Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 6 – Se deve haver algum modo no amor divino.

O sexto discute-se assim. – Parece que deve haver algum modo no amor divino.

1. – Pois, a essência do bem consiste no modo, na espécie e na ordem, como se vê claramente em Agostinho. Ora, o amor de Deus é o que há de melhor no homem, segundo aquilo do Apóstolo: Sobre tudo isto revesti-vos da caridade. Logo, deve haver modo no amor divino.

2. Demais. – Agostinho diz: Dize-me, peço-te, qual é o modo no amar. Pois, temo não me inflame, mais ou menos do que o necessário, no desejo e no amor do meu Senhor. Ora, buscaria em vão o modo, se nenhum houvesse no amor divino. Logo, há nesse amor algum modo.

3. Demais. – Como diz Agostinho, o modo é o que a medida própria de cada ser lhe determina. Ora, a medida da vontade humana, como a da ação exterior, é a razão. Logo, assim como o efeito exterior da caridade deve ter um modo estabelecido pela razão, conforme aquilo da Escritura – o vosso culto racional – assim também o amor interno de Deus deve ter modo.

Mas, em contrário, Bernardo diz, a causa de amar a Deus é Deus; o modo é amá-lo sem modo.

SOLUÇÃO. – Como resulta claro do lugar citado de Agostinho, o modo implica uma certa determinação de medida. Ora, essa determinação se encontra tanto na medida como no medido, mas de maneiras diversas. Na medida, essencialmente, porque ela, por essência, determina e impõe o modo às outras causas. Nas coisas medidas a medida existe de outra maneira, isto é, enquanto elas se lhe subordinam. Logo, na medida não se pode conceber nenhuma falta de modo; mas no medido não há modo, se não estiver subordinado, quer por deficiência, quer por excesso, à medida.

Ora, de todos os objetos de desejo e de ação, a medida é o fim; pois a razão própria do que desejamos e fazemos deve ser fundada no fim, como claramente o diz o Filósofo. Logo, o fim, em si mesmo, tem modo; os meios, porém, o tem enquanto proporcionados ao fim. Pois onde, como diz o Filósofo, o desejo do fim, em todas as artes, não tem fim nem limite; mais há um limite nos meios, Assim, o médico não impõe nenhum limite à saúde, mas se esforça pela tornar perfeita; impõem-no porém ao remédio, pela dar totalmente, senão só o necessário à recuperação da saúde; e se o remédio excedesse essa finalidade, ou não a alcançasse, seria sem modo.

Ora, o fim de todos os atos humanos e afetos é o amor de Deus, que nos leva, por excelência, a alcançar o fim último, como já dissemos. Logo, não se pode admitir modo, no amor de Deus, como em coisa medida, de maneira que seja susceptível de mais e de menos; mas sim, como o modo existe na medida, em que não pode haver excesso, mas, quanto mais subordinado à regra, tanto melhor será. Portanto, quanto mais amado for Deus, tanto mais perfeito será o amor.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – O existente por si tem prioridade sobre o existente por outro. Por onde, a bondade da medida, que tem modo por si mesma, tem prioridade sobre a do medido, que tem modo mediato. E assim também a caridade, que tem modo como medida, tem preeminência sobre as outras virtudes, que tem modo como medidas que são.

RESPOSTA À SEGUNDA. – No mesmo lugar Agostinho acrescenta, que o modo de amar a Deus é amá-lo de todo o coração, isto é, amá-lo o quanto podemos. Ora, este é o modo próprio da medida.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Esse afeto, cujo objeto depende do juízo da razão, deve ser medido por esta. Ora, Deus, objeto do amor divino, excede o juízo da razão; logo, pela exceder, não pode ser medido por ela. Mas, o mesmo não se dá com o ato interior de caridade e com os atos externos. Pois, o ato interior de caridade tem natureza de fim, porque o bem último do homem consiste em a sua alma unir-se a Deus, conforme aquilo da Escritura: Para mim é bom unir-me a Deus. Ao passo que os atos exteriores tem natureza de meios. E portanto devem ser comensurados tanto pela caridade como pela razão.