Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 4 – Se o homem ama-se a si mesmo com caridade.

O quarto discute-se assim. – Parece que o homem não se ama a si mesmo com caridade.

1. – Pois, diz Gregório: a caridade não pode existir senão entre duas pessoas. Logo, ninguém pode ter caridade para consigo próprio.

2. Demais. – A amizade implica, por essência, a retribuição e a igualdade, como diz Aristóteles o que não pode existir em ninguém em relação a si mesmo. Ora, a caridade é uma espécie de amizade, como já se disse. Logo, é possível termos caridade para conosco mesmos.

3. Demais. – O que pertence à caridade não pode ser digno de vitupério, porque a caridade não obra temerariamente, como diz a Escritura. Ora, amar-se a si mesmo é digno de vitupério, conforme a Escritura: Nos últimos dias virão uns tempos perigosos e haverá homens amantes de si mesmos, Logo, o homem não pode amar a si mesmo com caridade.

Mas, em contrário, a Escritura: Amarás a teu amigo como a ti mesmo, Ora, amamos nossos amigos com caridade. Logo, também com caridade devemos nos amar a nós mesmos.

SOLUÇÃO. – Sendo a caridade uma espécie de amizade, como já dissemos, de dois modos podemos considerá-la. – De um modo, sob a noção geral de amizade. E a esta luz, não é possível ter amizade para conosco mesmos, propriamente falando; senão um sentimento maior que a amizade. Porque a amizade implica uma certa união; pois, no dizer de Dionísio, o amor é uma virtude unitiva. Ora, cada um de nós está unido a si mesmo, sendo essa a mais forte das uniões. Por onde, assim como a unidade é o princípio da união, assim o amor com o qual nos amamos a nós mesmos é a forma e a raiz da amizade. Pois, se temos amizade para com os outros, é pelos considerarmos como se fossem nós mesmos, consoante ao que diz Aristóteles: os sentimentos de amizade que temos para com os outros vem dos que temos para conosco. Assim também os princípios não são objeto da ciência, mas, do intelecto, que lhe é superior. De outro modo, podemos considerar a caridade na essência mesmo dela; isto é, enquanto amizade do homem para com Deus, principalmente e, por consequência, para com as causas de Deus, entre as quais está o homem, que tem caridade. E assim, entre os outros seres, como que pertencentes a Deus, que amamos com caridade, estamos também nós incluídos, que com o mesmo amor nos amamos.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –­ Gregório se refere à caridade sob a noção geral de amizade.

E a esta luz, também colhe a SEGUNDA OBJEÇÃO.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Os que se amam a si mesmos são dignos de vitupério, por se amarem segundo a natureza sensível, a que obedecem. Ora, isso não é amarem-se a si mesmos, verdadeiramente, segundo a natureza racional, de modo a quererem para si os bens próprios à perfeição racional. Pois deste modo e precipuamente, é que é próprio da caridade amar-se a si mesma.