Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 2 – Se a caridade é uma realidade criada na alma.

O segundo discute-se assim. – Parece que a caridade não é uma realidade criada na alma.

1 – Pois, diz Agostinho: Quem ama ao próximo, há de, por consequência, amar ao próprio amor. Ora, Deus é amor. Logo e consequentemente há de amar sobretudo a Deus. E, noutro lugar: Dizer que Deus é caridade é o mesmo que dizer que Deus é espírito. Logo, a caridade não é nenhuma realidade criada na alma, mas é o próprio Deus.

2. Demais. – Deus é espiritualmente a vida da alma, assim como a alma é a vida do corpo conforme aquilo da Escritura: Ele mesmo é a lua vida. Ora, a alma dá vida ao corpo por si mesma. Logo, Deus também lhe dá vida a ela por si mesmo. Mas, como a vivifica pela caridade, segundo a Escritura. – Nós sabemos que nós fomos trasladados da morte para a vida, porque amamos a nossos irmãos ­ resulta que Deus é a caridade mesma.

3. Demais. – Nada de criado tem virtude infinita; antes, toda criatura é vaidade. Ora, longe de ser vaidade, esta repugna à caridade; e tem uma virtude infinita, porque leva a alma do homem ao bem infinito. Logo, a caridade não é nada de criado na alma.

Mas, em contrário, Agostinho: Chamo caridade ao movimento da alma que nos leva a gozar de Deus em si mesmo, Ora, um movimento da alma é uma realidade criada nela. Logo, a caridade é algo de criado na alma.

SOLUÇÃO. – O Mestre das Sentenças trata desta questão no seu livro e ensina que a caridade não é nenhuma realidade criada na alma, mas é o próprio Espírito Santo, que habita o nosso espírito. Não quer com isso dizer seja esse movimento de amor, pelo qual amamos a Deus, o Espírito Santo mesmo, mas que vem do Espírito Santo. E tal se dá não mediante qualquer hábito, como acontece com os outros atos virtuosos, oriundos do Espírito Santo mediante os hábitos das suas respectivas virtudes ; por exemplo, pelo hábito da fé, da esperança, ou de qualquer outra virtude. E isto ensinava ele por causa da excelência da caridade.

Mas quem refletir atentamente nesta doutrina ve-la-á redundar, antes, em detrimento da caridade. – Pois, o movimento da caridade não procede do Espírito Santo, que moveria a mente humana de modo a ser ela somente movida, sem ser de maneira nenhuma princípio desse movimento, como se dá com o corpo, movido por um motor externo. Mas isto colide com a noção de voluntário, que, por força, há de ter em si mesmo o seu princípio, como já dissemos, por isso, da referida doutrina seguir-se-ia, que amar não é uma atividade voluntária. Ora, tal implica contradição, pois o amor é por essência um ato da vontade. ­ Semelhantemente, também não se pode dizer que o Espírito Santo mova á vontade a amar, como é movido um instrumento, que embora seja o princípio do ato, não pode contudo, por si mesmo agir ou deixar de agir. Pois então desapareceria totalmente o que constitui o voluntário e por consequência, o mérito; e entretanto já o estabelecemos, o amor de caridade é a raiz do mérito. Por onde e necessariamente, a vontade há de ser movida pelo Espírito Santo a amar, sem deixar de ser, ela mesma, a causa eficiente do seu ato.

Ora, nenhum ato é perfeitamente produzido por uma potência ativa, sem lhe ser conatural a ela, em virtude de uma forma, princípio da ação. Por isso Deus, que move todos os seres para os seus devidos fins, infundiu em cada um deles as formas pelas quais se inclinem aos fins que Ele mesmo lhes determinou. E por aí, dispõe todas as coisas com suavidade, como diz a Escritura. Ora, como é manifesto, o ato de caridade excede a natureza da potência da vontade. Por isso, se não se lhe acrescentasse nenhuma forma a essa potência natural, que a leve a inclinar-se ao ato de amor, este ato seria mais imperfeito que os atos naturais e as das demais virtudes, e nem seria fácil e deleitável, o que é evidentemente falso, porque nenhuma virtude tem tão grande inclinação para o seu ato como a caridade; e nem há nenhuma, que opere de tão deleitável maneira. Donde o ser forçoso o ato de caridade apoiar-se, em máximo grau, em alguma forma habitual, acrescentada à potência natural, que a incline a esse ato, e leve a potência a agir pronta e deleitavelmente.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – A essência divina, em si mesma, é caridade, assim como é sabedoria e bondade. Ora, consideramo-nos bons, pela bondade, que é Deus, e sábios pela sabedoria, que é Deus, porque a bondade que nos torna bons formalmente é uma participação da bondade divina; e a sabedoria, pela qual somos formalmente sábios, é uma participação da sabedoria divina. Por onde, também a caridade, pela qual formalmente amamos o próximo, é uma participação da caridade divina. Mas este modo de exprimir­se é habitual aos platónicos, de cuja doutrina estava imbuído S. Agostinho; e por não estarem disso advertidos, certos hauriram, nas palavras dele, ocasião de erro.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Deus é efetivamente vida da alma pela caridade; e do corpo, pela alma; mas formalmente, a caridade é a vida da alma, assim como esta é a do corpo. Por onde, pode concluir-se que, assim como a alma está imediatamente unida ao corpo, assim, a caridade, à alma.

RESPOSTA À TERCEIRA. – A caridade obra formalmente. Ora, a eficácia da forma depende da virtude do agente que a introduz. Por isso, não sendo a caridade uma vaidade, mas produzindo um efeito infinito, por unir a alma com Deus, justificando-a, isso demonstra a infinidade da virtude de Deus, autor da caridade.