Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 1 – Se o mundo é governado por alguém.

O primeiro discute–se assim. – Parece que o mundo não é governado por ninguém.

1. – Pois, são governados os seres que são movidos ou operam em vista de um fim. Ora, os seres naturais, que são a maior parte do mundo, como não conhecem o fim, não são movidos nem operam em vista dele. Logo, o mundo não é governado.

2. Demais. – São governados os seres movidos para algum termo. Ora, o mundo, tendo em si a sua estabilidade, não é movido para nada. Logo não é governado.

3. Demais. – O que tem em si a necessidade, pela qual é determinado a um só termo, não precisa de governante externo. Ora, as principais partes do mundo são determinadas, nos seus atos e movimentos, a um só termo, necessariamente. Logo, o mundo não precisa de governo.

Mas, em contrário, diz a Escritura: Tua providência ó Pai, é a que governa. E Boécio: Ó tu, que governas o mundo com perpétua razão.

SOLUÇÃO. – Alguns filósofos antigos negaram o governo do mundo, dizendo que tudo se realiza fortuitamente. Mas se demonstra a impossibilidade desta opinião, por duas razões. – Primeiro, pelo que se manifesta nos próprios seres. Pois vemos que os seres naturais realizam o melhor, sempre ou na maioria dos casos; o que não se daria se tais seres não fossem dirigidos a um fim bom, por alguma providência, o que é governar. Por onde, a mesma ordem certa das coisas demonstra manifestamente o governo do mundo; assim como quem entrasse numa casa bem ordenada, dessa mesma ordem concluiria a razão do ordenador, como diz Aristóteles (Cleantes), citado por Túlio. – Em segundo lugar, o mesmo resulta da consideração da divina bondade, da qual as coisas receberam o ser, como claramente se conclui do que já foi dito. Pois, como ser ótimo produz efeitos ótimos, repugna à suma bondade de Deus não levar as coisas produzidas até a perfeição. Ora, a perfeição última de um ser é a consecução do seu fim. Por onde, à divina bondade pertence, depois de ter dado às coisas a existência, levá–las ao fim. E isso é governar.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – De dois modos um ser é movido ou opera, em vista de um fim. De um modo, conduzindo–se a si mesmo ao fim, como o homem e as outras criaturas racionais; e tais seres conhecem a razão do fim e dos meios a ele conducentes. De outro modo se diz que um ser opera ou é movido para um fim, quando é por alguém conduzido ou dirigido para ele; assim, a seta, que não conhece o fim, é movida quando dirigida para o alvo, pelo sagifário, que o conhece. Por onde, assim como o movimento da seta para um determinado fim demonstra abertamente que ela é dirigida por alguém dotado de conhecimento; assim, o curso certo dos seres naturais, privados de conhecimento, declara manifestamente que o mundo é governado por uma razão.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Em todas as coisas criadas há algo de estável. pelo menos a matéria prima; e algo de móvel, compreendendo–se, no movimento, também a operação. E de um e outro modo, as coisas precisam de governo; pois, isso mesmo que nas coisas é estável reduzir–se–ia ao nada, donde vieram, se as mãos do governador não as conservassem, como a seguir se verá.

RESPOSTA À TERCEIRA. – A necessidade natural, inerente aos seres determinados a um termo, foi impressa neles por Deus, que dirige para o fim; assim como a necessidade pela qual a seta é levada a tender a um alvo determinado, é impressão do sagitário e não dela. Mas há diferença em que as qualidades recebidas de Deus pelas criaturas constituem a natureza delas; ao passo que, por violência é que o homem imprime nos seres naturais o que Ihes é estranho à natureza. Por onde, assim como a fatalidade da violência, no movimento da seta, demonstra a direção do sagitário: assim, a necessidade natural das criaturas demonstra o governo da providência divina.