Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 4 — Se o intelecto criado pode, pelas suas potências naturais, ver a essência divina.

(Infra., q. 64, a. 1, ad 2; Ia IIae., q. 5, ª 5; II Sent., dist. IV a. 1; dist. XXIII, q.2, a. 1; IV, dist. XLIX, q. 2, a. 6; I Cont. Gent., cap. III; III, cap. XLIX, LII; De Verit., q. 8, art. 3; De Anima, a. 17, ad 10; in I Tim., cap. VI, lect. III).

O quarto discute-se assim. — Parece que o intelecto criado pode, pelas suas potências naturais, ver a essência divina.

1. — Pois, diz Dionísio: O anjo é um espírito puro, claríssimo, recebendo em si, por assim dizer, toda a beleza de Deus1 . Ora, um ser é visto quando é visto o seu espelho. Logo, como o anjo se intelige a si mesmo, pelas suas faculdades naturais, há-de inteligir também, do mesmo modo, a essência divina.

2. Demais. — O que é sumamente visível torna-se-nos menos visível por defeito da possa vista corpórea ou intelectual. Ora, o intelecto angélico não padece nenhum defeito. Logo, sendo Deus sumamente inteligível, há-de sê-lo para o anjo, e, portanto, este pode, pelas suas potências naturais, apreender outros inteligíveis, e, com maior razão, inteligir a Deus.

3. Demais. — O sentido do corpo não pode elevar-se até inteligir a substância incorpórea, que lhe está acima da natureza. Se, pois, ver a Deus em essência excede a natureza de qualquer intelecto criado, conclui-se que nenhuma pode chegar a ver a essência de Deus, o que é errôneo, como do sobredito resulta2. Logo, é natural ao intelecto criado ver a essência de Deus.

Mas, em contrário, a Escritura (Rm 6, 23): A graça de Deus é a vida eterna. Ora, esta consiste na visão da essência divina, conforme aquilo do Evangelho (Jo 17, 3): Esta é a vida eterna em que eles conheçam por um só verdadeiro Deus a ti, etc. Logo, ver a essência de Deus convém ao intelecto criado, por graça e não por natureza.

SOLUÇÃO. — É impossível ao intelecto criado ver a essência de Deus, pelas suas faculdades naturais. Pois, o conhecimento opera-se pela presença do objeto no sujeito, Ora, aquele está no segundo, conforme ao modo deste. Logo, o conhecimento de qualquer sujeito conhecente há-de ser conforme ao modo da natureza deste. Se, portanto, o modo de ser do objeto conhecido exceder o modo da natureza do sujeito, que conhece, o conhecimento desse objeto há-de, necessariamente, exceder a natureza do sujeito.

Ora, é múltiplo o modo de existir das coisas. Umas, por natureza, não têm o ser senão numa certa matéria individual, e tais são todos os seres corpóreos. Outras, e tais as substâncias incorpóreas a que chamamos anjos, são por natureza subsistentes por si mesmas, sem nenhuma matéria; contudo, não são o próprio ser mas o possuem pois, só de Deus é próprio o modo de existir, pelo qual é o seu mesmo ser subsistente.

Ora, sendo a nossa alma, pela qual conhecemos, a forma de uma determinada matéria, é-nos conatural conhecer as coisas que têm o ser só na matéria individual. A nossa alma, porém, encerra virtudes cognoscitivas de duas espécies, uma é ato de órgão corpóreo e a esta é conatural conhecer as coisas que têm o ser na matéria individual; e, por isso, os sentidos não podem conhecer senão o singular. Outra, porém, é a virtude cognoscitiva do intelecto… que não é ato de nenhum órgão corpóreo; e por isso é-nos conatural conhecer, por meio dele as naturezas que têm o ser numa determinada matéria individual, mas não como tais, senão enquanto abstrai dessa matéria pela consideração da inteligência. Por onde, pela inteligência, podemos conhecer tais coisas universalmente, o que sobrepuja a capacidade do sentido. — Ao intelecto angélico, por seu lado, é conatural conhecer as naturezas, que não existem na matéria, o que sobreleva a faculdade natural do intelecto, no estado da vida presente, em que está unida ao corpo.

Ora, de tudo isto se conclui, que conhecer o ser mesmo subsistente é conatural só ao intelecto divino e sobre-excede a faculdade natural de qualquer intelecto criado, porque nenhuma criatura é o seu próprio ser, mas o tem participadamente. — Logo, o intelecto criado não pode ver a Deus, por essência, a menos que Deus, por graça, se lhe una e se lhe torne inteligível.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — É conatural ao anjo o modo de conhecer a Deus consistente em ter o próprio anjo, em si, uma refulgente semelhança de Deus. Ora, conhecer a Deus por qualquer semelhança criada não é conhecer a essência de Deus, como acima ficou dito3. Logo, não se conclui que o anjo possa, pelas suas potências naturais, conhecer a essência de Deus.

RESPOSTA À SEGUNDA. — A inteligência do anjo não tem defeito, entendendo-se esta palavra privativamente, i. é, de modo que ao anjo falte algo do que deve ter. Tomada, porém, em sentido negativo, não há criatura que não seja deficiente comparada com Deus, pois não tem aquela excelência própria de Deus.

RESPOSTA À TERCEIRA. — A vista, sendo absolutamente material, de nenhum modo pode elevar-se ao que quer que seja de imaterial. Porém o nosso intelecto, como o angélico, elevado, de certo modo e por natureza, acima da matéria, pode ascender, pela graça, a algo de mais alto que lhe sobrepassa a natureza. E a prova é que a vista de modo nenhum conhece por abstração o que conhece concretamente; assim, de nenhum modo pode perceber uma natureza senão como individual. Porém, o nosso intelecto pode considerar abstratamente o que conhece de maneira concreta. Assim, embora conheça coisas que têm a forma realizada na matéria, contudo, decompõe o composto nas suas duas componentes e considera a forma em si mesma. Semelhantemente, o intelecto angélico, embora lhe seja conatural conhecer o ente concreto em uma natureza particular, pode contudo separá-lo pelo intelecto, conhecendo que uma coisa é ele e outra, o ser que tem. Por onde, o intelecto criado sendo capaz, por natureza, de apreender uma forma concreta e um ser concreto, abstratamente, por uma como análise resolutiva, pode também, pela graça, ser elevado, de modo que conheça a substância separada e o ser separado subsistente.
1. De div. nom., cap. IV, lect. XVIII.
2. Q. 12, a. 1.
3. Q. 12, a. 2.