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Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Chesterton e o cardeal Sarah

Postado em 25-10-2019

Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa

Li há pouco o livro O que há de errado com o mundo, de Chesterton, e desejei que alguém escrevesse um livro com o título O que há de errado com um livro de Chesterton. Li também há poucas horas uma interessante entrevista do cardeal Roberto Sarah à excelente revista francesa Valeurs Actuelles, e desejei que alguém escrevesse um livro com o sugestivo título O que há de errado com os homens da Igreja.

Na esperança de que surja um bom escritor que me satisfaça esses desejos, contento-me agora com escrever estas mal traçadas linhas para expressar o que vi de bom e de ruim na obra de Chesterton e na entrevista do referido purpurado.

Devo dizer que o livro de Chesterton me pareceu prolixo e obscuro. Diz muita coisa para tirar poucas conclusões ainda que brilhantes senão geniais. Tem 218 páginas na edição brasileira, quando poderia ter cem páginas, com benefício da clareza, da objetividade e da elegância de estilo.

O que me pareceu repugnante na obra de Chesterton, além da nebulosidade de algumas de suas páginas, foi seu entusiasmo pela revolução dita francesa. É verdade que critica alguns dos seus excessos; mas acontece que o mal da Revolução Francesa não está apenas nos seus métodos violentos, não está no seu terror, está nos seus objetivos. A Revolução Francesa podia ter como pretexto certos abusos (que chamaríamos hoje injustiças sociais), certas distorções de algumas das instituições do Antigo Regime. Se a revolução tivesse como propósito combater e abolir tais abusos, ter-se-ia concluído nas primeiras semanas; mas, na realidade, a Revolução (preparada pelas seitas secretas anticristãs) visava à destruição da ordem social tradicional, tal como se tinha consolidado ao longo dos séculos da civilização cristã, visava à derrubada do altar e do trono, visava a originar o caos do mundo moderno, como o conhecemos e sofremos hoje. Com efeito, tudo que há de errado com o mundo moderno se deve, em grande medida, à Revolução Francesa, como tudo que há de errado na Igreja de hoje decorre do Vaticano II, que representa a convocação dos estados gerais da Igreja. Portanto, nenhum católico de verdade pode nutrir uma simpatia, uma “compreensão” pelos ideais revolucionários de 1789. Como tampouco pode ser um entusiasta do Vaticano II.

Chesterton mostra-se muito ambíguo em tudo que diz sobre a Revolução, bem como em suas considerações sobre a democracia. Por outro lado, são justíssimas e muito interessantes suas críticas à aristocracia inglesa (que classifica, com razão, como uma oligarquia), apontando sua origem espúria na secularização dos bens eclesiásticos, por ocasião do cisma anglicano. Pareceram-me igualmente muito apreciáveis suas críticas ao latifúndio e sua defesa do direito de propriedade por meio da sua multiplicação.

Quanto à praga do moderno feminismo, o autor é genial nas críticas que formula ( à mulher devem conceder-se mais privilégios e não mais direitos!), é sublime na análise da psicologia feminina, e quando discorre sobre a figura da mãe de família e fala de uma de suas virtudes características (a parcimônia), demonstra uma nobreza de alma ímpar. Entretanto, ao longo de suas considerações muitas vezes se mostra nebuloso em tudo o que diz. Poderia ser mais breve, de forma que fosse mais escorreito.

Que dizer das ideias pedagógicas de Chesterton? Pareceu-me justo ele querer defender e sublinhar a autoridade do mestre e a importância da tradição na educação, mas não me pareceu bom ele insistir tanto na ideia da educação como transmissão e instrução. É equivocada a sua crítica à educação como ajuda do mestre ao discípulo para que este chegue por si mesmo a tirar suas conclusões, chegue à verdade, e aprenda. Penso que Chesterton ainda não tinha lido o De magistro de Santo Agostinho e Santo Tomás quando escreveu suas reflexões pedagógicas. Por oportuno, recordo que no Brasil o meu tio Dom Lourenço de Almeida Prado OSB escreveu uma obra muito esclarecedora a respeito, uma obra que deveria ser resgatada pelo Ministério da Educação do atual governo: Educação – ajudar a pensar, sim. Conscientizar, não (Agir, RJ, 1991). Com efeito, Chesterton não foi feliz em suas considerações pedagógicas; mesclou verdades com erros graves.

Passo agora a falar da entrevista do cardeal Roberto Sarah à revista Valleurs Actuelles. Vejamos o que há de certo e de errado.

O cardeal é corajoso e brilhante em sua crítica à atual política irresponsável da União Européia sobre a imigração. Diz com todas as letras que se trata de uma perigosa invasão, que compromete gravemente a identidade cultural do velho continente. O cardeal recorda a missão providencial da Europa na obra de evangelização do mundo inteiro. Encoraja os católicos a preservar sua identidade espiritual, dizendo que primeiro devem defender sua fé, sua nação, suas tradições regionais e, por fim, a união do continente. União Européia não pode significar o fim das antigas nações.

Refiro-me agora ao que me pareceu censurável na entrevista do ilustre cardeal. O prefeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos não se acanha em dizer que há padres, bispos e cardeais que têm medo de proclamar o que Deus ensina e de transmitir a doutrina da Igreja; que eles têm medo de ser desaprovados, de ser vistos como reacionários; então preferem dizer coisas vãs, vagas, imprecisas, para escapar a toda a crítica, e abraçam a evolução estúpida do mundo. O cardeal diz que isto é uma traição.

Estou de acordo, Eminência. Mas há uma grave lacuna em suas palavras. Vossa Eminência sabe perfeitamente, mas não diz, que a atitude de abertura ao mundo, o desejo de abraçar a “evolução estúpida do mundo” vem de longe, data dos tempos do Vaticano II, com sua Gaudium et spes e sua Dignitatis Humanae. Há quase sessenta anos atrás houve uma abertura à democracia laica, ao ecumenismo, a colaboração com outras religiões e movimentos sociais para o bem e a paz da humanidade. Hoje, sob Francisco, ocorre uma  abertura a todos os movimentos que lutam pela extensão dos direitos civis às comunidades LGBT. Uma consequência lógica e natural do que foi dito por ocasião do Vaticano II.

Depois, o cardeal ilude-se dizendo que há uma forte maioria de padres fiéis à doutrina tradicional. Como, então, explicar, Eminência Reverendíssima, a eleição folgada de Francisco Bergoglio?

Mas o pior das palavras do ilustre purpurado vem no final da sua entrevista. Não obstante reconhecer que a situação atual da Igreja é catastrófica – quase diariamente há escândalos, a Igreja está imersa nas trevas da sexta-feira santa , diz o cardeal -, diz que os papas pós-conciliares foram homens providenciais, enviados por Deus para governar a Igreja em tempos tempestuosos. Eu, ao contrário, penso que só se pode dizer que foram homens providenciais os papas pós-conciliares no sentido de que houve na eleição dos mesmos a vontade permissiva de Deus.

Além de enaltecer Paulo VI (responsável pela destruição da tradição litúrgica), João Paulo II (responsável, entre outras coisas, pela apostasia ecumênica e pelo favorecimento do mundialismo, por meio do diálogo inter-religioso), o cardeal Sarah manifesta um empolgante elogio ao bispo de Roma Francisco Bergoglio, que, segundo ele, tenta salvar o humanismo cristão.

Quer salvar o humanismo cristão. Será que li direito? Deixando de lado o conceito problemático de humanismo cristão (muito bem analisado pelo Pe. Júlio Meinvielle em De Lamennais a Maritain – cf. minha resenha disponível neste site – e pelo filósofo  espanhol Leopoldo-Eulogio Palacios em El mito de la nueva cristiandad), cumpre dizer que é inaceitável o que diz Sua Eminência. Porque, na verdade, Francisco Bergoglio quer salvar a teologia da libertação de Leonardo Boff, como João Paulo II e Bento XVI tentaram promover, para o mal das almas, la nouvelle theologie, de De Lubac, de Congar, Von Balthasar e outros, condenada por Pio XII na encíclica Humani generis de Pio XII.

A teologia da libertação representa apenas uma infiltração do comunismo nos meios católicos. O senhor cardeal só pode dizer o que disse se pensa que o marxismo é um humanismo, que pode ser batizado pela Igreja.

Por tudo isso, cabe perguntar o que há de errado com os homens da Igreja. O que há de errado é a falta de sinceridade, a falta de amor à verdade,  a falta de coerência, é o desejo de agradar mais ao superior eclesiástico do que a Deus. O que há de errado com os homens da Igreja ditos conservadores é aquilo que diz muito bem Chesterton a propósito dos membros da Câmara dos Lordes e se aplica perfeitamente a certos dignitários eclesiásticos: “O conservador moderno já não conserva; é um inovador confesso. Assim, todos os atuais defensores da Câmara dos Lordes que a descrevem como um baluarte contra o populacho são um fracasso intelectual, pois nos cinco ou seis tópicos mais turbulentos da pauta do dia a própria Câmara dos Lordes converte-se em populacho; e é probabilíssimo que se comporte como tal”. Assim também muitos dos cardeais ditos conservadores, em suas controvérsias com os tradicionalistas que recusam o Vaticano II, na verdade quando defendem esse concílio revelam-se  uns modernistas.

É verdade que o cardeal tenta no final da sua entrevista passar uma mensagem de esperança diante da situação desastrosa da Igreja dizendo que Deus não abandona jamais a sua Igreja. Mas isto não o autoriza a enganar-se nem enganar os simples fiéis. Francisco é um adepto e um defensor da teologia da libertação, o que ficou provado agora por ocasião do Sínodo da Amazônia, caso não bastasse a sua encíclica Laudato si.

Mais importante que analisar o que há de errado no estilo de Chesterton é analisar o que há de errado no estilo diplomático e demasiadamente humano dos senhores prelados. Que a Virgem Maria ilustre o coração de algum de seus filhos, a fim de que possa escrever um libelo acusatório, respeitoso, mas firme e viril, denunciando o que há de errado nos homens da da Igreja.

Anápolis, 25 de outubro de 2019.

Festa de São Crisanto e Santa Daria, mártires.