Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 3 – Se nas criaturas há uma ordem dos agentes.

O terceiro discute-se assim. – Parece que, nas criaturas não há ordem dos agentes.

1. – Pois, o agente que age sem interme­diário é mais perfeito que o agente por inter­mediário. Ora, Deus é agente potentíssimo. Logo, não age por intermediário e, assim, uma criatura não age sobre outra.

2. Demais. – Um agente faz, por natureza, outro ser semelhante a si. Ora, aquilo à seme­lhança do que alguma coisa se faz é o exem­plar. Se, pois, uma criatura é causa agente em relação a outra, segue-se que os seres mais dignos são os exemplares dos inferiores; opinião reprovada por Dionísio1.

3. Demais. – Agente e fim incidem na mesma espécie, como diz Aristóteles2. Se, pois, uma criatura é causa ativa de outra, será também uma a causa final da outra. O que vai con­tra a Escritura (Pr 16, 4): Tudo fez o Senhor por causa de si mesmo.

Mas, em contrário, diz o Apóstolo (Rm 13, 1): Todo homem esteja sujeito aos poderes superiores. E Dionísio diz que a lei da Divindade é reduzir a si os seres inferiores por meio dos superiores3. Logo, uma criatura age sobre outra.

SOLUÇÃO. – Alguns, opinando segundo a lei dos Mouros, ensinaram que as criaturas nenhu­ma ação têm; assim diziam que o fogo não aquece, mas Deus pelo fogo. – Ora, segundo estes, seriam em vão atribuídas às coisas as virtudes ativas, as qualidades e as formas. Por onde, deve-se dizer que a desigualdade mesma constituída nas coisas criadas pela divina sabe­doria, como já se viu4, exige que uma criatura atue sobre outra. Pois, a desigualdade das cria­turas resulta de ser mais perfeita uma do que outra. Ora, o mais perfeito está para o menos perfeito como o ato para a potência. E como é da natureza do existente em ato agir sobre o existente em potência, é necessário que uma criatura atue sobre outra. Mas assim como a criatura, pelo seu ser atual, participa de Deus, ato puro, assim também de Deus par­ticipa quanto à virtude de agir, e age por virtude de Deus como a causa segunda por virtude da causa primeira.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – Tudo o que se faz pela ação da criatura Deus pode fazer sem a criatura. Não é portanto por deficiência do seu poder que age mediante a criatura; mas por abundância da sua bondade; donde provém que não somente comunica à criatura que seja em si boa, mas ainda a digni­dade de ser causa de bondade para outras.

RESPOSTA À SEGUNDA. – É reprovada por Dionísio a opinião dos que ensinavam que cer­tas inteligências separadas são exemplares primeiros; porque o primeiro de todos os exemplares é Deus. Nada porém impede que, secundaria­mente, uma criatura seja o exemplar de outra.

RESPOSTA À TERCEIRA. – O fim último de todos os seres é Deus. Há todavia outros fins subordinados a este, enquanto uma criatura é ordenada para outra como para o seu fim; isto é, as mais imperfeitas ordenadas às mais per­feitas, como a matéria para a forma; os simples para o composto; as plantas para os animais; os animais para os homens, como se vê na Escri­tura (Gn 1). Por onde se vê, que a ordem do universo se manifesta no agir uma criatura sobre outra, no ser uma feita à semelhança de outra e no ser uma o fim de outra.
1. V cap. De div. nom. (lect. III).
2. II Phys. (lect. V).
3. Cap. V, Eccles. Hierarch.
4. Q. 47, a. 2.