Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Para que a Mística não termine em política

Postado em 04-07-2015

[Editorial do blog “Radicati nella fede” – Ano VIII, nº 6 – Junho 2015; original italiano: < http://radicatinellafede.blogspot.it/2015/05/perche-la-mistica-non-finisca-in.html >]

Mudará alguma coisa na Igreja? Veremos o fim da crise modernista? Veremos o retorno de toda a Igreja à sua Tradição?

Humanamente deveríamos responder que não.

Há muito tempo essa crise prossegue para que seja humanamente previsível um renascimento. A presença dos católicos segundo o gosto do mundo é tão extensa, e a Tradição tão humanamente exígua, que tudo leva, de acordo com um cálculo humano, ao desânimo.

Por isso, segundo uma previsão humana, podemos dizer que não veremos o retorno à Tradição.

No entanto, nós oramos e trabalhamos todos os dias para que a Tradição volte a ser patrimônio comum de toda a Igreja. Atuamos a Tradição para isso, atuamo-la para que todos voltem a ela e a Igreja se livre do veneno modernista na sua doutrina e na sua pastoral.

Seria lógico abraçar a Tradição, passar à Missa antiga, só por gosto pessoal? Que sentido teria atuar a Tradição sem desejar que ela volte a reinar sobre toda a Igreja?

Mas esse desejo, humanamente infundado, como é que não será uma utopia?

Não será uma utopia irrealizável porque está em jogo a potência de Deus. É Deus que conduz a história, é a sua onipotência; “a Deus nenhuma coisa é impossível” [Lc 1,37].

Caríssimos, é preciso evitar a tentação do naturalismo prático, que pode reinar também naqueles que se dizem católicos segundo a Tradição.

O naturalismo prático, quando pensa nas vicissitudes da história, do mundo ou da Igreja, faz a mesma coisa, ou seja, leva em conta, principal e exclusivamente, as forças humanas em ação. Na teoria, pode ainda dizer que Deus tudo pode; mas esse poder nunca entrará na lógica das suas escolhas e ações.

É devastador, quando esse naturalismo prático entra na ação dos católicos; ele os faz agir segundo o possível humano, e não segundo o possível de Deus.

São muitos aqueles que amam a Tradição e que a percebem correspondente à verdade da fé, mas que depois agem não conforme a verdade, senão conforme o cálculo humano do possível e realizável! Dizem: “Como é verdadeira e bela a Tradição da Igreja, mas – depois acrescentam – já não se pode voltar ao seu glorioso passado; logo, sejamos prudentes e contentemo-nos com alguma coisa menor, realizável agora”. Para esses católicos, o possível e o realizável não se apoiam na Verdade de Deus, mas no factível humano.

Não há lugar para a graça nos seus cálculos; são naturalistas.

Não há lugar para Deus, não há lugar para o milagre; o qual é, na verdade, a normalidade da História.

Os católicos, aqueles verdadeiros, em dois mil anos, não pensaram nem agiram assim.

Reconheceram a Verdade de Deus, desejaram-na para a sua vida, afadigaram-se e lutaram para que o mundo a reconhecesse e acolhesse. Para isso o Cristianismo se difundiu no mundo inteiro.

Apoiaram a sua ação na verdade da graça e da onipotência de Deus, não calcularam humanamente o realizável.

Os mártires fizeram assim.

Eles, que são os santos por excelência, morreram para afirmar a verdade de Deus, confiando que um dia Deus teria completado a obra. Morreram sem ver o triunfo da fé; morreram seriamente, numa solidão habitada somente por Deus, deixando para Deus o futuro. Viveram da única preocupação séria, que é a de santificar o presente na fidelidade absoluta a Nosso Senhor Jesus Cristo.

O que dizer de todos aqueles cristãos – pensemos nos cristãos do Japão, que resistiram por séculos fiéis ao Senhor, com um pai-nosso e uma ave-maria, sem sacramentos, transmitindo a sua fé aos filhos, deixando para Deus o futuro, convictos de que um dia um missionário voltaria com os sacramentos que salvam – fiéis a Deus no presente, sem cálculo humano, deixando para Deus o êxito do seu testemunho?

Caros amigos, também nós devemos fazer assim, fiéis a Deus no presente, guardando a Tradição, que é a própria natureza do Catolicismo, e deixando para Deus o futuro. É a única posição razoável.

É aqui, numa posição radicalmente antinaturalista, convicta do poder da graça, que tem sentido e valor o nosso sacrifício, unido ao de Cristo.

A alternativa é fazer confusão: querer um pouco de Tradição, compactuando continuamente em mil conluios na igreja e em casa, consentindo com o pecado ou com o erro que nos circunda, subtraindo-nos ao sacrifício da admoestação, dizendo-nos que não podemos pretender tudo. Tantos fazem assim: um pouco de Tradição e muita concessão às modas do momento, deixando para Deus a responsabilidade do testemunho. É exatamente o contrário do que é preciso fazer: o nosso testemunho deve ser total, deixando para a graça de Deus os frutos.

É preciso não ser católicos naturalistas. O naturalista é tolo e míope, diz que crê em Deus e depois tira d’Ele o senhorio sobre a realidade e o tempo.

É preciso ser místicos, ou seja, católicos. Os místicos veem Deus à obra e partem desse ponto.

É preciso permanecer místicos, enquanto ao nosso redor a mística termina em política. Também em política eclesiástica.