Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 1 – Se as criaturas necessitam de ser conservadas na existência por Deus.

O primeiro discute–se assim. Parece que as criaturas não necessitam de ser conservadas na existência por Deus.

1. – Pois, o que não pode deixar de existir não necessita ser conservado na existência, assim como o que não pode morrer não o necessita, para que não morra. Ora, há certas criaturas, que por natureza, não podem deixar de existir. Logo, nem todas necessitam ser conservadas na existência por Deus. Prova da média. O que é inerente a um ser o é necessariamente, e é impossível que o oposto também o seja; assim, o binário há de necessariamente ser par e é impossível seja impar. Ora, a existência em si resulta da forma, porque um ser é atual na medida em que tem forma. Ora, como há certas criaturas que são formas subsistentes, segundo foi dito, antes, dos anjos, a essas a existência, em si, é inerente. E a mesma essência têm os seres cuja matéria é potencial em relação a uma só forma, conforme se disse antes, dos corpos celestes. Logo, tais criaturas existem por natureza necessariamente e não podem deixar de existir; pois a potência para o não ser não pode fundar–se nem na forma, de que, em si, resulta a existência; nem na matéria existente com uma forma, que não pode perder, por não ser potencial em relação a outra forma.

2. Demais. – Deus é mais poderoso que qualquer agente criado. Ora, há agentes criados que podem comunicar ao seu efeito a conservação na existência; assim, cessada a ação do construtor, a casa permanece; cessada a ação do fogo, a água permanece aquecida por algum tempo. Logo, com maior razão, Deus pode cessada a sua operação, conferir à sua criatura a conservação na existência.

3. Demais. – Nada de violento pode suceder sem alguma causa agente. Ora, não é natural, mas violento, que uma criatura tenda para o não ser, pois todas buscam naturalmente a existência. Logo, nenhuma criatura pode tender para o não ser, sem que algum agente a leve à corrupção. Mas há certos seres sem corrupção possível, como as substâncias espirituais e os corpos celestes. Logo, tais criaturas não podem tender para o não ser, mesmo tendo cessado a operação de Deus.

4. Demais. – Há de ser por alguma ação que Deus conserva as coisas na existência. Ora, qualquer ação eficaz do agente causa algum efeito. Logo, é necessário que a ação de Deus conservador cause algo, na criatura. Ora, tal não se dá. Pois, tal ação não dá a existência à criatura, porque o já existente não pode vir a existir; nem algo de acrescentado, porque então, ou Deus não conservaria a criatura continuamente na existência, ou lhe acrescentaria algo, continuamente, o que é inadmissível. Logo, as criaturas não são conservadas na existência por Deus.

Mas, em contrário, diz a Escritura: Sustentando tudo com a palavra da sua virtude.

SOLUÇÃO. – Necessário é admitir–se, tanto segundo a fé, como segundo a razão, que as criaturas são conservadas na existência por Deus. Para cuja evidência deve–se considerar que, de duplo modo um ser é conservado por outro. – De um modo, indiretamente e por acidente; assim, diz–se que conserva uma cousa quem dela remove o que a corrompe; por exemplo, diz–se que conserva uma criança quem a guarda para que não caia no fogo. E neste sentido se diz que Deus conserva, não todos os seres, mas alguns, porque certos há que não tem elementos corruptores, que necessitem ser removidos, para que sejam conservados na existência. – De outro modo se diz que um ser conserva outro, por si e diretamente, quando o conservado depende do conservador, a tal ponto que não pode existir sem este. E deste modo todas as criaturas necessitam da conservação divina. Pois, todas dependem de Deus, a tal ponto que nem por um momento poderiam subsistir, mas voltariam ao nada, se a operação divina não as conservasse na existência, como diz Gregório.

E isto pode ser compreendido do modo seguinte. Todo efeito depende da sua causa enquanto causa. Ora, devemos notar que qualquer agente é causa do seu efeito, só quanto ao vir a ser deste, e não diretamente, quanto à essência do mesmo. E isto se dá tanto com as coisas artificiais como com as naturais. Assim, o construtor é causa da casa quanto ao vir a ser desta e não, diretamente, quanto à existência dela. Porquanto, é manifesto que a forma da casa, que é composição e ordem, resulta da virtude natural de certas coisas. Pois, como o cozinheiro coze o alimento, ajudando–se da virtude natural ativa do fogo, assim o construtor faz a casa, servindo–se do cimento, das pedras e madeiras, susceptíveis e conservativas de tal composição e de tal ordem. Por onde, a existência da casa depende das naturezas dessas coisas, como o vir a ser dela depende da ação do construtor. – Ora, a essa mesma luz devemos considerar as coisas naturais. Porque, se um agente não é causa da forma, como tal, não será, por si, causa da existência resultante de tal forma, mas será causa do efeito, só quanto ao vir a ser. Mas é manifesto que se dois entes são da mesma espécie, um não pode ser, por si, causa da forma como tal do outro; porque então seria também causa da própria forma, pois arribas tem a mesma essência. Mas pode ser causa da dita forma, enquanto pertencente a uma determinada matéria, isto é, enquanto essa matéria adquire a tal forma. O que é ser causa só do vir a ser, como quando um homem gera outro e um fogo, outro fogo. E, portanto, sempre que é próprio ao efeito natural receber a impressão do agente, com a mesma essência que ela tem neste, então o vir a ser e não a existência do efeito é que depende do agente.

Mas, às vezes, não é da natureza do efeito receber a impressão do agente com a mesma essência que ela tem neste; como é patente em todos os agentes que não produzem o especificamente semelhante; assim os corpos celestes são causa da geração dos corpos inferiores, especificamente deles dissemelhantes. E tal agente pode ser causa da forma, quanto à essência de uma determinada forma e não só enquanto esta é recebida por tal matéria; sendo, portanto, causa, não só do vir a ser, mas também da existência.

Por onde, assim como o vir a ser de uma cousa não pode permanecer, cessada a ação do agente, causa do vir a ser do efeito; assim também a existência da mesma não pode permanecer, cessada a ação do agente, causa não só do vir a ser, como também da existência do efeito. E esta é a razão porque a água aquecida conserva o calmo, cessada a ação do fogo; ao passo que o ar não permanece iluminado, nem por um momento cessada a ação do sol. Pois a matéria da água é susceptível do calor do fogo do mesmo modo pelo qual ele está no fogo; e por isso, unindo–se perfeitamente com a forma do fogo conservará sempre o calor; se, porém participar algo imperfeitamente da forma do fogo, por uma como incoação, o calor não se conservará sempre, mas só temporariamente, por causa da fraca participação do princípio do calor. Ao passo que ao ar de nenhum modo é natural receber a luz, do mesmo modo pelo qual ela está no sol, de maneira que receba a forma do sol, que é o princípio da luz; e por isso, cessada a ação do sol, imediatamente cessa a luz, que se não radica no ar.

Ora, todas as criaturas estão para Deus, como o ar para o sol iluminador. Pois, assim como o sol luz por natureza, ao passo que o ar se torna luminoso participando, não da natureza, mas da luz do sol; assim, só Deus existe pela sua essência, porque esta é a sua existência; ao passo que todas as criaturas têm a existência participada, e não porque se identifique, nelas, a existência com a essência. Por onde, diz Agostinho: Se o poder governativo de Deus cessasse por algum instante nos seres criados, também cerraria imediatamente a espécie deles e toda a natureza sucumbiria, E o mesmo: Assim como o ar, com a presença da luz torna–se lúcido, assim o homem, quando Deus lhe esta presente, ilumina–se e, quando ausente, imediatamente se entenebrece.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – A existência, em si, resulta da forma da criatura, suposto, contudo o influxo de Deus. Por onde, a potência para o não ser, nas criaturas espirituais e nos corpos celestes, está antes em Deus, que pode subtrair o seu influxo, do que na forma ou na matéria de tais criaturas.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Deus não pode comunicar a nenhuma, criatura que se conserve existente, cessada a sua operação; assim como não lhe pode comunicar que não seja a causa dela. Pois, uma criatura precisa de ser conservada por Deus, na medida em que a existência do efeito depende da causa da existência. Por onde, não há símile com o agente, que não é causa do existir, mas só do vir a ser.

RESPOSTA À TERCEIRA. – A objeção procede quanto à conservação resultante da remoção do elemento corruptor: e, dessa, nem todas as criaturas necessitam, como já se disse.

RESPOSTA À QUARTA. – Deus não conserva as coisas por uma nova ação, mas continuando a ação pela qual deu a existência; e essa ação é independente do movimento e do tempo, assim como a conservação da luz, no ar, resulta do influxo continuado do sol.