Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 1 – Se é mais próprio da caridade amar ou ser amado.

O primeiro discute-se assim. – Parece que é mais próprio da caridade ser amado que amar.

1. – Pois, os melhores tem maior caridade. Ora, os melhores devem ser mais amados. Logo, mais próprio da caridade é o ser amado.

2. Demais. – O que existe mais frequentemente parece ser mais conveniente à natureza e, por consequência, melhor. Ora, como diz o Filósofo, são muito mais os que querem ser amados do que os que querem amar, sendo por isso muitos os amantes da adulação. Logo, melhor é ser amado que amar e, por conseguinte, mais conveniente à caridade.

3. Demais. – Uma causa tem maior plenitude de ser do que o efeito. Ora, por serem amados os homens amam; pois, no dizer de Agostinho, nenhum estimulo para amar é maior do que prevenir, amando. Logo, a caridade consiste mais em ser amado do que amar.

Mas, em contrário, diz o Filósofo; a amizade consiste mais em amar do que em ser amado. Ora, a caridade é uma espécie de amizade. Logo, insiste mais em amar que ser amado.

SOLUÇÃO. – Amar é próprio da caridade, como tal. Pois, sendo uma virtude, essencialmente se inclina para o seu ato próprio. Ora, o ato próprio de caridade do amado é amar e não ser amado; pois, ser amado lhe cabe segundo uma ideia geral do bem, enquanto outrem é movido pelo ato da caridade, ao bem que naquele descobre. Por onde é claro, que à caridade é mais próprio amar que ser amado. Porque a um ser lhe convém mais o que lhe convém: essencial e substancialmente, do que o que lhe convém mediante outro ser. E disto há dupla prova. A primeira esta em os amigos serem mais louvados por amarem que por serem amados; e por isso, não amando e sendo amados, são objeto de vitupério. Segundo, por as mães mais amantes preferirem amar a serem amadas; pois, como diz o Filosofo, certas confiam os filhos a uma ama, e amam, seguramente sem buscarem retribuição do amor, não sendo possível.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – Os melhores, como tais, são mais dignos de amor. Mas por terem caridade mais perfeita, sao mais amantes; proporcionalmente, porém, ao amado. Pois, o melhor não ama, ao que lhe é inferior, menos do que este o merece; ao contrário, o menos bom, não chega a amar ao melhor o quanto ele merece.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Como diz o Filósofo no mesmo lugar, os homens querem ser amados na medida mesma em que querem ser honrados. Ora, assim como a honra é prestada a alguém como testemunho do bem que nele é honrado, assim o amarmos a outrem é prova de que há nele algum bem, pois só o bem é amável. Assim, pois, os homens buscam ser amados e honrados por uma causa ulterior, isto é, para manifestar o bem existente no amado. Os que tem caridade, porém, querem o amar, em si mesmo, quase sendo este o bem da caridade, assim como qualquer ato de virtude é o bem dessa virtude. Por onde, é mais pertinente à caridade querer amar que querer ser amado.

RESPOSTAS À TERCEIRA. – Certos amam por serem amados, não que o ser amado seja o fim do amar, mas a via conducente a amar.