Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 3 – Se a paz é um efeito próprio da caridade.

O terceiro discute-se assim. – Parece que a paz não é um efeito próprio da caridade.

1. – Pois, não podemos ter a caridade sem a graça santificante. Ora, certos tem paz sem terem essa graça; assim, os gentios tem às vezes paz. Logo, a paz não é efeito da caridade.

2. Demais. – Não é efeito da caridade aquilo cujo contrário pode coexistir com ela. Ora, a dissensão, contrária à paz, pode co-existir com a caridade; pois, vemos até mesmo santos doutores, como Jerônimo e Agostinho, dissentirem em certas opiniões. E também se lê na Escritura que Paulo e Barnabé dissentiram. Logo, parece que a paz não é efeito da caridade.

3. Demais. – Um mesmo efeito não pode provir de causas diversas. Ora, a paz é efeito da justiça, conforme a Escritura: A paz é obra da justiça. Logo, não é efeito da caridade.

Mas, em contrário, a Escritura. Gozam muita paz os que amam tua Lei.

SOLUÇÃO. – Dupla união exige, por essência, a paz, como dissemos. A primeira se funda na ordenação dos nossos próprios apetites à unidade; a outra, na união do nosso próprio apetite com o de outrem. E ambas essas uniões a caridade as produz. A primeira, quando amamos a Deus de todo o nosso coração de modo a lhe referirmos tudo; e, assim, todo os nossos apetites se reduzem à unidade. A outra, quando amamos ao próximo como a nós mesmos, donde resulta querermos satisfazer-lhe a vontade como se fosse a nossa própria; por isso, Aristóteles considera como um dos sinais da amizade a identidade de eleição; e Túlio (Salústio) diz, que é próprio dos amigos quererem e não quererem as mesmas causas.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –­ A graça santificante não falta a ninguém senão por causa do pecado, que leva o homem a afastar­-se do fim devido, constituindo o seu fim nalguma coisa que lhe é contrária. E assim sendo, o seu apetite não adere principalmente ao verdadeiro bem final, mas a um bem aparente. E por isso, sem a graça santificante não pode haver verdadeira paz, mas só aparente.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Como diz o Filósofo, a amizade não exige a concórdia nas opiniões, mas a nos bens concernentes à vida, sobretudo nos grandes; pois, dissentir em coisas pequenas não é, a bem dizer, dissentir. E por isso nada impede dissintam nas suas opiniões os que tem caridade mútua. E nem isto repugna à paz, porque as opiniões são relativas ao intelecto, que precede o apetite, unido pela paz. Semelhantemente, quando existe a concórdia em relação a bens importantes, a dissensão relativamente a pequenos bens não é contra a caridade. Pois essa dissensão procede da diversidade de opiniões, pensando um que o objeto da dissensão diz respeito ao bem relativamente ao qual estão de acordo, e o outro, que não diz respeito a tal bem. E sendo assim, tal dissensão fundada em pequenas coisas e em opiniões, contraria por certo à paz perfeita, no regime da qual a verdade será plenamente conhecida e todo apetite satisfeito; não repugna, porém à paz imperfeita, como a temos nesta vida.

RESPOSTA À TERCEIRA. – A paz é indiretamente obra da justiça, enquanto remove o obstáculo. Mas é diretamente obra da caridade, causa, por essência, da paz. Pois, o amor é uma força unitiva, como diz Dionísio. Ora, a paz é a união das inclinações apetitivas.