Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Quando o marketing e a publicidade imperam na política e na religião

Postado em 27-09-2013

Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa

Entre os inúmeros e incomensuráveis defeitos e vícios que caracterizam a democracia moderna sobressai o abuso dos gastos vultosos com o marketing e a publicidade dos partidos políticos e dos seus integrantes que disputam um pleito ou tentam perpetuar-se no poder enaltecendo com a maior desfaçatez suas supostas  qualidades e obras.

Em uma sociedade bem organizada, o marketing e a publicidade devem restringir-se ao mercado, à vida econômica do país ( onde é normal que prevaleçam a concorrência e a lei da oferta e da procura), ao passo que a política se situa no plano superior das idéias, sempre informada pelas virtudes da prudência e da justiça. Os governantes, conscientes de que pretam um serviço à comunidade e renderão contas a Deus (de quem emana toda autoridade), informam à população o andamento da coisa pública e poderão valer-se da propaganda (coisa bem distinta da publicidade e do marketing) para promover e defender os valores que norteiam a nação. E a fim de obter os sufrágios e o apoio da sociedade para a realização dos projetos políticos, nas campanhas eleitorais, os homens públicos não terão necessidade de marketing, se a sociedade for virtuosa, mas promoverão uma saudável discussão de idéias.

Assim, por exemplo, no Brasil Império D. Pedro II utilizou-se da propaganda com grande sabedoria para consolidar o espírito de nacionalidade, celebrando por meio de grandes obras de arte as gestas heroicas e feitos históricos do Brasil. Em grande medida, graças a ele, temos os mais belos quadros e monumentos que retratam a formação do Brasil. Basta pensar nos quadros de Victor Meirelles e Pedro Américo: a Batalha dos Guararapes, a Batalha do Riachuelo, Independência ou Morte, a Primeira Missa do Brasil, ou ainda o Museu do Ipiranga, certamente um dos mais belos monumentos nacionais de toda a América.

Portanto, a propaganda tem um conteúdo moral, tem uma nobreza, não se reduz a uma estratégia ou artimanha para obter vantagem imediata em um determinado lance ou situação. A propaganda política reflete a consciência moral do bom governante que quer quer realmente educar e formar a população no caminho das virtudes, tendo sempre em vista os valores perenes da civilização que incumbe à autoridade politica preservar e transmitir para as gerações futuras. A propaganda difunde a verdade, enquanto a publicidade e o marketing só se ocupam de interesses rasteriros. A própria república brasileira, embora ilegítima em sua origem, não se furtou a tal regra quando  encomendou aquele belo quadro “A Pátria”, de Pedro Bruno, em que está representada uma senhora de família bordando a bandeira nacional, rodeada por seus filhos.

Acabo de ler que os governos dos companheiros Lula e Rousseff gastaram R$ 16 bilhões em publicidade para trombetear suas realizações. Quais? A enganosa transposição do Rio São Francisco onde tanto dinheiro público já se perdeu? A vinda dos médicos cubanos? A distribuição de preservativos, o incentivo ao feminismo e ao fim da família cristã e tantos outros vícios que degradam o homem? Oxalá fizesem propaganda dos valores familiares e religiosos.

Ressalte-se ainda, para distinguir propaganda e publicidade, que antes das desastrosas reformas conciliares havia a Congregação da Prapaganda da Fé, que, hoje, para adquirir um tom mais ecumênico, se chama Congregação para Evangelização dos Povos. E semelhante reforma não ficou sem consequências mais graves. Com efeito, o papa, hoje em dia, já não é mais visto como o doutor dos católicos, o vigário de Cristo que deve propagar a fé, a doutrina sagrada, mas sim como o grande comunicador de massa que se dirige a um público heterogêneo e reúne multidões em eventos espetaculares, com grande repercussão na mídia mundial. Hoje parece que há um marketing religioso com o objetivo de fazer a publicidade de uma nova religião. Onde estão as antigas missões? Onde estão os  Franciscos Xavier, os Anchietas e Nóbregas? Ou aqueles missionários redentoristas que pregavam a preparação para a morte conforme os ensinamentos de Santo Afonso Ligório? Hoje temos apenas uma religiosidade de massa que vive explorando a venda de livrinhos de autoajuda ou de CDs de músicas de um mau gosto indescritível. Não há a propaganda da doutrina, não há a verdadeira missão católica como antigamente.

Hoje parece que há uma nova interpretação (política e religiosa) do versículo 2 do salmo 104 : Annuntiate inter gentes opera eius ( Anunciai, entre as nações, as suas obras). Já não se quer mais anunciar o Verbo Eterno mas aquilo que agrada e seduz os homens. Os politiqueiros e líderes religiosos,em geral, pedem aos seus marqueteiros que anunciem entre as gentes a sua imagem, as suas grandes realizações e eventos que empolgam as massas das modernas megalópoles. É claro que o resultado dessa “mentalidade de marketing e publicidade”, que reduz tudo a produto de consumo, só desumaniza o homem e corroi os valores.

Anápolis, 27 de setembro de 2013

Festa de São Cosme e São Damião, Mártires.