Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 7 – Se sem a caridade pode haver verdadeira virtude.

O sétimo discute-se assim. – Parece que sem a caridade não pode haver verdadeira virtude.

1. – A propriedade da virtude é produzir um ato bom. Ora, os que não têm caridade praticam certos atos bons, como, vestir os nus, dar de comer aos famintos, e outros. Logo, sem caridade pode haver verdadeira virtude.

2. Demais. – A caridade não pode existir sem a fé; pois ela procede duma fé não fingida, como diz o Apóstolo. Ora, os infiéis podem praticar a verdadeira castidade, coibindo a concupiscência; e a verdadeira justiça, agindo retamente. Logo, pode haver verdadeira virtude, sem caridade.

3. Demais. – A ciência e a arte são virtudes, como se vê claramente em Aristóteles. Ora, tanto uma como outra se encontram nos pecadores, despidos de caridade. Logo, pode haver virtude sem caridade.

Mas, em contrário, o Apóstolo. Se eu distribuir todos os meus bens em o sustento dos pobres, e se entregar o meu corpo para ser queimado, se todavia não tiver caridade, nada disto me aproveita. Ora, a virtude verdadeira aproveita muito, conforme a Escritura. Ensina a temperança e a prudência e a justiça e a fortaleza, que é o mais útil que há na vida para os homens. Logo, sem a caridade não pode haver verdadeira virtude.

SOLUÇÃO. – A virtude se ordena para o bem, como já estabelecemos. Ora, o bem exerce principalmente a função de fim; pois, os meios não são bons senão relativamente ao fim. Mas, havendo um duplo fim – o último e o próximo, haverá também duplo bem – um último, e outro, próximo e particular. Ora, o bem último e principal do homem é o gozo de Deus, conforme a Escritura: Para mim me é bom unir­me a Deus. E a isto o homem se ordena pela caridade. Por outro lado, o bem secundário e quase particular do homem pode ser duplo. Um é o verdadeiro bem, por se ordenar, por natureza, ao bem principal, que é o fim último. Outro é um bem aparente e não verdadeiro por desviar do bem final.

É, pois, claro que a verdadeira virtude, absolutamente falando, é a ordenada ao bem principal do homem; assim, o Filósofo também diz que a virtude é a disposição do perfeito para o ótimo. Considerada porém, como ordenada para um fim particular, então pode uma virtude existir sem a caridade, enquanto ordena a para um bem particular. Se porém, esse bem particular não for verdadeiro, mas aparente, também a virtude ordenada para ele não será verdadeira virtude, mas falsa semelhança dela. Assim, como diz Agostinho, não é verdadeira virtude a prudência do avarento, que anda à cata de todos os lucros insignificante; nem a sua justiça, pela qual, por medo de danos graves, despreza os bens: alheios; nem a temperança do mamo, pela qual coíbe o apetite da luxúria, por ser cara; e por fim, nem a fortaleza, pela qual, como diz Horâcio, Foge da pobreza, pelo mar, pelas pedras e pelo jogo. Se porém esse bem particular for verdadeiro, exemplo, a salvação da república, ou qualquer outro, será por certo verdadeira a virtude, mas imperfeita; salvo, se referir-se ao bem final e perfeito. E sendo assim, verdadeira virtude, absolutamente falando, não pode existir sem caridade.

DONDE A RESPOSTA A PRIMEIRA OBJEÇÃO. – Os atos de quem não tem caridade podem revestir dupla modalidade. – Uma, enquanto os pratica sem caridade; assim, quando faz alguma coisa em dependência dessa falta de caridade. E tal ato sempre é mau; e Agostinho diz que o ato do infiel, como tal, é sempre pecado, mesmo que vista um nu, ou pratique qualquer ato semelhante, ordenando-o ao fim da sua infidelidade. – De outro modo quem não tem caridade pode praticar um ato, que não dependa dessa falta de caridade, mas enquanto ornado por algum outro dom de Deus ­ como a fé, a esperança, ou mesmo, algum bem natural – não totalmente eliminado pelo pecado, como já dissemos. E deste modo um ato pode ser genérica, mas não perfeitamente bom, sem a caridade, por lhe faltar a ordenação devida ao fim último.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Na ordem prática, o fim desempenha a mesma função que o princípio, na ordem especulativa. Ora, assim como não pode haver ciência absolutamente verdadeira se faltar o conhecimento reto do princípio primeiro e indemonstrável, assim também não pode haver justiça ou castidade absolutamente verdadeiras se faltar a ordenação devida para o fim, produzida pela caridade, embora o agente se comporte retamente em tudo o mais.

RESPOSTA À TERCEIRA. – A ciência e a arte ordenam-se, por natureza, a algum bem particular não porém ao fim último da vida humana, como as virtudes morais que, absolutamente falando, tornam o homem bom, como dissemos. Logo, não há semelhança de razões.