Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 2 – Se devemos amar mais a Deus que ao próximo.

O segundo discute-se assim. – Parece que não devemos amar mais a Deus que ao próximo.

1. – Pois, diz a Escritura: Aquele que não ama a seu irmão, a quem vê, como pode amar a Deus a quem não vê? Por onde, parece mais amável o mais visível, por ser a vista o princípio do amor, como diz Aristóteles. Ora, Deus é menos visível que o próximo. Logo, também devemos ter menos caridade para com ele.

2. Demais. – A semelhança é a causa do amor, conforme aquilo da Escritura: Todo animal ama ao seu semelhante: Ora, maior é a semelhança nossa com o próximo do que com Deus. Logo, amamos com caridade mais ao próximo do que a Deus.

3. Demais. – Quem a caridade ama no próximo é Deus, como diz Agostinho. Ora, Deus não é maior em si mesmo do que no próximo. Logo, não devemos amá-lo mais em si mesmo do que no próximo; e portanto não devemos amar mais a Deus que ao próximo.

Mas, em contrário – Devemos amar mais aquilo por causa do que odiamos outros seres. Ora, devemos odiar ao próximo, por causa de Deus, quando nos afasta deste, conforme a Escritura. Se alguém vem a mim e não aborrece a seu pai e mãe e mulher e filhos e irmãos e irmãs, não pode ser meu discípulo.

SOLUÇÃO. – Toda amizade tem como objeto principal aquele que principalmente encerra o bem em cuja participação ela se funda. Assim a amizade política tem por objeto principal o chefe da república, do qual depende todo o bem da mesma; por isso, os cidadãos lhe devem sobretudo a fidelidade e a obediência. Ora, a amizade de caridade se funda na participação da felicidade, que consiste, essencialmente, em Deus como princípio primeiro; e dela deriva para todos os capazes da felicidade. Por onde devemos, principalmente e em máximo grau, amar a Deus com caridade. Pois, a ele o amamos como causa da felicidade; e, ao próximo, como quem lhe participa, conosco, da felicidade.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. ­– De dois modos pode um objeto ser causa de amor. – Primeiro como o que é a razão de amar. E deste modo o bem é causa de amor, porque, um ser é amado na razão direta do que tem de bom. – De outro modo, como via para adquirir o amor. E deste modo a vista é causa de amor, não por ser amável o visível, mas nos levar a vista ao amor. Por onde, o mais visível não é necessariamente o mais amável, mas, o que se nos ofereceu em primeiro lugar ao amor. E neste sentido é que fala o Apóstolo. Pois o próximo, por nos ser mais visível se nos apresenta primeiro ao amor; porque, como diz Gregório numa homilia, pelo que a, alma conhece aprende a amar o desconhecido. Por onde, quem não amar ao próximo pode ser acusado de também não amar a Deus; não porque o próximo seja mais digno. de ser amado, mas por se nos oferecer primeiro ao nosso amor. Deus, porém, é mais digno de amor por causa da sua maior bondade.

RESPOSTA À SEGUNDA. – A semelhança que temos com Deus é anterior a que temos com o próximo e causa desta. Pois, tornamo-nos semelhantes ao próximo por participarmos de Deus o que ele também participa. Por onde, em razão da semelhança, devemos amar mais a Deus que ao próximo.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Deus, considerado na sua substância, é sempre o mesmo, esteja em que ser estiver; porque não fica diminuído por estar em algum. Mas nem por isso tem o próximo a bondade de Deus como ele mesmo a tem; pois Deus a tem essencialmente e o próximo, participativamente.