Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 1 – Se a beneficência é um ato de caridade.

O primeiro discute-se assim. – Parece que a beneficência não é um ato de caridade.

1. – Pois, praticamos a caridade sobretudo para com Deus. Ora, não podemos praticar a beneficência para com ele, conforme aquilo da Escritura. Que lhe darás? ou que receberá ele da tua mão? Logo, a beneficência não é um ato de caridade.

2. Demais. – A beneficência consiste sobretudo na distribuição de dádivas. Ora, isto é próprio da liberalidade. Logo, a beneficência não é ato de caridade, mas de liberalidade.

3. Demais. – O que damos ou é devido ou não. Ora, o benefício prestado como débito é obra de justiça; o prestado como não devido é feito de graça e, a esse título, é obra de misericórdia. Logo, todo benefício ou é ato de justiça ou de misericórdia e, portanto não de caridade.

Mas, em contrário. – A caridade é uma espécie de amizade, como já se disse. Ora, o Filósofo considera, entre os outros atos de amizade, o de fazer bem aos amigos, e isso é praticar a beneficência para com eles, Logo, a beneficência é ato de caridade.

SOLUÇÃO. – A beneficência nada mais implica senão o fazer bem a outrem. Ora, esse bem pode ser considerado à dupla luz. – Primeiro, como sendo a ideia geral do bem; e então se inclui na ideia geral de beneficência, é um ato de amizade, e portanto de caridade. Pois, o ato de amor inclui a benevolência, pelo qual queremos bem ao amigo, como já estabelecemos. Ora, a vontade, quando possível, é que pratica esse bem, que queremos. Logo e consequentemente, fazer bem ao amigo é ato de amizade. E por isso a beneficência, quanto à ideia geral, é um ato de amizade ou caridade. – Se porém o bem, que fazemos a outrem, é considerado sob um aspecto especial, então será tomada em acepção particular e constituirá uma virtude especial.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –­ Como diz Dionísio, o amor move as causas ordenadas a uma relação mútua, referindo as inferiores às superiores, para serem aquelas aperfeiçoadas por estas; e movendo as superiores a prover às inferiores. E a esta luz, a beneficência é efeito do amor; e, portanto, não podemos fazer bem a Deus, mas sim honrá-lo, a ele nos sujeitando. E a ee pertence fazer-nos benefícios, por amor.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Dois elementos devemos considerar, na distribuição dos bens: o ato externo de dar, e o afeto interno que tivermos pelas riquezas e que consiste em deleitarmo-nos com elas. Ora, é próprio da liberalidade moderar a paixão interior, de modo a não desejarmos e amarmos em excesso as riquezas, o que nos leva à liberalidade nas dádivas. Portanto, quem fizer alguma grande dádiva, tendo contudo grande desejo de não fazê-la, não será liberal. Mas quanto ao ato externo de dar, a prestação do benefício é própria em geral à amizade ou à caridade. Portanto não contraria a amizade quem dá a outrem, por amor, um bem que deseja conservar; antes, isso mostra mais a perfeição da amizade.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Assim como a amizade ou a caridade é levada, em relação ao benefício feito pela ideia geral do bem; assim, a justiça, pela de débito. Ao passo que a misericórdia, ao fazer o benefício, se inspira na ideia de aliviar a miséria ou a necessidade..