Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 6 ― Se fazer bem a outrem é causa de prazer.

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O sexto discute-se assim. ― Parece que fazer bem a outrem não é causa de prazer.

1. ― Pois, o prazer é causado pela consecução do bem próprio, como já foi dito1. Ora, fazer bem não concerne à consecução, mas antes, ao dispêndio do bem próprio. Logo, é antes causa de tristeza que de prazer.

2. Demais. ― O Filósofo diz, que o egoísmo é mais conatural ao homem que a prodigalidade2. Ora, a esta pertence fazer bem aos outros, e àquele é próprio deixar de o fazer. Ora, como é deleitável a ação que a cada um de nós é conatural, conforme Aristóteles3, resulta que fazer bem aos outros não é causa de prazer.

3. Demais. ― Efeitos contrários procedem de causas contrárias. Ora, certos atos, que consistem em fazer mal aos outros, são-nos naturalmente deleitáveis, como vencer, repreender ou increpar os outros; e também, para os irados, punir, conforme diz o Filósofo4. Logo, fazer bem é antes causa de tristeza que de prazer.

Mas, em contrário, diz o Filósofo que, é agradabilíssimo ser liberal para com os amigos ou estranhos e auxiliá-los5.

SOLUÇÃO. ― Fazer o bem a outrem pode ser causa de prazer, por tríplice razão. ― Primeira, por comparação com o efeito, que é o bem praticado para com outrem. E neste sentido, reputando como nosso próprio o bem de outrem, pela união do amor, deleitamo-nos com o bem que lhe fazemos, sobretudo aos amigos, como com o bem que nos é próprio. ― Segunda, por comparação com o fim; assim quando fazendo bem a outrem, esperamos conseguir um bem para nós mesmos, da parte de Deus ou dos homens; ora, a esperança é causa de prazer. ― Terceira, por comparação com um princípio tríplice. Um é a faculdade de fazer bem, pela qual se nos desperta uma certa imaginação de algum bem abundantemente existente em nós, que podemos comunicar aos outros. E por isso, nós nos deleitamos com os filhos e as próprias obras, como com aquilo ao que comunicamos o nosso bem próprio. Outro princípio é o hábito, que nos inclina a fazer bem, e que nos torna conatural esse ato; e é por isso que os liberais dão aos outros liberalmente. O terceiro é um princípio motor; assim, quando somos movidos, por quem amamos, a lhe fazer bem; pois tudo o que fazemos ou sofremos por causa de um amigo nos é deleitável, porque o amor é a principal causa do prazer.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. ― Dispender o que é nosso, enquanto manifesta o bem próprio, é deleitável. Mas, enquanto dispêndio, sobretudo imoderado, pode ser causa de tristeza.

RESPOSTA À SEGUNDA. ― A prodigalidade implica um dispêndio imoderado, que repugna à natureza; por isso se diz que ela é contra a natureza.

RESPOSTA À TERCEIRA. ― Vencer, repreender e punir não são atos deleitáveis enquanto implicam o mal de outrem, mas enquanto dizem respeito ao bem próprio, que amamos mais do que odiamos o mal de outrem. ― Assim, vencer é naturalmente agradável porque nos leva à estima da nossa própria excelência. E por isso, de todos os jogos os mais deleitáveis são aqueles em que há luta e que podem proporcionar vitória; e em geral, todas as lutas promissoras da esperança da vitória. ― Repreender e increpar pode ser, de dois modos, causa de prazer. Primeiro, porque desperta em nós a imaginação da sabedoria e da excelência própria, pois increpar e corrigir é próprio dos prudentes e mais velhos. Segundo, porque, increpando e repreendendo, fazemos bem a outrem, e isso é deleitável, como já dissemos. ― Quanto ao homem irado, é-lhe agradável o punir, porque lhe parece, assim, remover um aparente rebaixamento, proveniente de uma ofensa precedente. Porque ao ofendido lhe parece sofrer assim um rebaixamento, e por isso deseja libertar-se deste, retribuindo a ofensa. ― Por onde é claro, que fazer bem a outrem pode, em si mesmo, ser deleitável; ao passo que fazer mal aos outros não é deleitável senão enquanto o consideramos como incluindo o bem próprio.
1. Q. 32, a. 1, 5; q. 31, a. 1.
2. IV Ethic., lect. V.
3. VII Ethic., lect. XIV et X, lect. VI.
4. I Rhetor., cap. XI.
5. II Polit., lect. IV.