Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 4 — Se Damasceno assinala convenientemente seis espécies de termo: a indolência, o pejo, a vergonha, a admiração, o estupor e a agonia.

O quarto discute-se assim. — Parece que Damasceno assinala inconvenientemente seis espécies de temor, a saber: a indolência, o pejo, a vergonha, a admiração, o estupor e a agonia1.

1. — Pois, como diz o Filósofo, o temor é relativo ao mal que contrista2. Logo, as espécies do temor devem corresponder às da tristeza. Ora, há quatro espécies de tristezas. Logo, deve haver só quatro espécies de temor, que lhes correspondam.

2. Demais — O que consiste num ato nosso depende do nosso poder. Ora, o temor é relativo ao mal que sobrepuja o nosso poder, como já dissemos3. Logo, a indolência, o pejo e a vergonha, que respeitam a nossa operação, não devem ser considerados espécies do temor.

3. Demais — O temor é relativo ao futuro, como já se disse4. Ora, a vergonha é relativa a um ato torpe cometido, como diz Gregório Nisseno (Nemésio)5. Logo, a vergonha não é uma espécie de temor.

4. Demais — Só há temor do mal. Ora, a admiração e o estupor são relativos ao que é grande e insólito, seja bem, seja mal. Logo, a admiração e o estupor não são espécie do temor.

5. Demais — Pela admiração os Filósofos são levados a inquirir a verdade, como diz Aristóteles6. Ora, o temor não leva a inquirir, mas antes a fugir. Logo, não é a admiração uma espécie de temor.

Mas, em contrário, basta a autoridade de Damasceno e de Gregório Nisseno (Nemésio).

SOLUÇÃO. — Como já dissemos7, o temor é provocado pelo mal futuro, que nos sobrepuja o poder, de modo que lhe não podemos resistir. Ora, como o bem, também o mal do homem pode ser considerado quanto à sua operação ou quanto às coisas externas.

Quanto à sua operação o homem pode temer um duplo mal. — O primeiro é o trabalho, que causa gravame à natureza; e, daí a indolência, consistente em evitar a atividade por temor do trabalho sobreexcedente. — O segundo é a torpeza, que provoca a má opinião dos outros. E assim se chama pejo à torpeza temida na comissão do ato, e vergonha quando se trata do ato torpe já cometido.

Por outro lado, o mal consistente nas coisas exteriores pode exceder, de três modos, a faculdade de resistência do homem. — Primeiro, em razão da sua grandeza, como quando nos achamos em face de um mal tão grande que não lhe podemos calcular as conseqüências. E nisto consiste a admiração. — Segundo, em razão do seu caráter insólito, i. é, quando um mal insólito se nos oferece à consideração e, por isso mesmo, nos parece grande. E nisso consiste o estupor, causado por uma imaginação insólita. — Terceiro, em razão da improvisação, i. é, quando o mal não pôde ser previsto; assim tememos os infortúnios futuros. E tal temor se chama agonia.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — As espécies de tristeza supra enumeradas8 não são relativas à diversidade de objeto, mas, aos efeitos e a certas razões especiais. Por onde, não é necessário que tais espécies correspondam às espécies do temor ora em questão, que são consideradas relativamente à divisão própria do objeto do temor.

RESPOSTA À SEGUNDA. — A ação já realizada depende do poder de quem a praticou. Mas podemos considerar algo de relativo à ação que, sobrepujando a faculdade de quem age, leva-o a desistir da ação. E neste sentido a indolência, o pejo e a vergonha se consideram espécies do temor.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Do ato pretérito podemos temer o convício ou o opróbrio futuro. E deste modo a vergonha é uma espécie de temor.

RESPOSTA À QUARTA. — Nem toda admiração e nem todo estupor são espécies de temor; mas a admiração provocada por um grande mal e o estupor causado por um mal insólito. — Ou podemos dizer que, assim como a indolência evita o trabalho da ação exterior, assim a admiração e o estupor evitam a dificuldade de encarar o que é grande e insólito, quer seja bom quer mau; por onde, deste modo, a admiração e o estupor estão para o ato do intelecto, como a indolência, para o ato exterior.

RESPOSTA À QUINTA. — Quem admira evita julgar atualmente o que admira, temendo fazê-lo deficientemente; mas inquire, no futuro. Ao passo que quem é tomado de estupor tanto teme julgar atual como futuramente. Por isso, a admiração é o princípio da reflexão filosófica, da qual, ao contrário, o estupor é um impedimento.
1. II Orthod. Fid., cap. XV.
2. II Rhetoric. (c. V).
3. Q. 41, a. 2.
4. q. 41, a. 1, 2.
5. De Nat. Hom.
6. Metaph. (lect. III).
7. Q. 41, a. 2.
8. Q. 35, a. 8.