Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 5 – Se é de preceito dar esmola.

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O quinto discute-se assim. – Parece que não é de preceito dar esmolas.

1. – Pois, o conselho difere do preceito. Ora, dar esmola é conselho, conforme a Escritura. Segue, ó rei, o conselho que te dou, e redime os teus pecados com esmolas, Logo, dar esmolas não é de preceito.

2. Demais. – A cada um é lícito usar e conservar o seu. Ora, quem conserva o seu não da esmola. Logo, é lícito não dar esmola, e portanto, não é de preceito.

3. Demais. – Os transgressores de um preceito temporário cometem pecado mortal, porque os preceitos afirmativos obrigam por tempo determinado. Logo, se dar esmola fosse de preceito, poder-se-ia determinar um tempo durante o qual pecaria mortalmente quem não a desse. Ora, tal não acontece; pois sempre poderia considerar provavelmente possível socorrer ao pobre de outro modo; e lhe poderia ser necessário, no presente ou no futuro, o que lhe desse de esmola. Logo, parece que dar esmola não é de preceito.

4. Demais. – Todos os preceitos se reduzem aos do Decálogo. Ora, destes nenhum obriga a dar esmolas. Logo, dar esmolas não é de preceito.

Mas, em contrário. – Ninguém é punido com pena eterna por ter omitido uma obra que não é de preceito. Ora, certos são punidos com pena eterna por terem deixado de dar esmolas. Logo, dar esmolas é de preceito.

SOLUÇÃO. – Sendo de preceito o amor do próximo, necessariamente sê-lo-á tudo aquilo sem o que não podemos amá-lo. Ora, esse amor exige que não só lhe queiramos bem, mas ainda que lho façamos, conforme aquilo da Escritura. Não amemos de palavra nem de língua, mas por obra e em verdade. Ora, para lhe querermos e fazermos bem é necessário lhe socorramos às necessidades, o que realizamos dando-lhe esmolas. Logo, dar esmolas é de preceito.

Ora, prescrevendo os preceitos atos de virtude, forçosamente dar esmola será de preceito na medida em que é ato virtuoso, isto é, enquanto a razão reta o exige. E, fundado esta, devemos considerar a esmola relativamente a quem a dá e a quem deve dá-la.

Quanto a quem a dá, devemos levar em conta que há de gastar em esmolas do seu supérfluo, conforme ao Evangelho. Dai esmola do que é vosso supérfluo. E considero supérfluo o que sobra não só do necessário ao indivíduo em si mesmo considerado, mas também das demais pessoas dele dependentes; e a isto se chama necessário à pessoa, implicando a pessoa uma certa dignidade. Pois antes de tudo, devemos prover ao nosso necessário e ao daqueles que de nós dependem; e depois, com as sobras, obviaremos às necessidades alheias. Assim como a natureza cuida primeiro, por meio da virtude nutritiva, de tomar o necessário ao sustento do nosso próprio corpo; e dispende o supérfluo gerando a outro, pela virtude geratriz.

Quanto a quem recebe a esmola, há de ter necessidade; do contrário, não havia razão de lha fazermos. Mas como uma só pessoa não pode socorrer a todos os necessitados, nem toda necessidade obriga sob preceito mas só aquela sem a qual não pode ser socorrido quem padece necessidade. Pois, nesse caso tem aplicação o dito de Ambrósio: Dá de comer ao que está morrendo de fome; se não o fizeres, mata-lo-ás.

Assim, pois dar esmola do supérfluo e ao que está em extrema necessidade é de preceito. Fora daí é de conselho, assim como conselhos também se dão para buscarmos bens melhores.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –­ Daniel falava a um rei não sujeito à lei de Deus. E por isso o concernente aos preceitos da lei, que ele não professava, devia lhe ser proposto a modo de conselho. – Ou, como podemos dizer, referia-se ao caso em que dar esmola não é de preceito.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Dos bens temporais conferidos por Deus, o homem tem a propriedade mas quanto ao uso, esse não lhe pertence só a ele mas, o supérfluo pertence também ao sustento dos outros. Por isso, diz Basílio. Se afirmas que de Deus te provêm tais coisas, isto é, os bens temporais, será por isso Deus injusto distribuindo esses bens desigualmente? Por que abundas tu e o outro mendiga, senão para ganhares tu os méritos de bem dispenderes, e para se ornar ele com os prêmios da paciência? Do faminto é o pão que reténs; do nu a túnica que conservas no quarto; do descalço o calçado que se estraga com os teus guardados; do indigente a praia que possuis enterrada. Por isso, com tantas causas, o injuriar, que lhe poderias dar. E o mesmo diz Ambrósio

RESPOSTA À TERCEIRA. – Há um certo tempo dentro do qual peca mortalmente quem deixa de dar esmolas. Relativamente a quem recebe, quando se acha em necessidade manifesta e urgente, nem aparece de pronto quem lhe socorra. Relativamente ao que dá, quanto tem supérfluo, que lhe não é de presente necessário, tanto quanto pode concluir, com probabilidade. Nem é força levar em conta todos os casos que no futuro poderão ocorrer; seria isso cogitar do dia de amanhã, o que Deus proíbe. Mas deve distinguir o supérfluo, do necessário, baseado no que acontece provavelmente e na maior parte das vezes.

RESPOSTA À QUARTA. – A promessa da Escritura acrescentada à honra deferida aos pais. – Para leres uma dilatada vida sobre a terra – assim a interpreta o Apóstolo. A piedade para tudo é proveitosa; porque tem a promessa da vida que agora é, e da que há de ser. E na piedade de todo está compreendido o dar esmolas.