Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Renunciar à política?

Postado em 04-03-2015

Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa

Na crise atual (crise religiosa, política, moral, econômica etc) os homens de bem julgam-se impotentes diante da triste realidade, sem nenhuma perspectiva de mudança ou melhoria. Muitos chegam a dizer: “Se hoje é quase um milagre um moço direito encontrar uma moça virtuosa e constituir uma boa família, que dizer então de uma reforma geral da sociedade que renove seus costumes, instituições e métodos políticos? Logo, é preferível renunciar à política.”

Quanto à participação na vida política, hoje há muita confusão originada pela democracia moderna. A mentalidade revolucionária  criou a ficção da “cidadania”, querendo obrigar todos os homens a ter uma participação ativa e igualitária no governo da cidade, sem levar em conta a hierarquia social  legítima. Daí o sufrágio universal igualitário, individualista e obrigatório. Na verdade, a atividade política do homem deve basear-se na constituição orgânica da sociedade (uma sociedade constituída de pequenas sociedades ou instituições intermediárias) e ser, assim, uma colaboração de cada membro da sociedade para o bem comum, conforme sua  situação concreta e sua possibilidade real de retribuir à sociedade o bem que esta lhe proporciona. É um absurdo o que se verifica hoje: reservar cotas para todo tipo de gente se candidatar aos cargos eletivos, afastando as pessoas (principalmente as mulheres) do seu ambiente natural onde poderiam cumprir  suas obrigações e concorrer espontaneamente para o prosperidade geral.

Hoje, quando todas as instituições estão abaladas, realmente é impossível uma atividade política que produza um efeito imediato e concreto. Não obstante, como somos naturalmente animais políticos e recebemos ainda, apesar de tudo, muitos benefícios da sociedade em que vivemos, não podemos isolar-nos completamente e viver alheios à política. Houve um pensador que disse: “Quando acaba a política começa a guerra”. Hoje a tentação é acrescentar: não sei o que é pior!

Não proponho aqui a ideia de que os católicos se organizem em agremiação e entrem no jogo político da sórdida partidocracia que nos infelicita. Proponho que procurem dar sua contribuição dentro dessa concepção orgânica de sociedade e sejam realistas, bem conscientes de que não há, nunca houve e nunca haverá condições sócio-políticas ideais, perfeitas, para que possamos ter uma atuação política em maior ou maior grau segundo a realidade de cada um. Podemos ao menos tentar exercer alguma influência, ainda que seja mediante o “direito ao voto”.

Ademais, meditando um pouco sobre a história, podemos ver como Deus sempre socorreu a sua Igreja e o seu povo por meio de homens políticos. Sem estes, que foram por assim como causas segundas pelas quais a providência age na história, dificilmente a Igreja teria saído de situações embaraçosas que ameaçavam seriamente a sua obra e continuidade. Comprova-se essa lei da providência divina desde o Antigo Testamento. Com efeito, que foram os caudilhos Moisés e os Irmãos Macabeus senão instrumentos nas mãos de Deus para ensinar a religião verdadeira, guiar o seu povo que parecia mergulhar na idolatria?

Outrossim, é digno de nota que nem sempre os homens escolhidos por Deus para desempenhar uma missão política de transcendência histórica foram impolutos e modelos de todas as virtudes. Apenas se revelaram capazes de conduzir os povos na direção correta. Basta pensar, por exemplo, em Constantino o Grande, a quem Santo Agostinho, sem incorrer nos exageros de Eusébio de Cesaréia, dá o nobre epíteto de príncipe cristão. Que teria sido da Igreja sem ele? É claro, Deus tinha outros meios para livrar a sua Igreja da perseguição, mas de fato serviu-se de Constantino. Ou ainda séculos mais tarde um Carlos Magno? Que teria sido da Igreja e da civilização sem ele?

Vale a pena ainda recordar outros exemplos para ilustrar esta verdade de que Deus não descura da política para conduzir sua Igreja nos momentos mais trágicos da história ou castiga seu povo privando-o de príncipes dignos para entregá-lo à escumalha. Quando em Constantinopla o cismático Fócio se utilizou de toda sorte de artimanha para assenhorear-se da sé patriarcal do império enganando o papa João VIII, foi o imperador Leão o filósofo quem livrou a Igreja de tal calamidade. O papa João VIII não se mostrou então à altura da gravidade do problema; pelo contrário, foi tão condescendente que gerou a lenda da papisa Joana, pois teria sido mais fraco que um eunuco. Mais tarde, quando Miguel Cerulário consumou o cisma da Igreja Grega, infelizmente não houve um imperador que socorresse a Igreja e, embora o papa fosse bom e prudente (São Leão IX), ele não conseguiu evitar a tragédia do cisma, porque certamente lhe faltou o apoio de um imperador. Reinava em Constantinopla a imperatriz Teodora.

Séculos mais tarde no Ocidente, por ocasião da pseudo-reforma luterana, que teria da Igreja se não houvesse um imperador como Carlos V, com todas as falhas e defeitos que possa ter tido? Certamente, os reveses da Igreja teriam sido muito maiores. Os meios pelos quais chegou ao trono do Sacro Império não foram nada honrosos – comprou os membros do colégio de eleitores com dinheiro tomado de empréstimo ao banqueiro Jacob Fugger, cuja família se tornaria mais tarde uma família principesca do Sacro Império -, todavia, sem dúvida, Carlos V foi um homem providencial na luta contra os hereges e os infiéis. Embora no plano concreto não tivesse conseguido realizar muita coisa, fomentou o espírito de cristandade num tempo em que as nações começavam a preocupar-se apenas em seus interesses políticos particulares.

E para remate destas reflexões sobre a história recorde-se que em tempos mais próximos de nós o imortal São Pio X considerava o Império Austro-Húngaro um elemento importante para a segurança da Igreja.

Em suma, ao eventual leitor católico destas mal traçadas linhas digo apenas que é um equívoco primário pensar que em nossos dias não se deve lutar contra o esquerdismo político difuso em todo Ocidente porque a direita seria a outra mão da mesma força política oculta, que manipularia todo o jogo de cartas marcadas pela maçonaria. É um equívoco, entre outras razões, porque a direita é um termo ambíguo que abarca ideários políticos diferentes, adaptados às circunstâncias as mais diversas. No entanto, à medida que serve de reação à anarquia promovida pelo marxismo cultural que corrompe nossa juventude a “direita” merece nosso apoio prudente.

Acrescente-se, por fim, que só sairemos da situação calamitosa em que nos encontramos quando Deus Nosso Senhor nos der um papa santo. E quando suscitar um grande estadista católico que o secunde. E se este for santo, tanto melhor. Mas não é necessário. Basta ser como um Carlos V, um General Franco e tantos outros.

Anápolis, 4 de março de 2015

Festa de São Casimiro, filho do rei da Polônia e de Isabel d’Áustria.