Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 9 – Se devemos amar com caridade, mais aos filhos que aos pais.

O nono discute-se assim. – Parece que devemos amar, com caridade, mais aos filhos que os pais.

1. – Pois, devemos amar mais a quem mais devemos beneficiar. Ora, devemos beneficiar mais aos filhos que aos pais, conforme a Escritura: Não são os filhos os que devem entesourar para os pais, mas os pais, para os filhos. Logo, devemos amar mais os filhos que os pais.

2. Demais. – A graça aperfeiçoa a natureza. Ora, naturalmente os pais, amam mais aos filhos do que são amados por eles, como diz o Filósofo. Logo, devemos amar mais aos filhos que aos pais.

3. Demais. – Pela caridade o nosso afeto. Mais se assemelha ao de Deus. Ora, Deus ama seus filhos, mais do que é amado por eles. Logo, também nós devemos amar aos filhos mais que aos pais.

Mas, em contrário, Ambrósio diz: Em primeiro lugar devemos amar a Deus; em segundo, aos pais; em terceiro, aos filhos e, depois, aos criados.

SOLUÇÃO. – Como já dissemos, os graus do amor podem ser considerados à dupla luz. ­ Primeiro, relativamente ao objeto. E por aqui, devemos amar mais o que é mais essencialmente bom e mais semelhante a Deus. E assim, devemos amar mais ao pais do que aos filhos, por amarmos aqueles como sendo o nosso princípio e, portanto, bom, de maneira mais eminente e mais semelhante a Deus. De outro modo, considera­se o grau do amor relativamente ao amante. E então, amamos mais ao que nos é mais chegado. Por onde, devemos amar mais aos filhos, que aos pais, como diz o Filósofo. Primeiro, pelos amarem os pais aos filhos como parte deles; ao passo que o pai não é parte do filho. Portanto, o amor paterno para com o filho é mais semelhante ao amor para conosco mesmos. Segundo, por conhecerem os pais melhor os filhos, que inversamente. Terceiro, por o filho, sendo parte do pai, ser-lhe mais chegado, do que o pai ao filho, em relação ao qual exerce a função de princípio. Quarto, por os pais amarem mais longamente; pois, o pai ama ao filho desde que ele existe; ao passo que o filho começa a amar ao pai só depois de decorrido algum tempo. Ora, o amor, quanto mais longo mais forte é, conforme aquilo da Escritura. Não deixes o amigo antigo, porque o novo não será semelhante a ele.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –­ Ao princípio é devida a sujeição, a reverência e a honra; ao efeito, porém, cabe receber, proporcionalmente, a influência e a providência do princípio. Por isso, os filhos devem, sobretudo, honrar aos pais; e dos filhos devem os pais cuidar, sobretudo, em velar sobre eles.

RESPOSTA À SEGUNDA. – O pai ama naturalmente mais ao filho, por causa da afinidade com ele; mas o filho ama naturalmente mais ao pai por ser este um bem mais eminente.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Como diz Agostinho, Deus nos ama para nossa utilidade e para a sua honra. Ora, como o pai mantém com o filho a relação de princípio, como Deus, é pertinente que os filhos lhe tributem maior honra; e que os pais cuidem em lhes prover às necessidades. Embora, em artigo de necessidade, o filho tenha a suma obrigação de prover às necessidade paternas, por causa dos benefícios recebidos.