da profunda compreensão que ele tem de que o cristianismo é um fato, em certo ponto do PerCurso, ao explicar sobre as religiões conclui que:

“todas as religiões são verdadeiras, no sentido que expressam o nobre esforço racional, moral e estético do homem, e que este, levado pelas exigências de sua humanidade, deve fazer este esforço de modo a ter uma religião. Vimos no capítulo anterior que a exigência de uma revelação está na raiz desta tentativa, e isto vale para as mais diversas experiências religiosas. Se há um delito que uma religião pode realizar na liberdade e na pluriformidade das tentativas e das mensagens é dizer eu sou A religião, o único caminho. É exatamente isto que o cristianismo pretende. […] Consequentemente, não é injusto sentir repugnância diante desta afirmação; injusto seria não perguntar o porquê dessa afirmação, o motivo dessa grande pretensão” [9].

E ao desenrolar do livro apresenta o surgimento do cristianismo como um fato, testemunhado, apresentando Jesus Cristo tal como ele mesmo se apresentou. E Jesus revela-se como Deus. Esta é a diferença entre o pensamento de D. Giussani e o modernismo. Para D. Giussani, o cristianismo é um fato, Jesus existiu, fez milagres verdadeiros, ressuscitou e revelou-se como Deus. Não é à toa que este livro foi o que mais li de D. Giussani, dezenas de vezes.

Mas, não obstante este elogio, tenho uma ressalva quanto à insistência que o cristianismo é um fato. São Gregório, citando São Paulo, diz que a fé versa sobre as coisas que não se vêem (Hb 11,1) [10]. Nosso Senhor pergunta a Tomé “Acreditaste por que me viste?”,após este ter exclamado “Meu Senhor e meu Deus!” (Jo 20, 24-29), chamando bem-aventurados os que creram sem ter visto. Ora, este Santo Padre nos ensina que São Tomé, “vendo um verdadeiro homem, proclamou que ele era Deus, a quem não podia ver”, pois na ressurreição não era necessário acreditar, uma vez que com seu toque nas chagas evidentemente constatava. De modo que, como a Igreja sempre ensinou, a fé é uma virtude infusa sobrenatural e quem a recebe foi, de fato, eleito por Deus, por Sua misericórdia. A insistência que o cristianismo é um fato pode acrescentar que o ser humano, dotado de condições morais intelectuais, é capaz de reconhecer com a luz da própria inteligência a “evidência” de que Jesus Cristo é o Senhor e nosso Deus. Isto destruiria a ordem sobrenatural à qual pertence o dom da fé e, [talvez, porque não sou teólogo] por conseguinte, o mistério da eleição por parte de Deus. Por isto, a Pascendi condena com relação à persuasão baseada no sentimento religioso:

Eis como eles [os modernistas] o declaram: no sentimento religioso deve reconhecer-se uma espécie deintuição do coração, que pôs o homem em contato imediato com a própria realidade de Deus e lhe infunde tal persuasão da existência dele e da sua ação, tanto dentro como fora do homem, que excede a força de qualquer persuasão, que a ciência possa adquirir. Afirmam, portanto, uma verdadeira experiência, capaz de vencer qualquer experiência racional; e se esta for negada por alguém, como pelos racionalistas, dizem que isto sucede porque estes não querem pôr-se nas condições morais que são necessárias para consegui-la. Ora, tal experiência é a que faz própria e verdadeiramente crente a todo aquele que a conseguir. Quanto vai dessa à doutrina católica!

Esta ressalva parece ser especialmente adequada ao capítulo III do Senso Religioso: a incidência da moralidade sobre a dinâmica do conhecimento, o que acrescenta mais um paralelo entre o pensamento de D. Giussani e a doutrina modernista, embora não seja uma límpida demonstração.

Retomando o senso religioso, não está ainda demonstrado que este corresponde exatamente ao que aPascendi condena como sendo o sentimento religioso, apesar de o paralelo entre como nasce a experiência religiosa e a imanência vital. D. Giussani abre uma nova perspectiva para encarar o senso religioso quando o identifica ao que a Bíblia diria “o coração” do homem. De fato, D. Giussani ensina várias vezes sobre as exigências originais do coração como sendo o próprio senso religioso.

“[…] Mas, indubitavelmente, quando disserem eu usarão tal expressão também para indicar uma face interior, um “coração”, como diria a Bíblia, que é igual para cada um deles, embora traduzido das mais diversas maneiras. Identifico neste coração aquilo que chamei de experiência elementar: algo que tende a indicar de maneira acabada o ímpeto original com o qual o ser humano se lança na realidade de um projeto que imprima à realidade a imagem ideal que o estimula interiormente”.

É necessária aqui uma exegese bíblica da palavra coração, pois D. Giussani afirma a identidade entre coração e experiência elementar em praticamente todos os seus textos que explicam o senso religioso. Ensinando sobre a unidade de corpo e alma da pessoa, o Catecismo diz:

A tradição espiritual da Igreja insiste também no coração, no sentido bíblico de “fundo do ser” (Jr 31,33), onde a pessoa se decide ou não por Deus. (Catecismo da Igreja Católica, 368).

De onde vem a oração humana? Qualquer que seja a linguagem da oração (gestos, palavras), é o homem todo que reza. Mas para designar o lugar onde brota a oração, as Escrituras falam às vezes da alma ou do espírito, geralmente do coração (mais de mil vezes). É o coração que reza. Se ele está longe de Deus, a expressão da oração é vã. (Catecismo da Igreja Católica, 2562).

O coração é a casa em que estou, onde moro (segundo a expressão semítica ou bíblica: aonde eu “desço”). Ele é o nosso centro escondido, inatingível pela razão e por outra pessoa; só Espírito de Deus pode sondá-lo e conhecê-lo. Ele é o lugar da decisão, no mais profundo de nossas tendências psíquicas. É o lugar da verdade, onde escolhemos a vida ou a morte. É o lugar do encontro, pois, à imagem de Deus, vivemos em relação; é o lugar da Aliança. (Catecismo da Igreja Católica, 2563).

O Decálogo contém uma expressão privilegiada da “lei natural”:
Desde o começo, Deus enraizara no coração dos homens os preceitos da lei natural. Inicialmente, Ele se contentou em lhos recordar. Foi o Decálogo (Sto. Irineu, Ad haer. 4,15,1., apud Catecismo da Igreja Católica, 2070).

As paixões são componentes naturais do psiquismo humano; constituem o lugar de passagem e garantem a ligação entre a vida sensível e a vida do espírito. Nosso Senhor indica o coração do homem como a fonte de onde brota o movimento das paixões. (Catecismo da Igreja Católica, 1764).

Pelo que entendi, o coração do homem é a sua própria alma, com suas potências inteligência e vontade. Assim, conforme o último parágrafo, a alma humana produz paixões. Paixão é um termo preciso desde a escolástica, pelo menos. São onze as paixões da alma: alegria, tristeza, amor, ódio, desejo (ou concupiscência), aversão (o oposto do desejo), que são paixões do apetite concupiscível, ou seja, do apetite humano pelos bens fáceis ou deleitáveis (que dão prazer); esperança, desespero, medo, coragem e raiva, que são paixões do apetite irascível,ou seja, do apetite humano pelos bens difíceis ou árduos. Não existe consenso absoluto em torno das palavras, muito menos pela psicologia moderna. Mais comumente, paixão é sinônimo de emoção, movimento mais repentino da sensibilidade, ocorrendo sempre com modificação orgânica (cor da pele, tremor, suor, etc.) e menos rica de elementos simbólicos ou imagens. Já sentimento é a emoção que perdura, muitas vezes diferente da emoção inicial e mais rica de elementos representativos [11].

Existe ainda um extenso estudo etimológico da palavra coração em artigo publicado no sitehttp://www.hottopos.com/rih6/jean.htm, do prof. Jean Lauand, com certeza bem menos autorizado que o catecismo da Igreja, mostrando, segundo entendi, que coração é mais sinônimo de emoção ou sentimento.

Interessa-nos a explicação do catecismo do significado bíblico, em que o coração significa “fundo do ser” e mais propriamente sinônimo, na maior parte das vezes, de alma humana. Não se há de negar que o senso comum muitas vezes toma a palavra coração como o “órgão” das emoções humanas. Portanto, D. Giussani, que preza pelo verdadeiro significado das palavras, deve ter tomado a palavra coração em seu sentido mais próprio e rico de significado cristão, que é o sentido bíblico.

Tenho uma ressalva quanto a identificar o senso religioso com o coração, pois D. Giussani nos ensina a utilizar o coração de muitas maneiras, como nunca vi a Sagrada Escritura ou a tradição da Igreja ensinar, como por exemplo para julgar tudo, toda a realidade, comparar tudo com o coração. Parece-me extrapolar em muito o sentido absolutamente espiritual do “órgão” chamado coração, de onde brotam nossas orações, o lugar da Aliança com Deus (c.f.), e, conforme nossa decisão no mais profundo lugar da verdade, de onde brotam as paixões. Portanto, na Bíblia, coração, não é o “lugar” das paixões (sinônimo de emoções), como na explicação do prof. Lauand e conforme o senso comum, mas sim a decisão profunda e original por Deusou contra, que incide, isto sim, em todo e qualquer impacto com a realidade, principalmente no encontro com Ele, daí a advertência de Nosso Senhor, que enxerga sempre o que há no coração do homem ao chamá-lo.

É fato que D. Giussani identifica o senso religioso com o coração:

“Quando escutando uma palavra, o coração diz espontaneamente: “É verdadeiro!”? Quando aquilo que alguém falou corresponde ao coração. Poderíamos nos perguntar o que quer dizer coração. [citando um professor] “…porque a educação é puxar para fora tudo de original que existe no homem”. Este é o coração, aquela originalidade que forma o próprio homem. Algo de original, no sentido cronológico, biológico, psicológico, espiritual, do qual consegue a identidade, do qual deriva a personalidade”. (“O que é verdadeiro”, São Paulo, 1987).

“Se alguém gosta de Chopin, esta é uma originalidade que marca uma identidade. Mas é porque ele tem sensibilidade, pela qual a música de Chopin desperta nele algumas correspondências”. (idem, p.2)

“O que vou dar em troca de mim? Não há tema mais humano do que este. Aliás, nenhum tema é humano se não for sustentado por este. E não há nada de humano se atrás dele não estiver a palavra eu, ou então tu, que não se identifica com nada daquilo que uma pessoa pensa, fala ou gosta, mas sustenta tudo,é expressado em tudo. […] Quanto mais vou para frente, tanto mais estou pensando quase só nisto, porque é a única coisa que me faz sentir humano em todos os relacionamento,e que me faz gostar até do capim que o vento dobra. […] “Como você faz para olhar assim?” – eu não responderia a ninguém como responderia agora – “É que eu sinto eu.”. (idem, p.2)

No primeiro texto, D. giussani aproxima o conteúdo da palavra coração à função de identificar o que é verdadeiro. Mas em seguida, desde a sensibilidade a Chopin até a afirmação completa “Eu sinto o eu” D. Giussani aproxima o senso religioso, ou coração como ele mesmo diz, de sentimento. Aliás, “correspondência” outra coisa não é. Em seguida, o mesmo texto aborda seu tema central, que é o homem diante do poder.

Diante do poder, manter vivo o desejo original do homem. O desejo original do homem é a substância, a essência do eu. (idem, p.2)

D. Giussani aqui, como em muitos outros lugares, torna idêntica a exigência original com o desejo. Aliás, o tema do desejo é amplo e atravessa as décadas. Temos até retiros inteiros para demonstrar isso, mas caminhemos devagar. Por enquanto, basta saber que desejo é paixão da alma e isto é emoção ou sentimento.

D. Giussani realiza uma assembléia para explicar esses parágrafos anteriores. Afirma:

“Quando uma pessoa fala eu, na sua pureza essencial, original, eu é sede de justiça, felicidade, amor e beleza e é uma sede infinita. […] A Bíblia chama de coração a essência desse eu que é sede do Infinito. (idem, p.9)

Quero citar mais este texto do mesmo livro, pois sempre que D. Giussani fala sobre este tema, fica com sabor até de panteísmo. Sobre o panteísmo, não pretendo fazer uma demonstração, mas devo reforçar oparalelo, que a Pascendi chama de “ressaibos”, mesmo ele dizendo que panteístas são os japoneses:

“Quando fui para o Japão para fazer aquela conferência, eu não sabia por onde começar, porque todos eram budistas. Então comecei pela idéia de harmonia universal, que a idéia cosmológica fundamental deles, a imagem que eles têm da realidade. Com efeito, os japoneses têm um culto pela forma em todos os seus detalhes, que vem da idéia de que, no fundo, divino é a realidade inteira, e por isto, uma folha, uma flor, a limpeza, tudo é parte desta realidade, desta divindade. Depois de ter citado esta harmonia das coisas, de repente falei: esta grande harmonia tem uma voz, que pode ser ouvida. Qual é? O coração do homem. Esta harmonia universal ecoa, ressoa dentro do eu. É aquilo que a Bíblia chama de coração. Esta é a voz do universo. Não é preciso ler nada, não é preciso saber nada. Aliás, se uma pessoa lê, fala discute, não se torna escravo, alienado na idéia do outro, mas valoriza tudo somente se sabe confrontar aquilo que lê, aquilo que ouve com o seu coração, porque é o seu coração quem julga. O critério da harmonia, da beleza e da felicidade aparece no coração.

Note bem, D. Giussani nega o panteísmo:

“É impressionante como o muçulmano concebe o paraíso, como a projeção da satisfação das necessidades mais banais desta terra. Quando o próprio muçulmano se distancia desta fantasia imaginativa, ele cai numa outra fantasia imaginativa, a mais difundida no pensamento humano, que é o panteísmo, que é também, como já o dissemos, o modo de olhar o mundo próprio do budismo.

Voltando ao tema do desejo e do coração, podemos ler no Eu, o Poder e as Obras. Um jornalista pergunta e D. Giussani responde:

Por que o senhor pôs o desejo no centro da reflexão sobre o poder? A política é um negócio que diz respeito ao homem. Mas o que é fundamental no homem? […] No entanto, o que é fundamental no homem é o que eu chamo de desejo. O desejo é como uma fagulha que acende o motor. Todos os movimentoshumanos nascem desse fenômeno, desse dinamismo constitutivo do homem. O desejo acende o motor do homem; e então ele se põe a buscar o pão e a água, o trabalho, a mulher; põe a buscar uma poltrona mais cômoda e uma morada mais decente, interessa-se por saber como é que alguns têm tanto e outros não têm nada, interessa-se por saber como é que isso justamente por força do engrandecimento, da dilatação, do amadurecimento desses estímulos (sic!) que ele possui dentro de si e que a Bíblia diria “coração”, e que eu chamaria também “razão”. E não existe razão sem que haja, de um jeito ou de outro, uma afeição que tenha sido despertada. (p.168)

Aqui ele identifica desejo com o coração e o coração com razão? Eu perdi alguma coisa? Isto sim, gera muita confusão.

Avençada a hipótese de que desejo possa ser sinônimo de apetite, um termo da escolástica bem específico, convém verificar novamente o significado das palavras.

D. Giussani, ao explicar a natureza do senso religioso, a desproporção estrutural e a tristeza, ensina que esta última corresponde no homem real a um caráter fundamental da vida consciente de si, “desejo de um bem ausente”, segundo definição de São Tomás (Summa Theologiae, I,q.20, apud S.R. p.79). Esta mesma definição encontra-se também em “Diante do poder, manter vivo o desejo original do homem”, p.35.

Na verdade, não é essa a definição de tristeza, nem de desejo, de São Tomás, que aliás nem faz sentido. O que a Summa coloca, concordando com o exposto por Marin, é:

“[…] Além disso, do lado que é formal, algumas dessas paixões implicam certa imperfeição; por exemplo, nodesejo, que é um bem não possuído; na tristeza, que é de um mal padecido”. “[…] sicut in desiderio, quod est boni non habiti; et in tristitia, quae est mali habitit.”

(Summa Theologiae, I,q.20, 1 ad 2).

Gostaria de citar mais uma página do mesmo livro:

Ora, a coisa mais interessante é que o homem é uno na realidade do seu eu. Nesse discurso, o Papa ressaltou que, na cultura, é sempre necessário considerar o homem integral, o homem todo inteiro, em toda a verdade da sua subjetividade espiritual e corporal. Não se pode sobrepor à cultura, sistema autenticamente humano, síntese esplêndida do espírito e do corpo, divisões ou oposições pré-concebidas. O que é que determina, ou seja, o que é que dá forma a essa unidade do eu? É aquele elemento dinâmico que, por meio das perguntas, das exigências fundamentais com que se exprime, guia a expressão pessoal e social do homem. Em poucas palavras, eu chamo “senso religioso” esse elemento dinâmico que, por meio das perguntas fundamentais, guia a expressão pessoal e social do homem; a forma da unidade do homem é o senso religioso. Esse fator fundamental exprime-se no homem por meio de perguntas, anseios, solicitações pessoais e sociais. No capítulo 17 dos Atos dos Apóstolos, vemos São Paulo explicar a grande e irrefreável migração dos povos como busca de Deus. O senso religioso mostra-se, pois, a raiz da qual brotam os valores. O valor, em última instância, consiste na perspectiva da relação entre algo contingente e a totalidade, o absoluto. A responsabilidade do homem, mediante todos os tipos de solicitações que lhe vêem do impacto como real, compromete-se com a resposta às perguntas que o senso religioso – a Bíblia diria coração – exprime. (p.161)

Retomando o senso religioso, D. Giussani, depois de apresentar o tema, dedica um tópico para explicar porque seu conselho de comparar tudo com “aquele núcleo de exigências originais” não torna o homem supremo tribunal (“6.   O homem, supremo tribunal?” S.R. p.26). Eis transcrito:

“Dissemos que o critério para julgar a relação consigo mesmo, com os outros, com as coisas e com o destino (lembre-se o sentido que D. Giussani dá para destino) é totalmente imanente ao homem, conforme o que lhe sugere a sua estrutura original. Mas existem na convivência humana bilhões de indivíduos que se comparam com as coisas e com o destino: como será possível evitar uma subjetivação geral? […] Não seria isto uma exaltação da anarquia, entendida como idealização do homem como supremo tribunal? […] Considero, de resto, que a anarquia, do ponto de vista antropológico, assim como o panteísmo, do ponto de vista cosmológico, constitui uma das grandes tentações do pensamento humano.

E responde ao anarquismo:

[…] É muito maior e muito mais verdadeiro amar o infinito, isto é, abraçar a realidade e o ser, em vez de afirmar a si mesmo diante de qualquer realidade.

Se houve coerência na sua linha de raciocínio, eu não entendi. Por que isto prova que o critério da experiência elementar é objetivo é não faz do homem supremo tribunal?

Ora, o infinito, o objeto do nosso amor humano, sendo a realidade e o ser. Isto é genuinamente panteísmo. D. Giussani responde ao anarquismo, mas pelo jeito não respondeu ao panteísmo. Vejamos o que diz a Pascendi:

Quanto à imanência, é na verdade difícil indicar o que pensam os modernistas, pois há entre eles diversas opiniões. (se é difícil a teólogos, imagine para um leigo…) Uns fazem-na consistir em que Deus, operando no homem, está mais intimamente no homem do que o próprio homem em si mesmo; e esta afirmação sendo bem entendida, não merece censura (veja-se S.R. p.150, p.ex., eu não me faço por mim,Eu sou “Tu-que-me-fazes”, “tam-pater-nemo”. Não merece censura necessariamente, mas D. Giussani caminha exatamente no itinerário). Pretendem outros que a ação divina é uma e a mesma com a ação da natureza, como a causa primeira com a causa segunda; e isto já destruiria a ordem sobrenatural. Outros a explicam, enfim, em um sentido que tem ressaibos de panteísmo; e estes, a falar a verdade, são mais coerentes com o restante das suas doutrinas.

D. Giussani completa a resposta sobre o homem ser ou não supremo tribunal:

“Eis porque o critério fundamental para  enfrentar as coisas é o critério objetivo (para mim, este “objetivo” ainda está por ser explicado) com o qual a natureza lança o homem na comparação universal, dotando-o daquele núcleo de exigências originais, daquela experiência elementar com que todas as mães dotam, do mesmo modo, os seus filhos. Somente aqui, nesta identidade da consciência última [ressaibo], é que se supera a anarquia [é, e se afirma o panteísmo]. A exigência da bondade, da justiça, da verdade, da felicidade, constitui o rosto último, a energia profunda com a qual os homens de todos os tempos e de todas as raças se aproximam de tudo […]”.

E conclui que, “para se tornar adulto, sem ser enganado, alienado, escravo, instrumentalizado, deve-se acostumar a comparar tudo com a experiência elementar”. Temos aqui o que D. Giussani entende porlibertação. Acho que este texto é o mais representativo do seu pensamento, inclusive justifica estar no nome do Movimento.

 

Concluindo esta parte

É uma pena que não tenha comigo aqui o “É Possível Viver Assim?”, nem meus arquivos eletrônicos de textos do Movimento, escaneados de revistas ou recebidos por email. Tem muitos textos representativos lá. Se não me engano, em uma “tichereden” (bate-papo com os Memores) ou no É Possível D. Giussani diz com todas as letras que senso religioso e sentimento religioso são a mesma coisa, mas li isso apenas uma única vez. Por outro lado, também disse que senso religioso e razão segundo a totalidade dos fatores são a mesma coisa e afirma isto milhões de vezes. Identifica o senso religioso com o “coração”, como diz a Bíblia, sendo que nesta o termo não é exato como gostaríamos. A mentalidade de hoje identifica a palavra coração com o centro emotivo do homem, e não com a razão, esta é minha opinião. Independente do que o prof. Lauand expõe. Se D. Giussani ensinasse durante mais duas vidas inteiras que o senso religioso é o coração do homem, entendido como razão como ele tantas vezes disse e que o eu para ser propriamenteeu é preciso encontrar algo que corresponda ao coração, esta correspondência, ainda que ninguém nunca dissesse este nome, seria um sentimento ou emoção. Mas não é necessário admitir este exemplo hipotético. O modo atual como o conceito do senso religioso pegou de verdade é desejo. Explorar este tema, ou melhor, este termo do mesmo tema, é ainda mais cansativo, pois não está explicado em um livro-texto minimamente didático como o Senso Religioso ou o É Possível. Está mais esparso em revistas e discursos de retiros da fraternidade. E não só nos de D. Giussani, mas também nos discursos dos padres e dos responsáveis.

Existem outros paralelos entre o pensamento de D. Giussani e as teses modernistas, mais difíceis de descrever. Ao menos este gostaria retomar, fugindo um pouco ao que me propus, que seria apenas apresentar, comparar e interpretar. Realizar um ato para o qual não tenho formação é perigoso, pois carrega algum risco de estar enganado. Se estiver, por favor, que alguém me corrija. No meio de uma linha de pensamento elaborada como exemplo, D. Giussani pergunta qual dos três professores utiliza um método que corresponde mais à experiência original, o idealista, o problematicista (cético ou sofista) ou o realista:

“É o terceiro, que revela uma posição mais razoável, porque leva em conta todos os fatores em jogo; qualquer outra metodologia recai num critério redutivo.

Repetindo: Por que corresponde mais à experiência original? Porque é mais razoável. E por que é mais razoável? Porque corresponde mais à experiência original. Se não me engano, o nome disto é petição de princípio, é um erro lógico. Justamente este sofisma causa grande confusão.

 

Epílogo

Não tenho a pretensão de esgotar este assunto, por demais complexo. Peço perdão por tratar deste assunto, muito além da atribuição de um fiel leigo sem formação adequada. Peço a compreensão dos amigos do Movimento pela orientação escolhida por este amigo caipira, depois de tantos anos sentando-me ao lado nas cadeiras das Assembléias e Escolas de Comunidade. Que não me tenham por mal agradecido nem ingrato. Guardo no coração toda uma história e muitas amizades sinceras, e acredito que a recíproca seja verdadeira. Peço, enfim, que levem em consideração a sinceridade destas palavras. Considerem que esta minha escolha, é a continuação e o desenvolvimento de uma vida de “pertença” à Igreja vivida dentro do Movimento. Eem certo ponto aproximo-me daquilo que é conhecido como tradicionalismo. Espero sinceramente que a minha particular crise de confiança no carisma proposto pelo Movimento não sirva de pedra de tropeço a tantos quantos começam por este caminho. Que aprendam do Movimento a rezar as Laudes e as outras horas, patrimônio espiritual riquíssimo que tanto se valoriza no Movimento, além das músicas da Tradição da Igreja. Que aprendam do Movimento a amar o silêncio e a oração, e principalmente a Igreja, a Tradição e a Doutrina, e o Papa, cuja obediência sempre me pareceu cara a D. Giussani, diferentemente de outros tantos movimentos. Se existem aspectos de doutrina passíveis de correção, rezemos para não um leigo ou uma outra seita qualquer, mas o Pastor Supremo confirme na Fé o seu rebanho e que pela obediência, virtude do Movimento, submetamos o nosso próprio juízo a respeito das coisas espirituais, certos da assistência do Espírito Santo sobre a Igreja.

Na Tradição da Igreja encontrei ao mesmo tempo a segurança intelectual em que posso depositar minha confiança, porque tem sempre o mesmo sotaque e o mesmo linguajar. É sabido que o Movimento possui um dialeto, um conjunto de termos e expressões, e até trejeitos na fala, que o torna reconhecível e isto é mesmo caro aos próprios membros, além de um afã por novidades. Eu, por outro lado, encontrei nas leituras do Ofício, nos escritos dos santos e nos Documentos do Magistério da Igreja o verdadeiro sotaque católico que nunca muda, que me esforço por adquirir, tanto na forma quanto no conteúdo.

Ao mesmo tempo, o que vejo, sinto, cheiro, como e toco, na Liturgia antes da reforma, é verdadeiro bálsamo para a alma, são causa de grande alegria, uma alegria cheia de paz e que permanece no tempo, não obstante as dificuldades da vida. Em tempos de tempestade, tem-se a quem recorrer por via da oração, à Santíssima Trindade, a Jesus e à Maria, aos Anjos e Santos, mas já se oferece desde já o próprio sofrimento como um agradecimento por poder participar do sofrimento de Nosso Senhor na sua Paixão.

É uma vida que transcorre lenta, não sem erros e percalços, mas na segurança de se contar sempre com um bom padre para confessar e uma boa Missa para assistir, tendo como única obrigação intelectual estrita, uma vez que leigo, estudar o Catecismo; e em tudo mais, tentar ajudar a Igreja nas suas necessidades materiais. É o que basta, tentar progredir nas virtudes e salvar a alma, e que Deus tenha misericórdia de nós em nossa hora derradeira, dando-nos a graça da perseverança final, por intercessão de Nossa Senhora.

 


[1] É uma Presença, quer dizer, Deus presente ou Jesus Cristo.

[2] “A Igreja do Deus vivo é a coluna e o sustentáculo da verdade” (1 Tm 3,15).

[3] “Homens de dura cerviz, e incircuncisos de coração e ouvido, vós sempre resistis ao Espírito Santo; como o fizeram os vossos pais, assim também vós”. (At 7,51)

[4] PASCENDI DOMINICI GREGIS, sobre as doutrinas modernistashttp://www.vatican.va/holy_father/pius_x/encyclicals/documents/hf_p-x_enc_19070908_pascendi-dominici-gregis_po.html

[5] Inserir link para a carta que conta a minha conversão.

[6] “Guardar o Depósito da Fé é missão que o Senhor confiou à sua Igreja e que ela cumpre em todos os tempos.” FIDEI DEPOSITUM, para a publicação do catecismo da Igreja Católica.
http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/apost_constitutions/documents/hf_jp-ii_apc_19921011_fidei-depositum_po.html

[7] O Papa Bento XVI utiliza a expressão superdogma em outro contexto, neologismo cujo conceito acredito ser aplicável ao Movimento e o senso religioso. “Certamente há uma mentalidade estreita que isola o Vaticano II e que provocou essa oposição [de Dom Lefebvre]. Há muitos relatos do concílio que passam a impressão de que, desde o Vaticano II em diante, tudo foi alterado, e de que aquilo que o precedeu não tem valor ou, quando muito, só tem valor à luz do Vaticano II. O concílio Vaticano II não foi tratado como parte da inteira Tradição viva da Igreja, mas como um fim da Tradição, um novo começo do zero. A verdade é que esse concílio específico não definiu nenhum dogma e deliberadamente escolheu permanecer num nível mais modesto, como um concílio meramente pastoral [‘The truth is that this particular council defined no dogma at all, and deliberately chose to remain on a modest level, as a merely pastoral council’]; e, no entanto, muitos tratam-no como se tivesse feito de si mesmo uma espécie de superdogma, que tira a importância de todo o restante. Essa idéia é fortalecida por certas coisas que agora estão acontecendo. Aquilo que antes era considerado mais santo – o modo como a liturgia foi transmitida – subitamente parece ser a mais proibida de todas as coisas, a única coisa que pode ser seguramente proibida. É intolerável criticar decisões que foram tomadas desde o concílio; por outro lado, se pessoas põem em dúvida as normas antigas, ou mesmo as grandes verdades da fé – por exemplo, a virgindade física de Maria, a Ressurreição corporal de Jesus, a imortalidade da alma, etc. – ninguém reclama, ou só o faz com a maior moderação. Eu mesmo, quando professor, vi como o mesmíssimo Bispo que, antes do concílio, demitira um professor que na verdade era irrepreensível devido a uma certa crudeza de expressão, não esteve disposto, depois do concílio, a demitir um professor que negava abertamente algumas verdades fundamentais da fé. Tudo isso leva um grande número de pessoas a se perguntar se a Igreja de hoje é de fato a mesma de ontem, ou se não a trocaram por outra coisa sem avisar ninguém.” (Cardeal Ratzinger, Discurso de 1988 ao Bispos do Chile, sublinhado nosso).
In: http://www.montfort.org.br/index.php?secao=veritas&subsecao=papa&artigo=papa_lefebvre&lang=bra

[8] Posso afirmar isto com certeza, pois respondi que a ressurreição de Cristo era um fato histórico na prova da disciplina Cristianismo, na PUC-Rio, e a professora considerou minha resposta errada, pois ela havia ensinado, segundo o livro-texto do Prof. Afonso Rúbio, que a ressurreição de Cristo é um fato meta-histórico, segundo um conceito ginástico de meta-história elaborado para não afirmar peremptoriamente coisas que não são plausíveis à inteligência agnóstica modernista, como as propriedades do corpo glorioso de Cristo, atribuídas à “fé”. Resumindo, segundo os “teólogos” da libertação, a fé cria o fato, e não o contrário. Não sei como isto continua a existir tranquilamente na PUC-Rio.

[9] Na Origem da Pretensão Cristã, p.42

[10] Ofício das Leituras, 3 de julho, Festa de São Tomé Apóstolo.

[11] Desculpem-me não citar as fontes, mas é o resumo de estudos anteriores em fontes que não possuo. Um breve texto sobre as paixões da alma encontra-se em “Teologia da perfeição cristã”, de Afonso Royo Marin, cujo resumo você pode ser lido em uma carta minha sobre um retiro da Fraternidade e o tema da esperança. De qualquer modo, a referência mais exata sobre as paixões da alma está na Suma Teológica, seção I, parte II, questões 22 e 23 (não sei citar a Suma como se deve).