Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 3 ― Se o uso precede a ordem.

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O terceiro discute-se assim. ― Parece que o uso precede a ordem.

1. ― Pois, a ordem é ato da razão, que pressupõe o da vontade, como já se disse1. Ora, o uso é ato da vontade, como também já se disse2. Logo, precede a ordem.

2. Demais. ― A ordem é um dos meios, em vista do fim. Ora, o uso tem por objeto exatamente esses meios. Logo, é anterior à ordem.

3. Demais. ― O ato de toda potência movida pela vontade se chama uso, pois a vontade usa de todas as potências, como já se disse3. Ora, a ordem é um ato da razão, enquanto movida pela vontade, como também já se disse4. Logo, a ordem é uma espécie de uso. E sendo o comum anterior ao próprio, o uso é anterior à ordem.

Mas, em contrário, diz Damasceno, que o impulso para a ação precede o uso5. Ora esse impulso nasce da ordem. Logo, esta precede o uso.

SOLUÇÃO. ― O uso do meio, enquanto este é referido ao fim pela razão, precede a eleição, como já se disse6. Logo, há forçosamente de preceder à ordem. Porém o uso do meio enquanto submetido à potência executora, depende da ordem, porque o ato de quem usa é conexo com o da coisa usada; assim, ninguém usa de um bastão antes que este, de algum modo, atue. A ordem porém não é simultânea com o ato do ser ordenado; mas naturalmente, é anterior à obediência a si devida, sendo mesmo às vezes essa prioridade temporal. Por onde, é manifesto que a ordem é anterior ao uso.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — Nem todo ato da vontade precede o ato racional da ordem; mas há um que precede e é a eleição; outro que se segue e é o uso. Pois, após a determinação do conselho, juízo da razão, é que a vontade elege; depois da eleição, a razão ordena a quem deve empregar os meios escolhidos; enfim, executando a ordem da razão, a vontade põe-se a usar e essa vontade é, ora a de outrem, quando mandamos a outrem; ora, é a própria, quando ordenamos a nós mesmos.

RESPOSTA À SEGUNDA. ― Como os atos são anteriores às potências, assim os objetos, aos atos. Ora, o objeto do uso são os meios. Logo, como a ordem mesma é um meio, pode-se concluir mais acertadamente que ela é antes anterior do que posterior ao uso.

RESPOSTA À TERCEIRA. ― Assim como o ato da vontade que usa da razão, para ordenar, precede a ordem, assim também se pode dizer que esse mesmo uso da vontade precede qualquer ordem da razão, porque os atos dessas potências se refletem mutuamente uns sobre os outros.
1. Q. 17, a. 1.
2. Q. 16 a. 1.
3. Q. 16 a. 1.
4. Q. 17, a. 1.
5. II Orth. Fid., cap. XXII.
6. Q. 16 a. 1.