Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 1 – Se o mal propriamente incita à misericórdia.

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O primeiro discute-se assim. – Parece que o mal não incita propriamente à misericórdia.

1. – Pois, como já demonstramos a culpa é maior mal que a pena. Ora, a culpa não desperta a misericórdia, mas antes, a indignação. Logo, o mal não incita à misericórdia.

2. Demais. – As coisas cruéis ou terríveis comportam um excesso de mal. Ora, como diz o Filósofo, o terrível difere do lamentável e exclui mesmo a compaixão. Logo, o mal, como tal, não incita à misericórdia.

3. Demais. – Os sinais dos males não são verdadeiros males. Ora esses sinais provocam a misericórdia, como se lê claramente no Filósofo. Logo, o mal não incita propriamente à misericórdia.

Mas, em contrário, diz Damasceno, que a misericórdia é uma espécie de tristeza. Ora, o que move à tristeza é o mal. Logo, o mal incita à misericórdia.

SOLUÇÃO. – Como diz Agostinho, a misericórdia é a compaixão do nosso coração pela miséria alheia, que nos leva a socorrê-la, se o pudermos. Pois, a misericórdia é assim chamada de termos o coração comiserado pela miséria alheia. Ora, a miséria se opõe à felicidade; e em a natureza da beatitude ou felicidade está podermos o que quisermos. Pois, no dizer de Agostinho: feliz é quem tem tudo o que quer e não quer nada de mau. Logo e ao contrário, a miséria implica em sofrermos o que não queremos. Ora de três modos podemos querer uma coisa. De um modo, com desejo natural; assim, todos os homens querem existir e viver. De outro modo, escolhendo e por uma certa premeditação. De terceiro modo, podemos querer uma coisa, não em si, mas na sua causa; assim, dizemos que quem quer comer o que é nocivo, quer, de certo modo, adoecer. Por isso, incita à misericórdia, por implicar a miséria: – primeiro o que contraria ao apetite natural de quem quer uma coisa, isto é, o mal que perde e aflige, cujo contrário os homens naturalmente desejam. Donde o dizer o Filósofo a misericórdia é uma tristeza causada por um mal que presenciamos e é capaz de nos perder ou de afligir. – Segundo esses males movem mais à misericórdia se contrariam a vontade da escolha. Por isso, diz o Filósofo no mesmo lugar, que são dignos de compaixão os males, dos quais a fortuna é a causa; por exemplo, quando acontece um mal em lugar do bem que esperávamos. – Terceiro esses males são ainda mais dignos de compaixão se contrariam totalmente a vontade; por exemplo, quando acontece mal a quem sempre buscou o bem. Donde o dizer ainda o Filósofo, que a misericórdia tem sobretudo por objeto os males de quem os sofre sem as merecer.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –­ É da essência da culpa ser voluntária. E assim, ela não provoca essencialmente a misericórdia, mas antes, a punição. Mas como a culpa pode, de certo modo, ser uma pena, por trazer consigo um elemento contrário à vontade do pecador, isso faz com que ela também possa ser essencialmente digna de misericórdia. E assim que temos misericórdia dos pecadores; pois, como diz Gregório, a verdadeira justiça não vota desprezo, mas antes compaixão pelos pecadores. E a Escritura: E olhando Jesus para aquelas gentes, se compadeceu delas, porque estavam fatigadas e quebrantadas como ovelhas que não tem pastor.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Sendo a misericórdia compaixão pela miséria alheia, é propriamente relativa a outrem e não a nós mesmos, senão por certa semelhança, assim como se dá com a justiça, quando se consideram no homem diversas partes, segundo Aristóteles.- E neste sentido, diz a Escritura. Tem piedade com a tua alma, fazendo-te agradável a Deus, Assim, pois, não sendo a misericórdia relativa a nós mesmos, mas sim a dor, como quando, por exemplo, sofrermos algo de doloroso, assim também não temos misericórdia, mas nos condoemos, como se nos fossem próprios, com os males das pessoas que nos são chegadas, como se fossem elas partes de nós mesmos, tais como os filhos ou os pais. E por isso o Filósofo diz: o que é lamentável exclui a misericórdia.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Assim como da esperança e da recordação dos bens resulta o prazer, assim, da esperança e da recordação dos males, a tristeza; não porém, tão veemente, como quando resulta da sensação do objeto presente. Por isso os sinais dos males, quando nos representam como atuais males dignos de compaixão, incitam-nos à misericórdia.