Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 5 – Se a caridade é uma só virtude.

O quinto discute-se assim. – Parece que a caridade não é uma só virtude.

1 – Pois, os hábitos se distinguem pelos seus objetos. Ora, dois são os objetos da caridade: Deus e o próximo, distantes infinitamente um do outro. Logo, a caridade não é uma só virtude.

2. Demais. – As razões diversas do objeto diversificam o hábito, embora o objeto seja realmente um só, como do sobredito resulta. Ora, muitas são as razões de amarmos a Deus, pois devemos amá-lo por todos os benefícios que dele recebemos. Logo, a caridade não é uma só virtude.

3. Demais. – Na caridade se inclui a amizade ao próximo. Ora, o Filósofo distingue diversas espécies de amizade. Logo, a caridade não é uma só virtude, mas se multiplica com as diversas espécies delas.

Mas, em contrário. – Assim como o objeto da fé é Deus, assim também o da caridade. Ora, é a fé uma só virtude, por causa da unidade da verdade divina, conforme aquilo da Escritura: Uma fé. Logo, também a caridade é uma só virtude, por causa da unidade da bondade divina.

SOLUÇÃO. – A caridade, como já dissemos, é uma amizade entre o homem e Deus. Ora, há tantas amizades diversas quantos são os seus diversos fins. Daí, três espécies de amizade: a útil, a deleitável e a honesta. De outro modo, a amizade se diversifica pela diversidade de comunicação dos sujeitos em que ela se funda. Assim, uma é a amizade para com os consanguíneos; outra, para com os concidadãos ou os estrangeiros. Das quais, a primeira se funda na comunicação natural; a outra na comunicação civil, ou na que é própria dos estrangeiros, como claramente o diz o Filósofo. Ora, de nenhum destes modos a caridade é susceptível de divisões. Pois o seu fim é um só, que é a divina bondade; e também uma só é a comunicação da felicidade eterna, na qual a referida amizade se funda. Donde se conclui que a caridade é, absolutamente falando, uma só virtude, não diversificada por várias espécies.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – A objeção colheria se Deus e o próximo fossem, ao mesmo título, objetos da caridade. O que não é verdade; pois, Deus é o seu principal objeto: e a caridade ama ao próximo por amor de Deus.

RESPOSTA À SEGUNDA. – A caridade ama a Deus por si mesmo. Por onde, ama só por um fundamento principal, que é a sua substância, e que é a bondade divina, conforme aquilo da Escritura. Louvai ao Senhor porque ele é bom. E as outras razões aduzidas para amar, ou que constituem o dever de amar, são secundárias e resultantes da primeira.

RESPOSTA À TERCEIRA. – A amizade humana, de que fala o Filósofo, tem fim e comunicação diversos. O que não se dá com a caridade, como dissemos. Logo, a comparação é imprópria.