Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 6 – Se devemos dar esmola do nosso necessário.

O sexto discute-se assim. – Parece que ninguém deve dar esmolas do necessário.

1. – Pois, a ordem da caridade não se funda menos no efeito do benefício do que no afeto interior. Ora, peca quem age, contrariando a ordem da caridade, pois essa ordem é estabelecida por um preceito. Ora, como tal ordem exige nos amemos a nós mesmos mais que ao próximo, parece que peca quem tirar do necessário para dar a outrem.

2. Demais. – Quem dá do necessário dissipa à sua própria substância, como é próprio do pródigo, segundo está claro no Filósofo. Ora, não devemos praticar nenhuma obra viciosa. Logo, não devemos dar esmola do necessário.

3. Demais. – O Apóstolo diz: E se algum não tem cuidado dos seus e principalmente dos da sua casa, esse negou até e é pior que um infiel. Ora, quem dá do necessário a si ou aos seus parece deixar de velar por e pelos seus como deve. Logo, parece que quem dá esmola do necessário peca gravemente.

Mas, em contrário, diz o Senhor: Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens e dá-o aos pobres. Ora, quem dá tudo o que tem aos pobres dá-­lhes não só o supérfluo, mas também o necessário. Logo, podemos dar do nosso necessário.

SOLUÇÃO. – O necessário pode ser considerado em duplo sentido. Num primeiro sentido, necessário é aquilo sem o que uma coisa não pode existir. E desse, de nenhum modo podemos dar esmola; tal o caso de quem posto em artigo de necessidade, só tivesse o com o que pudesse sustentar os filhos ou outros de si dependentes. Pois, dar esmola desse necessário seria tirar a vida a si e aos seus. E isso o digo salvo se se apresentasse o caso em que, tirando de si, desse a alguma pessoa de importância de quem se sustentasse a Igreja ou a república; pois, preferindo o bem comum ao particular, seria louvável, pela conservação da referida pessoa, expor-se a si e aos seus ao perigo de morte.

Noutro sentido, considera-se necessário aquilo sem o que não pode uma pessoa viver convenientemente, segundo a condição e o seu estado próprios, seus e dos demais de quem deve cuidar. O limite desse necessário não pode ser fixado de modo absoluto, pois, apresentados muitos bens, ainda não se poderia julgar tenha sido ultrapassado o necessário; e diminuídos muitos, ainda restaria o com o que possa viver convenientemente segundo o estado próprio. Ora, dar esmola desse necessário é bom; constitui porém matéria, não de preceito, mas de conselho. Agiria porém desordenadamente quem tirasse dos seus bens para dar aos outros, de modo que não pudesse, com o remanescente, viver segundo a conveniência do seu próprio estado e as necessidades ocorrentes. Ora, ninguém deve viver inconvenientemente. – Mas essa regra comporta tríplice exceção. – A primeira é quando se muda de estado, por exemplo, entrando em religião. Então, distribuindo todos os seus bens, por amor de Cristo, faz obra de perfeição, desde que se transfere para outro estado. A segunda é quando, sem que resulte grande inconveniente, podemos facilmente ressarcir o que de nós tirarmos, mesmo que seja necessário a condição da nossa vida. A terceira é quando esta alguém em extrema necessidade, ou também há alguma grande necessidade da república. Pois, nesses casos, seria louvável preterirmos o que consideramos necessário à decência do nosso estado, para obviarmos a uma necessidade maior.

Donde se deduzem claras as RESPOSTAS ÀS OBJEÇÕES.