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Quem foi mais daninho: Voltaire ou Rousseau?

Postado em 11-07-2014

Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa

Nos ambientes católicos tradicionalistas ouvem-se mais críticas a Voltaire que a Rousseau. Compreende-se que aquelas expressões agressivas e cheias de ódio de Voltaire contra a Igreja (écrasez l’infame) choquem profundamente a consciência católica e o tenham feito passar para a história como o protótipo do anticlerical revolucionário inimigo da Igreja. Entretanto, isso não basta para fundamentar um juízo sobre a questão em epígrafe.

Dizem os bons historiadores da filosofia que o iluminismo constituiu um movimento cultural de grande influência nos séculos XVIII e seguintes, desempenhando a tarefa, não de aprofundar as questões filosóficas, mas de vulgarizar a filosofia empirista e deísta que se tinha originado e desenvolvido sobretudo na Inglaterra. É nesse contexto histórico de popularização, “democratização” de uma filosofia que se torna a ideologia e a cultura dominantes nas instituições sociais e políticas de uma época que cumpre examinar a obra de Voltaire e Rousseau.

Sem dúvida, Rousseau foi muito mais profundo que Voltaire. Sob certos aspectos, Rousseau até se contrapõe aos traços fundamentais do Iluminismo como movimento ideológico de exaltação do progresso, da ciência e da razão. Rousseau, como se sabe, foi um precursor do romantismo, foi um pensador que queria falar mais à sensibilidade e ao coração do homem que à sua razão (Daí sua atualidade no mundo efeminado de hoje.). Foi um pensador que revolucionou a política e a educação com os seus devaneios sobre o estado de natureza, a bondade natural do homem, com o seu desprezo pelos bens históricos e culturais, enfim, com a sua utopia libertária e igualitária. Rousseau contribuiu também, e muito, para criar uma enorme confusão no campo da filosofia da religião, pretendendo impugnar a metafísica como preâmbulo da fé, separando fé e razão e reduzindo a religião ao coração humano com os seus sentimentos e emoções. Nesse sentido, o modernismo e o carismatismo pagam tributo a Rousseau.

Ao contrário, Voltaire foi um deísta (não ateu), fortemente influenciado pelos empiristas ingleses e  hostilizado por Rousseau. Notabilizou-se como um literato brilhante, mas não como um filósofo de grande capacidade especulativa. Na minha opinião, em seus ataques virulentos à Igreja como fomentadora do fanatismo, do obscurantismo e da intolerância, tinha em mira não tanto a verdadeira Igreja Católica com a sua sabedoria multissecular, não tanto a grande ciência acumulada pela filosofia perene, não tanto a patrística e a verdadeira escolástica, quanto aquela escolástica decadente que não estava à altura do embate das idéias daquele momento histórico. Voltaire confundia a Igreja com aquela excrescência da teologia em sua guerra contra o jesuitismo e o jansenismo, que não representavam exatamente a grande tradição católica.

Acresce que Voltaire não defendeu o discurso revolucionário igualitário de uma democracia direta. Preferia uma monarquia absoluta que promovesse o progresso, a ciência e irradiasse as luzes da razão.  A propósito, vale recordar que quando o perverso marquês de Pombal reformou a Universidade de Coimbra com o objetivo de equipará-la às outras universidades europeias e abrir Portugal para as conquistas das ciências do mundo moderno, não estava de todo equivocado. Está claro que foi uma injustiça e causou um grande mal a expulsão dos jesuítas de Portugal, mas ele tinha razão em não querer que a Universidade de Coimbra se limitasse a formar apenas doutores em teologia e cânones. Mais tarde, quando José Bonifácio de Andrada e Silva aí lecionou, depois de ter estudado mineralogia e outras ciências naturais em diversas academias científicas europeias, ainda encontrou dificuldade para introduzir as novas disciplinas científicas, tal era o atraso e a ignorância reinantes.

Como se vê, a influência daninha de Rousseau foi muito maior e perdura até hoje causando grandes males, gerando equívocos, corrompendo as inteligências. A educação e a religião modernas são rousseaunianas e os frutos amargos estão a vista de todos. Voltaire está sepultado, talvez no fundo do inferno, e passou para a história como um inimigo sarcástico da Igreja, mas seu escárnio da religião deve ser bem entendido.

Se no mundo de hoje surgissem um novo Voltaire e um novo Rousseau, não teríamos de temer nada do primeiro, mas toda vigilância e cautela com o segundo seria pouca. Um Voltaire hoje zombaria  de coisas ridículas como as “revelações” pentecostais (O Senhor me revelou agora que em algum lugar um cálculo renal foi expelido, o pulmão de um asmático foi sarado etc) ou das palhaçadas da missa do coco, da missa do café etc. Mas não se atreveria a atacar um católico de verdade. Já um Rousseau, a serviço de Lúcifer, a serviço daquele espírito de soberba que disse “non serviam”  iria trabalhar para a religião modernista, a religião do homem, a religião dos direitos humanos, a religião ecumênica da humanidade, apagando qualquer resquício da cultura católica tradicional. Ele, sim, seria o nosso inimigo.

Anápolis, 11 de julho de 2014.

Festa de São Pio I, papa e mártir.