Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 5 — Se os dons são conexos.

(III Sent., dist. XXXVI, a. 3).

O quinto discute-se assim. — Parece que os dons não são conexos.

1. — Pois, diz o Apóstolo (1 Cor 12, 8): Porque a um pelo Espírito é dada a palavra de sabedoria; a outra porém a palavra de ciência, segundo o mesmo Espírito. Ora, a sabedoria e a ciência se incluem entre os dons do Espírito Santo. Logo, esses dons são atribuídos a diversos e não tem conexão mútua, num mesmo sujeito.

2. Demais. — Agostinho diz, que muitos fiéis, embora possuam a fé, não possuem a ciência1. Ora, a fé é acompanhada por algum dom, ao menos pelo temor. Logo, os dons não estão necessariamente conexos num mesmo sujeito.

3. Demais. — Gregório diz: a sabedoria será menor se estiver privada do intelecto, e este será muito inútil, se não subsistir pela sabedoria; vil é o conselho a que falta a robustez da fortaleza; e esta será completamente destruída, se não se apoiar no conselho; a ciência será nula se não tiver a utilidade da piedade; e esta será de todo inútil, se carecer do discernimento da ciência; e também o próprio temor, sem as virtudes supra enumeradas, deixará de servir a realização de qualquer boa ação2. Por onde, podemos ter um dom sem ter os outros, Logo, os dons do Espírito Santo não são conexos.

Mas, em contrário, o que antes já havia dito Gregório: Nesse convívio de filhos, devemos perscrutar como se nutrem mutuamente3. Ora, por filhos de Jó, de que agora fala, entendem-se os dons do Espírito Santo. Logo, estes são conexos por se alimentarem uns dos outros.

SOLUÇÃO. — A verdade sobre esta questão pode facilmente presumir-se do já dito. Pois, como já dissemos4, assim como as potências apetitivas se dispõem, pelas virtudes morais, dependentemente do regime da razão, assim, todas as virtudes da alma se dispõem pelos dons, dependentemente da moção do Espírito Santo. Ora, este habita em nós pela caridade, conforme aquilo da Escritura (Rm 5, 5): a caridade de Deus está derramada em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado, assim como a nossa razão se aperfeiçoa pela prudência. Por onde, assim como as virtudes morais se ligam umas às outras por meio da prudência, assim os dons do Espírito Santo, pela caridade, de modo tal que, quem tiver tem todos os dons do Espírito, e ninguém os pode ter sem a caridade.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — Num sentido, a sabedoria e a ciência podem ser consideradas graças dadas gratuitamente; i. é, de modo tal que tenhamos tanta abundância do conhecimento das coisas divinas e humanas, que possamos instruir os fiéis e refutar os adversários. E é nesse sentido que o Apóstolo, no passo aduzido, considera a sabedoria e a ciência; sendo, por isso que, assinaladamente, se refere à palavra da sabedoria e da ciência. — Noutro sentido, essas palavras podem ser tomadas como exprimindo dons do Espírito Santo. E então, não significam senão certas perfeições da mente humana que a dispõem bem para seguir o instinto do Espírito Santo, no conhecimento das causas divinas e humanas. Por onde é claro que tais dons existem em todos os que têm caridade.

RESPOSTA À SEGUNDA. — No lugar citado, Agostinho se refere à ciência, expondo o passo aduzido do Apóstolo. E por isso, ele a toma no primeiro sentido exposto, i. é, como graça dada gratuitamente. E isso é claro pelo que acrescenta: Uma coisa é saber só o que o homem deve crer para alcançar a vida feliz, que não é senão a eterna; outra, como há de proporcioná-lo às piedosas e defendê-lo contra os ímpios, e isto é ao que o Apóstolo chama propriamente ciência.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Assim como, de um modo, a conexão das virtudes cardeais se prova por se aperfeiçoarem, de certo modo, umas às outras, como já dissemos5, assim também Gregório pretende provar a conexão dos dons por não poder um ser perfeito sem o outro. E por isso dissera antes: Cada uma das virtudes desaparecerá de todo, se não se auxiliarem todas entre si: Donde não se conclui que um dom possa existir sem os outros, mas que o intelecto não seria dom, se existisse sem a sabedoria, assim como sem a justiça, a temperança não seria virtude.
1. XIV De Trinit. (cap. I).
2. I Moral. (c. XXXII).
3. Ibidem.
4. Q. 68, a. 3.
5. Q. 65, a. 1.