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Pluralismo e paz segundo um prelado

Postado em 18-05-2013

Um ilustre prelado, considerado da ala conservadora, disse há poucos dias, a propósito da liberdade religiosa, que os católicos precisam aprender a viver em uma sociedade que se torna cada vez mais pluralista. Frisou que a consciência do valor do compromisso de estar juntos é um elemento decisivo do futuro da Europa e que o fundamentalismo, como uma corrupção da verdadeira religiosidade que ignora a interculturalidade e a interreligiosidade, é incapaz de respeitar as diferenças e  só pode desembocar no terrorismo. Ressaltou ainda sua eminência que tal postura não pode significar absolutamente uma forma de sincretismo. Certamente, na sua visão, a luta corajosa dos católicos franceses contra a lei da união civil homossexual expressa uma postura fundamentalista que não se coaduna com a sociedade pluralista de hoje.

Não obstante as ressalvas de sua eminência, creio que as palavras do insigne purpurado merecem uma respeitosa crítica. Sua declaração, parece-me, não distingue bem entre o plano dos princípios e o plano da prática, que deve ser sempre guiada pela virtude da prudência. O fato histórico e sociológico da decadência da civilização europeia que se desliga de suas raízes católicas pode, com efeito, impor aos cristãos uma situação constrangedora que os obrigue a tolerar a presença em sua sociedade de elementos e instituições indesejáveis. Mas tal situação só poderá ser tolerada enquanto não houver remédio, não poderá jamais ser considerada uma situação normal ou ideal. Pelo contrário, incumbirá sempre aos católicos o dever de trabalhar e esforçar-se com heroísmo para que tal desolação seja superada e a cidade católica possa no futuro ser reedificada, conforme o exemplo dos nossos maiores que reconquistaram a Península Ibérica e impediram que o inimigo avançasse em direção ao centro da Europa.

É uma ilusão pensar que os grandes problemas se resolvam só com base no pragmatismo. Sem um projeto, sem um ideal, sem um norte, uma sociedade se dissolve necessariamente na imoralidade e no materialismo. É o que vem ocorrendo no campo político, sobretudo após a queda do Muro de Berlim.

 Os corações de cristãos e muçulmanos na Europa nunca se unirão apenas em torno do ideal de poderem gozar juntos de um bem-estar material assegurado por um Estado laico. Sabe-se, por exemplo, que na França mais da metade da população carcerária está constituída por muçulmanos que se tornam nas penitenciárias radicais islâmicos adeptos da jihad. Como entre nós, aliás, é comum bandidos tornarem-se nas prisões fanáticos pentecostais que, depois da passagem pela prisão, fundam seitas a custa da ignorância do nosso povo. Na hipótese, porém, de os muçulmanos na Europa virem a secularizar-se à maneira dos cristãos, isto não será um penhor de que haverá paz social no velho continente. Pelo contrário, será sinal de que a decadência da civilização se aprofundará e a atual crise econômica da Europa só será um primeiro capítulo do drama. Os homens, em vez de brigar por princípios morais e religiosos, vão brigar só por dinheiro com muito mais virulência.

A verdade é que nunca houve nem haverá uma cultura completamente secular, fundada à margem de uma religião. O que vivemos hoje é apenas uma fase de transição para uma nova cultura  que terá uma alma profundamente religiosa. O que não se sabe é se será uma heresia, uma gnose ou se será a  religião revelada a plasmar a sociedade futura.

Afirmando que o Estado deve ser confessional e que as religiões falsas não têm direito ao culto público, a doutrina católica não desconhece a ordem prática da realidade social. Pode haver circunstâncias históricas que justifiquem ou mesmo obriguem que, por prudência, o mal e o erro sejam tolerados. O que não se pode, em hipótese alguma, é legitimar como um princípio o pragmatismo religioso, o qual se converteria em critério fundamental da organização social.

Realmente, um católico não pode pretender fundamentar a paz social, a ordem do Estado, no fato sociológico do pluralismo. Tal fato sociológico deve ser levado em conta na ordem prudencial, mas não se pode constituir o princípio fundamental da organização do Estado. Seria incorrer em  indiferentismo religioso. Seria querer organizar a sociedade sem a verdade e a justiça. Infelizmente, é esta idéia falsa que está levando à legalização da união civil contra a natureza. O direito já não é  expressão do bem moral tutelado pelo ordenamento jurídico do Estado, mas apenas uma técnica de harmonizar os arbítrios a fim de evitar conflitos.

Mas sobre essas falsas premissas não se construirá uma sociedade justa, não se garantirão as verdadeiras liberdades do homem. Hoje, o homem esqueceu-se de um grande ensinamento de São João Crisóstomo: “A paz exterior, muitas vezes, torna-se um mal, e não beneficia de modo algum aqueles que dela gozam.”

Os católicos liberais querem paz exterior para que todos os deuses e demônios sejam cultuados no grande panteão de democracia da ONU e do Vaticano II, querem paz para que os sodomitas tenham direito de constituir suas “famílias” amparadas pelas leis do Estado laico, querem paz para que todos vivam juntos e ninguém seja excluído. Mas Aquele que habita no céu zombará deles, e o Senhor os escarnecerá (Sl. 2).

Tudo indica que os conflitos bélicos do século XXI serão muito piores e muito mais imorais do que os do passado, porque no passado os homens tinham, bem ou mal, algum princípio que os norteava. Hoje só se luta por um poder que promova a desordem e o fim de todos os valores morais. Basta analisar o que acontece no Brasil de hoje: o católico conservador liberal Guilherme Afif Domingos, do PSD, beijando a mão da Madame Rousseff. Como dizia Tancredo Neves, entre a Bíblia e O Capital, fico com o Diário Oficial.

Asssim as coisas só podem acabar mal.

Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa

Anápolis, 18 de maio de 2013

Vigília de Pentecostes