Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 4 ― Se o ato do homem, bom ou mau, é meritório ou demeritório perante Deus.

[ ]

(Infra, q. 114, a . 1).

O quarto discute-se assim. ― Parece que o ato do homem, bom ou mau, não é meritório nem demeritório perante Deus.

1. ― Pois, como já se disse1, o mérito e o demérito implicam relação com a recompensa de um benefício ou de um dano feito a outrem. Ora, o bom ou mau ato do homem não pode ser proveitoso nem nocivo a Deus, conforme aquilo da Escritura (Jô 25, 6-7): Se pecares, em que danarás tu a Deus? De mais disso, se obrares com justiça, que lhe darás? Logo, o ato do homem, bom ou mau, não é meritório nem demeritório perante Deus.

2. Demais. ― O instrumento em nada merece nem desmerece nas mãos de quem o usa, porque toda a sua ação é devida a este último. Ora, o homem, quando age, é instrumento da divina virtude, que principalmente o move, conforme a Escritura comparando, manifestamente, o homem agente com um instrumento (Is 10, 15): Acaso gloriar-se-á o machado contra o que corta com ele? Ou levantar-se-á a serra contra aquele por quem é posta em movimento? Logo, bem ou mal agindo, o homem não merece nem desmerece perante Deus.

3. Demais. ― O ato humano é meritório ou demeritório por ter relação com outrem. Ora, nem todos os atos humanos se ordenam a Deus. Logo, nem todos, bons ou maus, são meritórios ou demeritórios perante Deus.

Mas, em contrário, diz a Escritura (Ecle. 12, 14): E de tudo quanto se comete fará Deus dar conta no seu juízo, seja boa ou má essa coisa. Ora, juízo implica retribuição relativa ao mérito ou demérito de alguém. Logo, todo ato do homem, bom ou mau, é meritório ou demeritório perante Deus.

SOLUÇÃO. ― Como já dissemos2 o ato do homem é meritório ou demeritório enquanto se ordena a outrem, em si mesmo ou como parte de uma comunidade. Ora, de ambos os modos os nossos atos são meritórios ou demeritórios perante Deus. Primeiro, quanto a Deus em si mesmo, fim último do homem; pois, devemos referir todos os nossos atos a esse fim, como antes já demonstramos3. Logo, quem faz um ato mau, não referível a Deus, não lhe conserva a honra, que é devida ao último fim. Por outro lado, em relação a toda a comunidade do universo, pois governador de toda comunidade deve precípuamente tratar do bem comum, e por isso compete-lhe retribuir ao que nessa comunidade é bem ou mal feito. Ora, Deus governa e dirige todo o universo, como estabelecemos na primeira parte4, e especialmente as criaturas racionais. Por onde é manifesto, que os atos humanos são perante ele meritórios ou demeritórios; do contrário, resultaria que não cura de tais atos.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. ― Deus, em si mesmo, não ganha nem perde nada por via de um ato humano; o homem porém na medida das suas forças, subtrai ou concede alguma coisa a Deus, conservando ou não a ordem que ele instituiu.

RESPOSTA À SEGUNDA. ― Ser o homem movido como instrumento de Deus não exclui que se mova a si mesmo pelo livre arbítrio, como do sobredito resulta5. Logo, pelo seu ato merece ou desmerece perante Deus.

RESPOSTA À TERCEIRA. ― O homem não se ordena, em si mesmo, totalmente e com tudo o que lhe pertence, à comunidade política; e por isso não há-de qualquer ato seu ser meritório e ou demeritório, em relação a essa comunidade. Mas o todo que é o homem, com tudo o que pode e tem, deve ordenar-se para Deus; donde, todo o ato humano, bom ou mau, é por essência meritório ou demeritório perante ele.
1. Q. 21, a. 3.
2. Q. 21, a. 3.
3. Q. 19, a. 10.
4. Q. 103, a. 5.
5. Q. 9, a. 6 ad 3.