Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 1 – Se a multidão e a distinção das coisas vêm de Deus.

(II Cont. Gent., cap. XXXIX usque XLV inclus.: III, cap. XCVII; De Pot., q. 3, a. 1, ad 9; art. 16; Compend. Theol., cap. LXXI, LXXII, CII, XII Metaphys., lect. II: De Causis, lect. XXIV).

O primeiro discute-se assim. – Parece que a multidão e a distinção das coisas não vêm de Deus.

1. – É natural à unidade produzir a uni­dade. Ora, Deus é maximamente um, como resulta do já provado1. Logo, não produz senão um efeito.

2. Demais. – O exemplado assemelha-se ao seu exemplar. Ora, Deus é a causa exemplar do seu efeito, como já antes se disse2. Logo, Deus, sendo único, também um só é o seu efeito e não vários.

3. Demais. – O que depende do fim ao fim se proporciona. Ora, o fim da criatura é só um, a saber, a divina bondade, como antes se demonstrou3. Logo, o efeito de Deus não é mais de um.

Mas, em contrário, diz a Escritura (Gn 1) que Deus separou a luz das trevas edividiu as águas das águas. Logo, a distinção e a multidão das coisas vêm de Deus.

SOLUÇÃO. – Vários pensaram diversamente sobre a causa da distinção das coisas.

Assim, alguns atribuíram-na à matéria só, ou de simultaneidade com um agente. À maté­ria só, como Demócrito e todos os antigos físi­cos, que só admitiam a causa material; e, de acordo com estes, a distinção das coisas provém do acaso, pelo movimento da matéria. Porém à matéria simultaneamente com um agente atri­buiu Anaxágoras a multidão das coisas, ensi­nando que o intelecto distingue as coisas, sepa­rando o que estava de mistura com a matéria. Mas esta opinião não pode se manter, por duas razões. Primeira, é que já antes se demonstrou4 ter sido também a própria matéria criada por Deus. Por onde, é necessário reduzir a uma causa mais alta a distinção que, por algum modo pertence à matéria. Segunda, que a matéria existe por causa da forma e não inversa­mente. Ora, as coisas se distinguem pelas for­mas próprias. Logo, não é a matéria que lhes dá a distinção, mas antes e inversamente, na matéria criada há deformidade para se acomo­dar às diversas formas.

Outros porém atribuíram a distinção das coisas aos agentes segundos, como Avicena5 en­sinando que Deus, inteligindo-se, produziu a inteligência primeira, na qual, não sendo a essência idêntica à existência, teve necessariamente começo a composição de potência e ato, como a seguir se verá6. Assim, pois, a primeira inteligência, inteligindo a causa primeira, produziu a inteligência segunda; inteligindo-se a si mesma, no que tem de potência, produziu o corpo do céu que ela move; por fim, inteligindo-se a si mesma, no que têm de ato, produziu a alma do céu. Mas esta opinião não pode se manter, por duas razões. Primeira, porque, como já antes se demonstrou7, só a Deus perten­cendo o criar, as coisas que não podem ser cau­sadas senão por criação são produzidas só por Deus. Ora, tais coisas são todas as que estão submetidas à geração e à corrupção. Segunda, porque, de acordo com tal posição, a universa­lidade das coisas não proviria da intenção do agente primeiro, mas do concurso de muitas causas agentes. Ora, isso é o mesmo que dizer que provêm do acaso; e assim, pois, o comple­mento do universo, consistente na diversidade das coisas, proviria do acaso, o que é impossível.

Donde o dever-se admitir que a multidão e a distinção das coisas vêm da intenção do agente primeiro, Deus. Pois, trouxe as coisas ao ser, para comunicar a sua bondade às criaturas, que a representam. E, como esta não pode ser re­presentada suficientemente por uma só criatura, produziu muitas e diversas; e assim o que falta a uma, para representar a divina bondade, é suprido por outra. Pois, a bondade, existente em Deus pura e simplesmente, bem como uniforme­mente, existe nas criaturas multíplice e dividi­damente. Por onde, com mais perfeição parti­cipa da divina bondade e a representa todo o universo do que outra criatura qualquer. – E por ser a divina sabedoria a causa da distinção das coisas, diz Moisés que as coisas são distintas pelo Verbo de Deus, que é a concepção da sabe­doria; e isso mesmo diz a Escritura (Gn 1, 3): E disse Deus: Faça-se a luz… E dividiu a luz das trevas.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – O agente natural age pela forma pela qual existe, e esta sendo só uma para cada ser, só o ser uno é que age. Porém o agente voluntário, como Deus, segundo o que já antes se viu8, age pela forma inteligida. Portanto, não repugnando à unidade e à simplicidade de Deus inteligir muitas coisas, como já vimos9, resulta que Ele, embora seja único, pode fazer muitas coisas.

RESPOSTA À SEGUNDA. – A objeção valeria quanto ao exemplado perfeitamente representa­tivo do exemplar, que se não multiplica senão materialmente; por onde a imagem incriada, que é perfeita, é só uma. Porém nenhuma cria­tura representando perfeitamente o exemplar pri­meiro, a divina essência, esta pode ser represen­tada por muitas. E contudo, chamando-se às idéias exemplares, à pluralidade das coisas corresponde na mente divina a das idéias.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Nas ciências espe­culativas, o meio da demonstração, o qual per­feitamente demonstra a conclusão, é só um; mas os meios prováveis são muitos. E semelhante­mente, nas operações, não se exige que seja mais de um o meio que leva ao fim, quando esse meio é adequado, para que assim digamos, ao fim. Mas assim não se comporta a criatura com o fim, que é Deus. Por onde, é necessário sejam elas multiplicadas.
1. Q. 11, a. 3.
2. Q. 44, a. 3.
3. Q. 44, a. 4.
4. Q. 44, a. 2.
5. Metaph., XI, IV.
6. Q. 50, a. 2, 3.
7. Q. 45, a. 5.
8. Q. 19, a. 4.
9. Q. 15, a. 2.