Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 1 – Se a igualdade convém às Pessoas divinas.

(I Sent., dist. XIX, q. 1. a. 1).

O primeiro discute-se assim. – Parece que a igualdade não convém às pessoas divinas.

1. – Pois, a igualdade supõe a unidade quantitativa, como está claro no Filósofo1. Ora, em Deus não há nem a quantidade contínua intrínseca, chamada grandeza; nem a quantidade contínua extrínseca chamada lugar e tempo; nem a igualdade fundada na quantidade discreta, pois duas pessoas são mais que uma. Logo, às pessoas divinas não convém à igualdade.

2. Demais. – As pessoas divinas têm a mesma essência, como se disse2. Ora, a essência é expressa como forma. Ora, a conveniência pela forma não produz a igualdade, mas, a semelhança. Logo, às pessoas divinas devemos atribuir a semelhança e não a igualdade.

3. Demais. – Quaisquer seres iguais o são entre si, pois, chamamos igual ao igual ao igual. Ora, as pessoas divinas não podem se conside­rar iguais entre si. Porque, como diz Agostinho, a imagem, que perfeitamente reproduz o ser de que é imagem, deve-lhe ser igual a ele, e não, ele a ela3. Ora, imagem do Pai é o Filho, e portanto não é o Pai igual ao Filho. Logo, nas pessoas divinas não há igualdade.

4. Demais. – A igualdade é uma determi­nada relação. Ora, nenhuma relação é comum a todas as pessoas; pois, pelas relações é que as pessoas se distinguem umas das outras. Logo, a igualdade não convém às pessoas divinas.

Mas, em contrário, diz Atanásio, que as três pessoas são entre si coeternas e coiguais4.

SOLUÇÃO – É forçoso admitirmos a igualdade das pessoas divinas. Pois, segundo o Filósofo, o igual é uma quase negação do menor e do maior5. Ora, não podemos, nas pessoas di­vinas, introduzir o conceito de maior nem de menor; porque, como diz Boécio, a diferença de divindade resulta da opinião dos que a aumen­tam ou a diminuem, como os Arianos que, fazen­do variar a Trindade pelos graus dos méritos, a destroem e introduzem nela a pluralidade6. E a razão disso está em não poderem seres desiguais ter a mesma quantidade numérica. Ora, a quantidade em Deus não é senão a sua essên­cia mesma. Donde resulta, que se existisse qualquer desigualdade nas pessoas divinas, elas não teriam a mesma essência e, portanto, não constituiriam um só Deus, o que é impossível. Logo, devemos admitir a igualdade das pessoas divinas.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – Há duas sortes de quantidade. Uma a chama­da de massa ou dimensiva, só existente na ma­téria, e, portanto não nas pessoas divinas. Outra é a quantidade de virtude, assim chamada por se fundar na perfeição de uma natureza ou forma. E essa nós a designamos quando dize­mos que um corpo é mais ou menos cálido segundo tiver o calor mais ou menos perfeita­mente. Ora, esta quantidade virtual é conside­rada, primeiro, radicalmente, isto é, quanto à perfeição mesma da forma ou da natureza; e nesse sentido falamos em grandeza espiritual, como chamamos grande ao calor que o é pela sua intensidade e perfeição. Por isso, diz Agostinho, que, em coisas que não são grandes pela massa, ser maior é o ser melhor7;pois, melhor se diz o que é mais perfeito. Em segundo lugar, a quantidade é considerada virtual, pelos efeitos da forma. Ora, o primeiro efeito da forma é o ser, pois, cada coisa tem o ser pela sua forma. E o segundo efeito é a ação, pois todo agente age pela sua forma. Por onde, a quantidade virtual se funda no ser e na ação. No ser, porque as coisas de natureza mais perfeita são de maior duração. E na ação, porque as coisas de natureza mais perfeita têm maior poder de agir. E assim, como diz Agostinho8, entende-se que há igualdade no Pai, no Filho e no Espírito santo, porque nenhum deles precede pela eterni­dade, excede pela grandeza ou supera pelo poder9.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Considerada relativamente à quantidade virtual, a igualdade inclui em si a semelhança e ainda mais, porque exclui o excesso. Pois, todos os seres que comunicam pela mesma forma, podem ser chamados seme­lhantes, mesmo se participarem desigualmente dessa forma; como se se disser que o ar é semelhante ao fogo, pelo calor. Mas não se podem chamar iguais se um participar da forma mais perfeitamente que os outros. Ora, como não somente é a mesma a natureza do Pai e do Filho, mas também em ambos há igualdade perfeita, podemos dizer que o Filho é semelhante ao Pai, para excluirmos o erro de Eunômio; mas também podemos dizer que é igual, para excluir­mos o erro de Ario.

RESPOSTA À TERCEIRA. – A igualdade ou a semelhança em Deus podem ser expressas de dois modos: por nomes e por verbos. Quando expressa por nomes, dizemos que há nas pessoas divinas mútua igualdade e semelhança; porque o Filho é igual e semelhante ao Pai, e inversa­mente. E isto por não ser a essência divina mais do Pai do que do Filho. Por onde, assim como o Filho tem a grandeza do Pai, que o torna igual a este, assim o Pai tem a do Filho, que também o torna igual a ele. Mas nas criaturas, como diz Dionísio, não há conversão da igual­dade em semelhança10. Pois, as coisas causadas se dizem semelhantes às causas por terem as formas destas; não, porém, inversamente, por­que a forma está principalmente na causa e secundariamente, no causado. Os verbos, porém, significam a igualdade com movimento. E embora não haja movimento em Deus, pode ele todavia receber. Pois, pelo Filho receber do Pai o que o torna igual ao Pai, e não, inversamente, por isso dizemos que o Filho é o igual ao Pai, e não inversamente.

RESPOSTA À QUARTA. – Nas pessoas divinas não devemos considerar senão a essência em que comunicam, e as relações pelas quais se distin­guem. Mas a igualdade supõe uma e outra coisa: a distinção das pessoas, porque nada é igual a si mesmo; e a unidade de essência, pois as pessoas são iguais entre si por terem a mesma grandeza e a mesma essência. É, porém, mani­festo que uma coisa não se refere a si mesma por nenhuma relação real. E também nenhuma relação se refere a outra por qualquer ter­ceira relação. Quando, pois, dizemos que a pa­ternidade se opõe à filiação, essa oposição não é uma relação média entre a paternidade e a filiação, porque de um e outro modo a relação se multiplicaria ao infinito. Por onde, a igual­dade e a semelhança, nas pessoas divinas, não é nenhuma relação distinta das relações pessoais, mas no seu conceito incluem tanto as relações distintivas das pessoas como a unidade de essência. Por isso o Mestre das Sentenças diz, que em Deus a apelação é somente relativa11.
1. Metaphys., c. 15.
2. Q. 39, a. 2.
3. VI de Trin., c. 10.
4. In Symbolo.
5. X Metaphys., c. 5.
6. De Trin., c. 1.
7. VI de Trin., c. 8.
8. Fulgentius.
9. De Fide ad Petrum, c. 1.
10. 9 cap., de div. nom.
11. 31 dist., I Sent.