Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 12 – Se devemos amar mais o benfeitor que o beneficiado.

O duodécimo discute-se assim. – Parece que o homem deve amar mais o benfeitor que o beneficiado.

1. – Pois, diz Agostinho: Não há nenhum estimulo maior ao amor do que prevenir em amar; e é muito dura a alma que, além de não querer dedicar amor, não quer retribuí-lo. Ora, os benfeitores nos previnem pelo benefício da caridade. Logo, devemos amá-los por excelência.

2. Demais. – Tanto mais devemos amar a outrem, quanto mais gravemente pecarmos se deixarmos de o amar ou agirmos contra ele. Ora, peca mais gravemente quem não ama o benfeitor, ou age contra ele, do que se deixar de amar quem até então lhe foi benfeitor. Logo, devemos amar mais aos benfeitores do que aqueles a quem fizemos benefícios.

3. Demais. – Entre todos os objetos do nosso amor, Deus é o que mais devemos amar; e depois dele, o pai, como diz Jerônimo: Ora, esses dois seres são os nossos maiores benfeitores. Logo, ao benfeitor é que devemos mais amar.

Mas, em contrário, diz o Filósofo: parece que os benfeitores amam mais aos beneficiados do que inversamente.

SOLUÇÃO. – Como já dissemos, podemos amar uma coisa mais que outra, de dois modos: ou por ser, por natureza, um bem mais excelente; ou, em razão de maior união.

Do primeiro modo, amamos mais o benfeitor, porque, sendo ele o princípio do bem do beneficiado, é por natureza um bem mais excelente, como acima se disse do pai.

Ora, do segundo modo, amamos mais aos beneficiados, como o Filósofo prova, por quatro razões. – Primeiro, porque o beneficiado é como que obra do benfeitor, donde o costume de dizer-se de um indivíduo: Este é feitura daquele. Ora, naturalmente cada um ama a sua obra; assim, vemos que os poetas amam os seus poemas. E isto porque cada qual ama o seu ser e a sua vida, que se manifestam sobretudo, pelo agir. – Segundo, porque cada qual naturalmente ama aquilo em que descobre o seu bem. Ora, o benfeitor tem algum bem seu no beneficiado, e inversamente; mas, o benfeitor considera no beneficiado o seu em honesto; e o beneficiado, no benfeitor, o seu bem útil. Ora, o bem honesto é considerado mais deleitável do que o bem útil, quer por ser mais estável, pois, a utilidade desaparece rapidamente, e o prazer da memória não é como o que temos com a coisa presente: quer também pelos conservarmos os bens honestos, com maior prazer, o que as utilidades provenientes dos outros. – Terceiro, porque ao amante pertence agir, pois, quer e faz o bem para o amado; ao amado, porém, pertence receber o bem. Logo, amar é próprio de quem é mais excelente. E por isso, é próprio do benfeitor amar mais. – Quarto, porque é mais difícil fazer benefícios do que recebê-los. Ora, mais amamos aquilo em que mais trabalhamos; ao contrário, o que obtemos com facilidade de certo modo desprezamos.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –­ O benfeitor é quem estimula o beneficiado a amá-lo. Ao passo que o benfeitor, para amar ao beneficiado, não precisa ser estimulado por este, pois é movido por si mesmo. Ora, o existente por si mesmo tem prioridade sobre o existente por outro.

RESPOSTA À SEGUNDA. – O beneficiado é que deve, sobretudo, amar ao benfeitor; e portanto, o que a isso contraria tem natureza de maior pecado. Mas o amor do benfeitor para com o beneficiado é mais espontâneo, e, portanto, tem maior presteza.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Também Deus nos ama a nós mais que nós a ele; e os pais amam aos filhos mais do que são deles amados. Mas isso não importa que amemos a quaisquer beneficiados mais que a quaisquer benfeitores. Pois, os benfeitores de quem recebemos os máximos benefícios, isto é, Deus e os pais, nós os preferimos aqueles a que fizemos menores benefícios.