Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 7 – Se é mais meritório amar o inimigo que o amigo.

O sétimo discute-se assim. – Parece mais meritório amar o inimigo que o amigo.

1. – Pois, diz a Escritura. Se vós não amais senão os que vós amam, que recompensa haveis de ter? Logo, amar ao amigo não merece recompensa; mas, amar aos inimigos, sim, como no mesmo lugar se diz. Portanto, é mais meritório amar aos inimigos, que aos amigos.

2. Demais. – Um ato é tanto mais meritório quanto maior é a caridade donde procede. Ora, amar os inimigos é próprio dos filhos perfeitos de Deus, como diz. Agostinho; ao passo que mesmo a caridade imperfeita pode amar o amigo. Logo, há maior mérito em amar o inimigo que o amigo.

3. Demais. – Quanto o bem custa mais parece que há maior mérito, pois cada um receberá a sua recompensa particular segundo o seu trabalho, como diz a Escritura. Ora, precisamos fazer mais esforço para amar o inimigo do que para amar o amigo, por ser mais difícil. Logo, parece que amar o inimigo é mais meritório que amar o amigo.

Mas, em contrário, o melhor é mais meritório. Mas é melhor amar o amigo, por ser melhor amar ao melhor; ora, o amigo, que ama, é melhor que o inimigo, que odeia. Logo, amar ao amigo é mais meritório que amar o inimigo.

SOLUÇÃO. – A razão de amar ao próximo, com caridade, se funda em Deus, como já dissemos. Logo, quando se indaga se é melhor ou mais meritório amar o amigo ou o inimigo, o amor de um e o de outro são susceptíveis de dupla relação: uma concernente ao próximo amado; outra, à razão de ser amado. Ora, pela primeira relação, o amor do amigo tem preeminência sobre a do inimigo, por ser o amigo melhor e nos ser mais chegado; portanto, é matéria mais própria do amor e, por isso, o ato de amor que a tem como objeto, é melhor. Logo, o contrário é pior; pois, é pior odiar o amigo que o inimigo.

Pela segunda, porém, o amor ao inimigo tem preeminência, por duas razões. – A primeira é que a razão de amarmos ao amigo pode ser outra que não Deus; ao passo que só Deus pode ser a razão de amarmos ao inimigo. ­ A segunda é que, pressuposto seja tanto um como outro amado por amor de Deus, mais forte se manifesta o amor de Deus, quando torna a alma humana capaz de atingir objetos mais elevados, isto é, de chegar até ao amor dos inimigos; assim como a virtude do fogo se manifesta tanto mais forte quanto maior for o número de objetos em que difunde o seu calor. E também tanto mais forte se mostra o amor divino quanto mais nós, por causa dele, fizermos coisas mais difíceis; assim como a virtude do fogo é tanto mais forte quanto mais pode queimar matéria menos combustível.

Mas assim como um mesmo fogo age sobre o que lhe está próximo mais fortemente do que sobre um objeto remoto, assim também, a caridade mais fervorosamente ama os que nos são chegados do que os que nos são afastados. E neste ponto, o amor dos amigos, em si considerados, é mais fervoroso e melhor que o dos inimigos.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – As palavras do Senhor devem entender-se em sentido próprio. Pois, o amor dos amigos não tem recompensa, junto de Deus, quando são amados somente por serem amigos. E isto se dá quando os amamos de modo que não amamos os inimigos. E porém meritório o amor dos amigos se forem amados por causa de Deus e não só por serem amigos.

Às outras objeções são CLARAS AS RESPOSTAS, pelo que fica dito. – Pois, as duas seguintes procedem fundadas na razão de amar. – E a última, fundada nos que são amados.