Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 3 – Se a caridade é infundida conforme a capacidade das faculdades naturais.

A terceira discute-se assim. – Parece que a caridade é infundida conforme a capacidade das faculdades naturais.

1 – Pois, como diz a Escritura, deu a cada um segundo a sua capacidade. Ora, nenhuma virtude, senão a natural, precede, no homem, à caridade; porque sem a caridade não há nenhuma virtude, como já se disse. Logo, segundo a capacidade da virtude natural, Deus infunde no homem a caridade.

2. Demais. – Em todas as coisas ordenadas umas para as outras, a que está em segundo lugar é proporcionada a que está em primeiro. Assim, vemos, na ordem natural, a forma proporcionar-se à matéria; e, na ordem dos dons gratuitos, a glória proporcionar-se à graça. Ora, a caridade, sendo a perfeição da natureza, está para a capacidade natural, como o que é segundo está para o que é primeiro. Logo, parece que a caridade é infundida segundo a capacidade das faculdades naturais.

3. Demais. – O homem e o anjo participam da caridade do mesmo modo, porque, em ambos, a felicidade tem a mesma natureza, segundo se lê na Escritura. Ora, aos anjos a caridade e os outros dons gratuitos foram-lhes conferidos segundo a capacidade das faculdades naturais deles, como diz o Mestre das Sentenças. Logo, parece que também o mesmo há se de dar com os homens.

Mas, em contrário, a Escritura: O Espírito assopra onde quer; e Todas estas coisas obra só um e ao mesmo Espírito, repartindo a cada um como quer. Logo, a caridade é dada, não segundo a capacidade das faculdades naturais, mas segundo a vontade do Espírito que distribui os seus dons.

SOLUÇÃO. – A grandeza do efeito depende da sua causa própria, pois, quanto mais universal for a causa tanto maior será o seu efeito. Ora, a caridade, sobre excedendo à capacidade da natureza humana, como já dissemos, não depende de nenhuma virtude natural, mas só da graça do Espírito Santo infusor. Por onde, a sua grandeza não depende da condição da natureza, ou da capacidade da virtude natural, mas só da vontade do Espírito Santo, que distribui os seus dons como quer. Por isso, diz a Escritura: cada um de nós foi dada a graça, segundo a medida do dom de Cristo.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – A virtude segundo a qual Deus distribui os seus dons a cada um, é uma disposição ou preparação precedente, ou um conato de quem recebe a graça. Mas, mesmo essa disposição ou esse conato são preparados pelo Espírito Santo, que, segundo a sua vontade, move mais ou menos a mente humana. Por isso, o Apóstolo diz: Que nos fez dignos de participar da sorte dos santos em luz.

RESPOSTA À SEGUNDA. – A forma não excede a capacidade da matéria, mas são do mesmo gênero. Semelhantemente, a graça e a glória referem-se ao mesmo gênero; porque a graça não é senão um começo da glória em nós. A caridade, porém, e a natureza não pertencem ao mesmo gênero. Logo, a comparação não colhe.

RESPOSTA À TERCEIRA. – O anjo tem uma natureza intelectual e, segundo a sua condição, é lhe próprio tender de maneira total, para o seu objeto, como já estabelecemos. Por onde, nos anjos superiores foi maior o conato para o bem, nos que perseveravam, e para o mal, nos que caíram. Por isso, os anjos superiores, que perseveraram, tornaram-se melhores que os outros; e os que caíram piores. Mas o homem tem uma natureza racional a que é próprio estar, ora em potência, ora em ato. Portanto, não tende totalmente para nenhum objeto: mas, os que tem melhores capacidades naturais podem ter menor o conato, e inversamente. Logo, a comparação não colhe.