Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 1 – Se o amor de caridade só se limita a Deus e não se estende ao próximo.

O primeiro discute-se assim. – Parece que o amor de caridade só se limita a Deus e não se estende ao próximo.

1. – Pois, assim como a Deus devemos o amor, assim também o temor, conforme aquilo da Escritura: Agora, pois, ó Israel, que é que o Senhor teu Deus pede de ti, senão que os temas e o ames? Mas, um é o temor humano, pelo qual tememos o homem; e outro o pelo que tememos a Deus, que é servil ou filial, como do sobredito se colhe. Logo, também um é o amor pelo qual Deus é amado e outro, o pelo qual amamos o próximo.

2. Demais. – O Filósofo diz que ser amado é ser honrado. Mas, uma é a honra devida a Deus, que é a de latria; e outra a devida à criatura, que é a de dulia. Logo, também um é o amor pelo qual Deus é amado e outro, o pelo qual amamos ao próximo.

3. Demais. – A esperança gera a caridade, como se lê na Glosa. Ora, a esperança que temos em Deus é tal, que torna dignos de repreensão os que esperam no homem, conforme aquilo da Escritura: Maldito o homem que confia no homem. Logo, a caridade é de tal modo devida a Deus que não se estende ao próximo.

Mas, em contrário, a Escritura: Nós temos de Deus este mandamento, que o que ama a Deus ame também a seu irmão.

SOLUÇÃO. – Como já se disse os hábitos só se diversificam porque fazem variar a espécie do ato; pois, todos os atos de uma mesma espécie pertencem a um mesmo hábito. Ora, como os atos se especificam pela essência formal dos seus objetos, o ato que busca o objeto na sua essência mesma é especificamente idêntico ao que o busca sob determinado aspecto. Assim como a visão pela qual vemos a luz é especificamente idêntica a pela qual vemos a cor sob o aspecto de luz. Ora, a razão de amarmos o próximo é Deus, pois, o que devemos amar no próximo é que ele esteja unido com Deus. Por onde, é manifesto que o ato pelo qual amamos a Deus é especificamente o mesmo pelo qual amamos o próximo. E por isso o hábito da caridade não só se estende ao amor de Deus, mas também, ao do próximo.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – O próximo pode ser temido, bem como amado, de dois modos. – De um modo, por causa do que lhe é próprio; assim, quando tememos um tirano por causa da sua crueldade, ou o amamos, pelo desejo de conseguir dele alguma coisa. E esse temor humano difere do temor de Deus, o mesmo se dando com o amor. De outro modo o homem é temido e amado pelo que há nele de divino; assim, tememos o poder secular, por causa do ministério divino, que exerce para punir os malfeitores; e o amamos por causa da justiça. E esse temor do homem não difere do temor de Deus, o que também se dá com o amor.

RESPOSTA À SEGUNDA. – O amor visa o bem em geral; ao passo que a honra, o bem mesmo de quem é honrado, pois é prestada a alguém em testemunho da sua virtude. Por onde, o amor não se diversifica especificamente pela quantidade diversa da bondade dos seus diversos objetos, pois, é referido a um bem comum; enquanto que a honra se diversifica pelos bens próprios de cada um. Por isso, amamos todos os próximos com o mesmo amor de caridade, enquanto referidos a um só bem comum, que é Deus; mas a cada um prestamos honras diversas, conforme a virtude de cada. E, semelhantemente, prestamos a Deus a honra especial da latria, por causa da sua especial santidade.

RESPOSTA À TERCEIRA. – São repreendidos os que esperam no homem, como no autor principal da sua salvação; não porém os que nele esperam como ajutórios subordinados aos desígnios de Deus. E semelhantemente, seria repreensível quem amasse ao próximo como fim principal; não porém quem o ama por amor de Deus – o que é próprio da caridade.