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O catolicismo e a modernidade

Postado em 26-10-2009

Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa

Tive de ler alguns textos de filosofia da história de autores nada ortodoxos e fiquei admirado das conseqüências de suas reflexões sobre a visão católica do mundo. Esses autores, Hegel e Toynbee, explicam muita coisa do que vivemos hoje na crise da Igreja e ajudam-nos a prever o desenrolar dos acontecimentos, o rumo da história, salvo uma intervenção divina mudando radicalmente a direção das coisas.

O mais chocante de tudo ao ler os escritos desses autores é verificar que homens que se dizem católicos, homens com graves responsabilidades no governo da Igreja, tenham ousado aplicar na elaboração teológica idéias tão incompatíveis com o dogma, certamente conscientes de que estavam adulterando a doutrina e causando a perda da fé de milhões de católicos no mundo inteiro.

Não posso aqui apontar  passagens das obras dos teólogos modernos influenciadas por esses autores.  Confesso que não leio teólogos modernistas. Prefiro ler Balzac ou Eça de Queirós, principalmente os romances da última fase destes autores em que eles , homens de bom senso, viam que a salvação da sociedade dependia de um retorno à tradição. Mas posso deixar patente, a partir dos textos de Toynbee e Hegel, que a visível dissolução do catolicismo em sincretismo, naturalismo, religião do homem, foi algo festejado, almejado e previsto por eles.

É bem conhecida a teoria de Toynbee sobre a origem e desenvolvimento das civilizações a partir de grandes desafios arrostados pelos grupos humanos. Quando ocorre o declínio de uma civilização, o processo de renascimento só pode realizar-se mediante uma religião mais nova e mais elevada, diz o historiador inglês. Pois bem, qual o propósito do surgimento e desaparecimento das civilizações? Responde o autor que, por trás da ascensão e queda das civilizações, realizam-se desígnios divinos, quer dizer, o homem progride no conhecimento de Deus. O processo histórico global tem um significado finalístico: além de capacitar o homem a ultrapassar o estado meramente civilizado, uma religião nova mundial surgirá, à qual caberá unir o mundo numa comunidade política universal a ser em breve estruturada.

Quem não vê em tais idéias as raízes ideológicas do espírito de Assis que empurrou os católicos de hoje para um clima de indiferentismo religioso? Tudo isso está muito bem provado pelo teólogo modernista e ultraecumênico Jacques Dupuis SJ conforme análise de Dom João Evangelista Martins Terra Sj em Bento XVI –  adversus haereses. Cumpre observar que Dupuis, censurado pelo Vaticano, recusou retratação dizendo que tinha chegado às suas conclusões observando os fatos da vida da Igreja após o Vaticano II.

A influência de Hegel é enorme. É considerado um precursor do modernismo. Interessou-se muito por teologia, embora não tivesse fé. Porém, sua filosofia da história (Leituras de filosofia da história – publicação da  UNB), com a sua dialética que afirma a contribuição e a insuficiência de cada cultura para o avanço da humanidade rumo à conquista da liberdade, de tal maneira que pelo conflito interno de cada cultura se produz uma síntese dos elementos antagônicos – sua filosofia da historia explica o objetivo de muitos intelectuais católicos de hoje que sonham com uma síntese entre as inovações do Vaticano II e a tradição católica.

Além disso, o pensamento de Hegel fomenta a postura de muitos católicos que dizem que a Igreja tem de se abrir ao espírito de independência e autonomia do homem moderno, visto que a história marcha para a conquista de uma liberdade cada vez maior.

Acontece, porém, que o pensamento de Hegel encerra uma confusão de conceitos: confunde liberdade com libertação.  À luz da sua dialética é impossível falar de liberdade. O homem é arrastado pela tensão dos conflitos. Não conquista a liberdade nem a exerce de forma consciente. Num emaranhado e lodaçal das paixões e vícios – a história é o cadafalso da felicidade dos povos e das virtudes do homem, segundo Hegel – as civilizações se sucedem e os homens vão adquirindo cada vez maior liberdade: “ A razão leva as paixões a trabalhar para ela.” De maneira que na história não se verifica um esforço consciente do homem para o seu aprimoramento moral. Ou ainda: os homens podem cometer os piores crimes e, em vez de se tornarem cada vez mais escravos dos seus vícios, vão ser, ao contrário, cada vez mais livres. Eis a contradição da dialética hegeliana.

Quantos não são os católicos que dizem que a Igreja tem de acompanhar a marcha da história! Que ela perdeu para sempre sua autoridade sobre os homens! Que ela tem apenas de ser uma ferramenta para apressar o processo histórico de libertação total do homem! Não do pecado, mas dos tabus, dos preconceitos, das instituições anacrônicas! O homem é livre hoje e a Igreja ainda não se deu conta!

Tento retratar a mentalidade, a atmosfera cultural em que vivemos. O ar poluído que respiramos. Quem adere a tal mentalidade já não crê em Deus nem na imortalidade da alma, nem admite uma lei moral objetiva.

No entanto, é preciso reconhecer o perigo dessas idéias loucas para a solução dos problemas doutrinários do nosso tempo. Está no ar a idéia de que vai haver uma síntese entre a tradição e as inovações do VII. A dialética hegeliana é a isca que mordem os funâmbulos. É a cama de Procusto reservada para os tolos a serviço dos mais espertos.

Vendo a situação dos nossos dias e a influência nefasta da filosofia moderna, só podemos agradecer a Deus ter-nos dado um Pio IX com o seu Syllabus, um São Pio X com a sua Pascendi, um Pio XII com a sua Humani Generis.

Que a tradição católica, regra absoluta da nossa fé e penhor de uma civilização autêntica, saia vitoriosa desse combate, agindo com os malfeitores como Teseu fez com Procusto.

Anápolis, 26 de outubro de 2009.